04 setembro 2010

Ando devagar...


"A cadeira", fotografia de Ricardo Bhering

As tais fichas, responsáveis pela emergência dos fatos em nossa consciência, acabam mesmo caindo. E é graças a elas que ocorre com nossas ideias algo muito parecido àquilo que o genial geógrafo Milton Santos designou como sendo os três mundos num só, no tocante ao chamado processo globalizatório: o que nos fazem ver, celebrado e fascinante; o verdadeiro, perverso e desumano; e o que desejamos, outro, possível como nossa própria humana condição de desejar e fazer mais e melhor, sempre!

Via de regra, as fichas, com as três faces de uma mesma moeda, demoram mais que o necessário, muito mais que o suportável. Mas, afinal, caem como pedra.

Tomados pelas urgências de um mundo sempre com pressa (outra das facetas daquele primeiro tipo de mundo para impedir nossa visão das suas outras duas dimensões!), esquecemo-nos de definir prioridades, essas mágicas e exigentes peças de uma vida firme, de lentos e seguros passos, esclarecidas posições. Eleger e definir na ação um conjunto de prioridades para a vida, para além de todas as contas, é tarefa complexa; mas é igualmente imprescindível para que o tempo, soma inquieta e inevitável de nossas horas, dias, semanas, meses e anos, seja suave, frutífero, bela trajetória. Como - diz-se do olhar de Kant em seu último alento de vida - deve ser incrível voltar-se para trás, para as pegadas deixadas pelos caminhos percorridos, e repetir, tranquilo e satisfeito: "É, foi bom, muito bom!". No bom caminho, as prioridades devem ser as únicas urgências. O resto são tão-somente minúsculas pedras, cujo destino, como numa inocente brincadeira de criança de arremessar e sorrir, deve ser o fundo do mar. É isso.