23 julho 2010

Benjaminianas II - Se num mar de estrelas...

No início da década de 1970', dezenas de militantes do Partido Comunista do Brasil decidiram ocupar as margens do Rio Araguaia, no norte do país, e por lá criar focos à la Cuba de guerrilha. O intuito, historicamente já consagrado, era mobilizar a população camponesa contra o regime civil-militar que se prolongava no Brasil desde 1964. Do Araguaia, acreditavam os comunistas, nasceriam os germes de uma revolução social que se disseminaria por toda a nação. Alguns anos mais tarde, contudo, o resultado foi um verdadeiro massacre patrocinado pelas forças de repressão militar: 76 pessoas, entre militantes e populares da região, foram sumariamente assassinadas. Até hoje permanecem mistério o paradeiro de muitos corpos e as cruentas estratégias militares de matança, ocultação de cadáver e brutalidade contra aqueles que, em sua maioria jovens, acreditavam na força da liberdade e da ação humana.

Naquele ano, acalorado 68', havia muitas coisas em comum entre aqueles dois jovens. Ele, altivo, amante de todos os esportes, aficcionado pelo álbum branco dos Beatles e pela singeleza roqueira de "Between The Buttons", dos Rolling Stones, um incondiconal fã da estética de Glauber, despia preconceitos, sublimava intolerâncias, expurgava todas as formas de morrer por nada. Queria porque queria - e acreditava nisso veementemente - mudar o mundo. Não perdia a chance de se repetir à exaustão: "O que realmente me interessa é amar e mudar as coisas!". No contrapé, ela, ternura angelical, fragilidade e sensibilidade em medidas corretíssimas, sonhava viver a vida, correr mundo, conhecer culturas, cineastas, literatos; imaginava-se diariamente nos sofás amorosos de Kundera, nos mares de Hemingway, no Rio de Janeiro de Machado de Assis. Ele e ela, consonantes, vogais em síntese de uma palavra sonora - AMOR -, eram a ideia pura de um par perfeito, eterno, paradigma romanesco.

Contagiado pela febre política estudantil de sonhadores universitários e trabalhadores do planeta, os quais lutavam contra a censura, o autoritarismo e as ditaduras civis-militares em seus países, ele optou pela luta armada, pelos focos guevaristas de guerrilha no campo, nas florestas brasileiras. Acuada pelo conservadorismo moral de toda a sua tradicional ascendência familiar, ela acabou por aceitar a cultura do bacharelismo e ingressou na Faculdade de Direito: seus pais por ela sonhavam com um lugar na suprema corte, no delírio pequeno-burguês de patronesse da ordem, da moral e dos bons costumes. Caçavam para ela bons pretendentes entre as famílias da elite da cidade.

Ele, quando soube que partiria para missão revolucionária em menos de três dias, levou-a, às escondidas, para um final de semana defronte do mar. Sob o belo e inigualável sol de Copacabana, descobriram e discutiram a vida, fizeram planos, anteciparam em desejo e bem-aventurança a felicidade que compartilhariam nos anos seguintes, por toda a vida. Amaram-se fervorosamente, com alma, corpo, sonhos de virtude. Congelaram o tempo e reduziram o mundo àquele quarto de hotel com vista para o oceano atlântico. Ao cair da tarde, quando as estrelas já anunciavam a amante e cálida noite carioca, trançaram braços que empunhavam cálices de vinho e pactuaram uma existência perene, tranquila, comum: "A nós!".

Ela, de volta à vida diária, afundou-se nos estudos e, ciente da aventura maluca na qual estava mergulhado seu amor, desenvolveu uma forte espiritualidade. Estudar e orar passaram a protagonizar seus dias.

Alguns meses mais tarde, quando ela se preparava para as provas finais do primeiro ano da faculdade, derrubou-lhe a notícia de que os "terroristas" da Serra Forte haviam caído um a um após cruentas investidas do exército nacional na região. A operação "Morte à Subversão" realmente havia dizimado os focos guerrilheiros, pondo fim às esperanças e aos desajustes dos jovens revolucionários.

Dele nunca mais nada se soube. Seu corpo jamais fora resgatado pelos pais e familiares. As circunstâncias de sua morte permanecem segredo de Estado em proibidas gavetas dos arquivos da vergonha, dos quais constam os maus-tratos e a tortura contra aqueles que lutaram pela liberdade de todo um povo numa época de uma ainda possível nação.

Ela, magistrada, atua hoje em julgamentos de criminosos comuns, ladrões pobres da periferia, punguistas, desempregados crônicos, negros, aqueles a que Gramsci chamou subalternizados - impedidos por uma sociedade excludente e violenta de poder saborear as frutas, os doces e o vinho da vida. Casada com um desembargador décadas mais velho e mãe de um casal, já adolescente, mora num extenso e luxuoso tríplex em bairro nobre da capital.

Dele, ela guarda a lembrança de, na juventude, ter se apaixonado por um ingênuo sonhador.