03 novembro 2010

Todos os buracos do mundo


Exemplares do novo livro do guitarrista-escritor Tony Bellotto, publicado pela Companhia das Letras (2010): leitura prazerosa e muitíssimo inteligente

Em um dos capítulos de seu novo romance, "No buraco", Tony Bellotto, o conhecido guitarrista da banda de rock Titãs, leva o protagonista Teo Zanquis, um esquecido integrante de uma banda oitentista de rock, dona de um único sucesso, hit parade, a Seattle. Em memórias pessoais, Teo passeia por seus tempos áureos e também rasos, numa bela mistura de exaltação e ostracismo. Nos EUA, na velha capital grunge e dos movimentos altermundistas da década de 90', Zanquis procura pelo túmulo de Jimi Hendrix. Entre um I'm sorry e um Excuse me, vocabulário máximo daqueles que se perdem pelos dicionários básicos da língua de Shakespeare, Teo Zanquis procura pelo cemitério do exímio guitarrista da geração Woodstock. Lembra, em suas andanças e divagações, que Jim Morrisson, líder do The Doors, que também morreu das overdoses da geração que queria mudar o mundo, foi enterrado em Paris e era sempre lembrado com reverência. Zanquis então passa a se perturbar: será que era por ser branco, filho de classes médias, ter estudado em bons colégios? O fato de ninguém saber informá-lo sobre em qual cemitério estava sepultado Hendrix - e, no limite, ninguém nem saber quem fora o grande Hendrix - deixou o protagonista de Bellotto em justificado estado de indignação. Ao final desse capítulo, o já antigo pop star manda tudo ao caralho, inclusive Paris e o racismo que faz desaparecerem gênios e verdadeiros talentos. O livro de Tony Belloto é delicioso e imprescindível. É isso.