27 outubro 2010

Por que votar em Dilma Rousseff?


Encaminhei hoje, a pedidos, o texto abaixo para o jornal FOLHA NORTE, que circula em Londrina gratuitamente todo final de semana. O texto será publicado na edição do próximo sábado, véspera do segundo turno das eleições presidenciais. Sempre me abstive de um envolvimento mais orgânico nos processos eleitorais, em grande medida para manter a independência e a força crítica das palavras. Neste 2010, entretanto, não pude deixar de manifestar abertamente meu voto: no primeiro turno votei em Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, e agora voto, calmo e tranquilo, em Dilma Rousseff, do PT. Tomei essa postura em face de um processo totalmente despolitizado e moralista, no qual trouxeram à tona temas nada públicos, nada republicanos, com forte viés religioso e conservador. A direita brasileira, atracada na grande imprensa empresarial, perdeu o prumo e tem feito tudo e de tudo para desqualificar a essência da democracia, qual seja: o debate franco, pautado em projetos e visões de mundo. Escondida atrás e ao lado de forte penetração social por imagens e capitais, a burguesia nacional - aquela que nem essa desinação merece - resolveu, de modo atávico, difundir ódios e preconceitos, aniquilando o diálogo aberto e ideológico. Por isso, abri meu voto e esbocei alguns argumentos que o tornem público, sugestionável a novas contribuições e reflexões. É isso.

Em 2002, com a eleição de Lula, partilhei da ideia de que o Brasil refundava sua condição de nação republicana e democrática. A chegada de um operário e de um partido de esquerda à presidência do país redesenhava o mapa político e social do Brasil, alimentando novos imaginários e novos sentidos para a cultura nacional. Em pouco tempo, as dificuldades para superar a política econômica do governo anterior, conservadora e asfixiante, e uma timidez mórbida para fazer reformas estruturais que pusessem em xeque a hegemonia da pequena política de conluios e bastidores ultrassecretos, decepcionaram muitos dos entusiastas de primeira hora. Eu ainda sou um desses feridos.

Não é, contudo, nada honesto intelectualmente misturar os dois projetos que estão em disputa neste segundo turno das eleições presidenciais, demarcando-os pela indistinção. Dilma e Serra encabeçam visões diferentes de Estado e sociedade e defendem papel diferente para o governo de uma nação.

Nos últimos oito anos, com Lula presidente, houve a criação de um vigoroso mercado de consumo, com distribuição de renda entre aqueles que sempre estiveram à margem da história nacional; o salário mínimo deixou de ser uma fagulha na vida econômica nacional; o crédito popular ampliou o número de pequenos empreendedores. Enfim, o Brasil criou uma atividade econômica interna que livrou o país da exclusividade de ter de exportar bens primários para sobreviver. Além disso, não criminalizou os movimentos sociais e impediu, com isso, que o conservadorismo de plantão usasse o governo para perseguir e difamar os sem-terra, sem-teto, sem-amor deste país. 

O Brasil também teve uma elevada recuperação do papel do Estado, acabando com as privatizações e reformalizando a economia: os bancos públicos deixaram de financiar exclusivamente milionários e passaram a fomentar cooperativas e iniciativas de economia solidária, servindo a nação como indutores do desenvolvimento e da geração de emprego e renda. 

Necessário destacar também que o país avançou com a extensão da vida universitária por meio de uma abertura do ensino superior aos trabalhadores e seus filhos. Num país em que antes somente ricos se laureavam, a cara das futuras elites já tem novas colorações: branca, vermelha, negra... Na política externa, agora soberana, como tão bem disse Chico Buarque na última semana, o país deixou de falar grosso com Bolívia e Paraguai e fininho com os EUA, enterrou o absurdo da ALCA e fortaleceu relações com a América Latina, a África, a China, a Índia e – por que não? – o Irã.

Em síntese: não obstante os contrastes sociais que persistem no país; a necessidade de avançar muito mais em saúde e infraestrutura; a emergência de reformas políticas que privilegiem partidos e projetos e acabem com a corrupção nas entranhas do poder; e a coragem ainda por vir de enfrentar o monopólio das comunicações de massa, a nação prosperou e definiu um rumo mais socializante, menos liberalizante e entreguista. É por isso que Dilma Rousseff merece o voto do Brasil.