06 julho 2010

Benjaminianas I - A dança da loba

"Dança ao Sol", fotografia de Isabel Gomes da Silva

para Marina Ann Hantzis

Destempero. Sim. Essa é a palavra que me vem à cabeça quando penso em meus demônios. Na verdade, quando os afronto, interrogo, ameaço. A esvaziada obsessão que eles alojam em minha consciência é desproporcional à força das ideias, ao poder da imaginação que me visita toda manhã para lembrar o que tenho, o que sinto, o que posso, o que sou. Na síntese de mim mesmo, percebo que as palavras que frutificam frases que erguem textos que consolidam valores, visões de mundo, destemperam-se diante da absurda busca pelo gozo solo, hedonista ensimesmado, sem partilha, sem contrapartida... O gozo do solipsista desprazer anula as fantasias em nome das quais jura existir, figurar. Fantasias valem a pena tão-somente quando protagonizam a emergência da realidade. Longe disso, mais do que delírio, é destempero puro, a ilusão de um sabor de míseros segundos, inevitavelmente sucedido por porquês e negações: do porvir, procrastinado; do agir, maculado; do fugir, flagrado e obstado.

Desperdício de tempo. Destemperar é isso também. A imaginação que transborda no instante anterior a todas as práticas constrange-se diante de imagens falsas, apressadas, que põem em acelerado movimento um crítico espírito frágil, refém do mundo das coisas e coisificações que ele mesmo tanto crê combater... Arrefecido, escondo-me, entristecido, na extrema dificuldade de dosar o mundo da vida. Os mapas para a minha festa surgem então borrados: onde encontrar o antídoto contra o esvaziamento dos meus sentidos e o prejuízo progressivo de minhas ideias? A iminência do niilismo prático me assusta!

Acrobacias, alegorias, cenários em cetim, preenchidos por uma avalanche ardil de sussurros e calores insinuantes, postulam a permanência. O único vestígio de permanência, contudo, é a perda da chance de fazer, ser, erguer-se diferente. Intrépido paradoxo: a obsessão contínua pelo prazer infinito estrangula a alternativa viva de uma permanência que transcenda o tempo e o espaço de um existir que implora ser superado, alterado, substanciado, aprumado.

Calafrios, nítida sensação de abandono, fantasmas e espectros rondam meu mundo, todos os mundos em volta do meu, daquilo que deveria ser meu. Já! É tão poderoso assim um inimigo que intimida apenas pulsões, tênues frestas da percepção? O corpo, termômetro e também alvo do ato obsessivo, congela ânimos e ideias após o ponto explosivo de seu desejo. Sonoridade e leveza, quase um poema, em fonema bretão: desire! De bela fronte, delicada e irresistível, desejo/desire comprime meu projeto de versar, prosear, colorir de letras meu universo.

O mar que - desire! - tanto almejo atravessar é provavelmente o remédio e a cura; negação, sublimação, afirmação; chance, batalha, vitória. Nas águas certas da inspiração vocacionada para o belo, o destino será pular ondas e fotografar imagens de boas vindas à dança da loba, conceito anfitrião de uma vida lutadora, alegre, intensa e esplendorosamente rica: fim da estrada para os meus demônios. Exílio.