22 outubro 2010

Desterrar


"Distribuição das Armas" (1928), do muralista mexicano Diego Rivera

No próximo dia 15 de novembro, dia da República, estreia na CBN Londrina - 93,5 FM - minha coluna diária com comentários sobre "CULTURA e SOCIEDADE". Numa palavra, sobre tudo e mais um pouco. Para o piloto do comentário gravei alguns apontamentos sobre o drama dos mineiros aterrados no Chile, no Atacama, e a dimensão midiática e de poder que a história conseguiu alcançar. Todos os dias, de segunda a sexta, irei tocar no invisível, no delicado, naquilo que de toda a parte negam luz, clarividência. Sociólogos na rádio são assim: provocadores. Abaixo, o texto que preparei para meu programa piloto

Na última semana, o mundo acompanhou atento o resgate de trinta e três trabalhadores soterrados numa mina no norte do Chile, no Deserto de Atacama. Por 70 dias, centenas de metros abaixo do chão, os mineiros não puderam ver imprensa e governos de todo o mundo mobilizarem todos os recursos possíveis para tirá-los com vida de seu isolamento forçado.

À primeira vista, portanto, sobravam solidariedade e comoção. O que os milhares de holofotes, telas e microfones das mídias globais e o semblante de apreensão de chefes políticos de todo o mundo não permitiam ver é que aquele não foi nem será o último desses acontecimentos envolventes, vividos no limite entre o humano e o inumano.

Desmoronamentos, deslizamentos, soterramentos, inundações, despejos, todos os tipos de exclusão acompanham a existência dos trabalhadores em toda a parte, o tempo todo.

Bom seria se daquele exemplo em Atacama ficasse a sentinela incansável sobre as condições reais de vida em que se reproduzem quase dois terços da humanidade, impedidos de ver a luz do sol e o brilho do amanhã.

É justo que os mineiros do Atacama encontrem agora afetos e compensações. Não há dúvidas ou questionamentos quanto a isso. É ainda mais justo, porém, que todos nós não esqueçamos que perto, bem perto, à esquina, na periferia, nas favelas, nas fábricas pesadas, nos latifúndios, nas indústrias e confecções clandestinas, nos muitos cárceres do planeta, nosso sistema duro e quase sempre cruel aprisiona e enterra gente que mídias e governos não veem - e muitas vezes escondem de todos, para manter limpa a imagem que vendem para as telas, páginas e ondas da grande mídia burguesa, para o horário eleitoral, para os livros didáticos e para as consciências excessivamente despistadas. É isso.