08 julho 2010

Latinizando I - tocando a bola

Foto da Seleção Brasileira que disputou a Copa de 1982, na Espanha. Poucas vezes na história do esporte bretão em terras brasileiras um time tão talentoso foi reunido e encantou tanto a nação. O versinho "Voa, canarinho, voa!" emblematizou aquela geração de gênios dispostos a tocar a bola, fazer muitos e belos gols e emocionar as multidões

Lembro Belchior, no ano em que eu tinha vinte e cinco, cantar que, em seu quarto de século de sonhos, sangue e luta sul-americana, um tango lhe caía bem melhor que um blues. Amo o blues, principalmente aquele dos grandes mestres da guitarra, trilha sonora da urbana noite de Chicago. Revendo meus caminhos literários e a confiança que depositei na estética de minhas imagens e conceitos em movimento, confesso que o drama tão característico do tango, unilateralmente envolvente e sedutor, tem me convencido a oferecer-lhe efusiva e profunda paixão. Aliás, paixão é a palavra símbolo da latinidade que tanto me encanta nas curvas, formas e paisagens do mundo.

A cultura latina - nas letras, nas telas, no esporte, no amor... - é envolvente, conduzida com sobriedade e muita volúpia. Ela é, a um só tempo, pulso e reflexão, entrega desmedida e racionalidade comedida. Fúria e paixão.

Os ritmos latinos - caribenhos, sul-americanos, agrestinos ou caboclos brasileiros - expressam muitas cores e miscigenações: o negro, o vermelho, o amarelo, o branco, tropicalizados, compõem uma fina mistura de alegria, lamúria, descompromisso e olhos firmes no horizonte. Poucas vidas humanas são tão marcadas pela inteligente dialética passado-presente-futuro como as latinas. Na América Ibérica, coração valente da humanidade, está o exemplo maior de uma história que conecta biografias e trajetórias coletivas, barricadas de liberdade, desejo, anseios pelo porvir. Recuperando o belo conceito de C. Wright Mills, na latinidade reside a evidência maior da verdadeira imaginação sociológica.

Ser latino é cotejar noções e visões de felicidade e lançá-las ao crivo incisivo do tempo histórico, exigindo respostas que tragam calorosos anúncios do devir, do merecido e ensolarado depois-do-amanhã. Entre nós, latinos lobos dançarinos, o tempo histórico, mais que um fardo, é um desafio provocador, necessário.

Dia desses, numa entrevista concedida a Revista Caros Amigos, mês de junho, li o craque Sócrates, imortalizado no escrete da seleção canarinho de 82', reiterar que, para nós, brasileiros, porção substantiva da latinidade-mundo, o fuebol tem de ser espetáculo, pura arte; tem de encher olhos e sensações, fazer pular, gritar, cantar, vibrar por detalhes, dribles, lances de gênio, gols épicos. Num mundo tão pragmatizado e tornado mercantil, Sócrates me lembrou o grande Dario Pereira, zagueiro são-paulino e uruguaio na década de 80'. Certa feita, quando técnico de futebol, Dario foi interpelado sobre como jogaria seu time. Ele, latinamente, respondeu: "Tocando a bola pra frente e procurando fazer o gol". Fascinante! Dario Pereira e Sócrates, o dono do toque de calcanhar mais elegante do futebol em todos os tempos, resgatam, pois, o ameaçado de extinção futebol-arte.

A seleção brasileira de 1982, por exemplo, que disputou, sob comando do tricolor Telê Santana, o fio maravilha das Laranjeiras nos anos 50', a Copa da Espanha, não venceu, caiu diante de uma Itália de futebol quadrado e setorizado, mais parecida com um pavilhão militar do que com um time de futebol. O choro pela derrota, contudo, passou e já foi esquecido. O que está para todo o sempre gravado na retina e na memória futebolística da latinidade são o espetáculo e a magia deixados por Éder, Leandro, Júnior, Zico, Chulapa. Sócrates, Falcão, Cerezo, Oscar e companhia ilimitada!

Ninguém escreve poesia para vender livros e enriquecer-se materialmente. Não há quem esculpa, pinte, proseie no intuito de celebrizar-se midiaticamente. É quase certo que, se isso ocorre, trate-se de tudo, menos arte - nem poesia, nem escultura, nem literatura, nem cinema...

Pitágoras, o filósofo de Samos, já nos ensinara, cinco séculos antes da era cristã, que nos espetáculos da vida (e ele se referia especialmente aos jogos esportivos de seu tempo) existem tão somente três tipos de sujeito: os que disputam, e por isso estão ocupados em vencer e não perder; os que vendem e compram, e portanto querem saber de lucrar ou não gastar demais; e os observadores, aqueles que não querem lucrar nem conquistar nada, uma vez que desejam saber a respeito do que está à volta, teorizar, tematizar as coisas, as pessoas, a vida. Esses, disse o filósofo, são os verdadeiros cidadãos. Querem conhecer, experienciar, partilhar ideias e opiniões. São o embrião moral do intelectual de que tão carente somos hoje em dia...

Conhecer, nesse sentido, é algo bastante latino: requer dançar, seduzir, viver. Nada mais. Por nada mais. E assim se vence, de um modo muito próprio, ao som de grandes tangos, fortalecedoras tragédias. É isso.