25 outubro 2010

Nunca te amei tanto desde ontem


Imagem do ensaio "A Naked Night Out With Monica Mattos", no qual a fotógrafa Autumn Sonnichsen captura a diva pornô brasileira pelas ruas de São Paulo na vastidão da madrugada

O que foi aquele olhar perdido, meu Deus? Havia nele uma nítida busca pelo tempo, um simples lugar. Livre como no melhor da tradição libertária, aqueles olhos de um amendoado retumbante demonstravam puríssima ingenuidade e procuravam, num insucesso absoluto, camuflar sua poderosa sedução. 

Perdi-me. Estava tão centrado para o debate sobre a pós-modernidade... Não consegui pensar de fato em mais nada, senão no desejo de ordenar aquele olhar displicente, magnético, tira-fôlego. Isto. Sem ar. Fiquei, numa tão somente meia metáfora, paralisado, sem condições de oxigenar os pulmões tranquilamente. Naquele instante, aliás, sentenciei-me a longas noites, tardias manhãs, sem nunca jamais saber coisa alguma a respeito de tranquilidade...

Cativei-me de pronto. E é possível que para sempre.

Assustei-me diante do apenas possível enlace eterno daquele cruzamento tão veloz de olhares porque me indispus brevemente com a chance de aquilo ter sido mais uma das milhares de imagens que nos atropelam dia a dia. Estamos mesmo numa era de muitos instantâneos. Percebi logo, entretanto, que quanto mais me esforçava por esquecê-lo, o distraído olhar - parceiro de lábios que proferiam palavras doces de um modo enlouquecedoramente suave - se perdia ainda mais em mim, incitando, deliciosamente, novas permissões para longos voos de fantasia e estrondosa felicidade.

Virtualizei-me. Os dias eram agora a lenta passagem de imagens que encontravam lábios, os meus e os daquele olhar. Um instante de perdição, um flagrante de sentidos, e aprendi a conviver de modo sempre revelador com a potência de minha imaginação. Depois de muito tempo, senti espraiar-se em mim o fôlego das ideias, o verdadeiro poder da sedução.

Quando atento, o olhar que me reinventou naquela manhã tão pouco promissora dividia-se entre o manter de sua calmaria excitante e o despertar de seus mistérios. Por lapsos diminutos de tempo, os lindos olhos mansos tentaram me convencer de sua normalidade, de sua exuberante indistinção. Nada. Minha imaginação reinventada assumia, durante esses esforços insuficientes e precários, o ativo papel de validar e sintetizar a excitação dos mistérios: jovem demais, longe demais, por isso mesmo desequilíbrio pulsante.

Cair do meu real era incidente necessário naquela manhã de segunda-feira. Era imperativo que algo até então nunca existente surgisse e me dissesse: "Nunca te amei tanto desde ontem". Satisfazia-me incontrolavelmente sugerir a mim mesmo que, na noite de domingo, durante os momentos de programação da semana,  todas as estrelas do céu tivessem resolvido, de maneira conspiratória, fabricar-me aquele olhar. Um presente. Os astros, enfim, haviam se rebelado: "Há um cérebro no mundo que precisa se perder para, antes tarde do que nunca, recuperar-se espantosamente. Hora de brilhar".

Elevei à mais exo das esferas a minha autoestima. Muito mais do que colisão de olhares e lábios em frenesi, aprendi a reunir em puro êxtase nossos corpos, inteiros, na força de seus detalhes e segredos. Tudo era muito envolvente e saboroso. Dia após dia, minhas palavras se reproduziam com enorme facilidade, multiplicando crônicas, contos e ensaios. Um velho romance empoeirado no fundo da gaveta ganhava vida nova, e em mim crescia a determinação de torná-lo  um livro emblema, definição de mim mesmo. Um título muito honesto a esse romance seria "Se a luz dos olhos seus"...

As palavras surgiam da virtualidade do encontro de nós dois, hipertextualizavam aquilo que havia de melhor em mim, loucuras e devaneios, esperança e proposição. Eu não precisava de mais nada real, stricto sensu; perfazia-me  somente o imaginar.

Lembro-me sempre de Fourier agora. Aprendi com ele que antes é necessário perder-se na abstração, para que algo de concreto se inspire no desfile bailarino das inspirações desconexas, anexas, confusa e ordinariamente complexas. É isso.