16 setembro 2010

Latinizando II - o mistério da loba

Os mosaicos em verde, branco e grená da torcida do Fluminense são efetivamente um dos belos espetáculos latinos de nossa cultura. Organização, sofisticação e esplendor fazem da torcida tricolor um dos grandes personagens de nosso tempo, um encontro da elegância, da vibração, da arqueologia mais tradicional da perfeição humana

para o Fluminense Football Club
e minha musa tricolor, Ber-Linda.

Escrevi faz pouco mais de um ano e meio, ainda fustigado pelos acontecimentos finais de 2008 - um ano que começou tenso, desenvolveu-se para além das melhores previsões e terminou quase trágico! -, que crises correm aos ventos. Em parte porque, sinal de que alguma coisa não anda bem, os próprios sujeitos da crise buscam porto-seguro longe das maiores e mais drásticas consequências. Na maioria dos casos, entretanto, as crises são mesmo conduzidas pelos ventos, esparramadas pelo mundo, pelo maior número possível de espaços em que existam e convivam gente e seus sonhos. (Gramsci, sempre atual, destacava que crises são indicativo de que o velho agoniza e o novo ainda não aponta no horizonte; daí serem crises revelações de nossos medos e temores, uma possibilidade sempre latente de ebulição e explosão da novidade, seja ela qual for.)

No mundo latino, o americano, em caráter sempre especial, a krisis (do grego situação de instabilidade, incompletude, a urgência da ruptura) prolonga-se por mais de meio milênio, evidenciando nossas veias ora dilatadas, ora abertas, ora misteriosamente bailarinas.

Condenados a abastecer países-metrópoles, casas financeiras e monetárias, indústrias e culturas dos universos "civilizados" do hemisfério norte, o arco-íris de etnias latinas que cruzaram vidas e por aqui forjaram novas éticas e estéticas protagonizou por séculos uma aguerrida história de dor e insurgência. Entre nós, ainda que nada predispusesse imaginar, qualquer hipótese de futuro sempre passou pelas marchas humanas da resistência. Povos indígenas em suas múltiplas e diversas determinações; negros de tantas línguas, sóis e luas africanas; europeus de matizes socioeconômicos infinitos; caravanas e expedições de gente, de humanidade... perfilham, perfazem, perscrutam o sangue e a alma latinos de um povo novo, lembrado e sempre homenageado por Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro que apostava no Brasil como uma nova Roma, latinizada, melhorada, epicentro cultural e de convergência das melhores e mais sofisticadas formas de inteligência e solidariedade num futuro próximo e, sem dúvida alguma, inadiável.

O autor de Maíra acreditava que povos de todo o planeta viriam à América - ao Brasil, em especial - para ver, admirar, aprender novas formas de humanizar e permitir humanizar-se. O sangue negro e índio no qual fomos lavados e temperados exporia aos quatro cantos do globo forças criativas, embebidas na dança, no trejeito, nas saídas francas, corajosas, de disposição incansável de mestiços latinos para se tornarem porta-vozes da ação necessária do futuro.

O mistério da loba - musa dos povos solares e da coragem latina - contagiará as formas humanas de por aqui prestigiar o amor, o poder da sedução. Reduzirá a pó o medo do enfrentamento e eventuais complexos deixados por séculos de colonização renovada, que nasceu no império da faca e da cruz, atravessou a prevalência cruel de latifúndios e acordos espúrios impostos pela coroa britânica e atracou, em modernos e pós-modernos mares, na prerrogativa inquestionável dos deuses do mercado, inimigos declarados de tudo que cheire a liberdade, igualdade, fraternidade.

Na atraente magia da loba latina - que é alma e poder do amor -, a dança principal expõe a trajetória de corações valentes e escancarados, permanentemente voltados ao amanhã. O mistério da fêmea-alma, energia de doce e incrível entrega, verdade, talvez possa começar a ser desvendado no olhar latino, misto de ternura, compaixão, força selvagem; e também reunião equilibrada e acolhedora de paixões, desejos, necessidades de conferir à vida valor e sentido, mais, muito mais do ainda não vivido.

Na latinidade que fortaleceu a cultura de um povo novo, aquecido na generosidade orixá e no vibrante ritmo de seu toque de bola, de suas danças e sonoridades, de pura estesia, desponta um caminho certo, qual seja: o do coração do mundo e dos mosaicos audaciosos de cores de pura alegria, atrevimento. De imaculada resistência. E esperança.