24 dezembro 2010

Novo tempo

"Feliz Ano Novo", fotografia de Maria Clara Eusebio

Descobrir na curva sinuosa, penosa, um atalho tranquilo para a esperança. 

Identificar nos acordes simples, nas melodias fáceis, o som perfeito para um encontro memorável.

Retirar da timidez das poucas palavras as letras ideais para compor o tempo sonhado.

Nutrir de paz a ventania cotidiana de toda manhã.

Buscar descanso sob copas frondosas e formosas, tão pouco vistas pelos indiferentes olhares sem poesia. Aliás, poetizar luzes e sombras, abraçar jovens e vividos, amar a todos, explosivamente.

Contar números de toda a sorte, mas sempre oferecer destaque aos pequenos, aparentemente insignificantes. Não é recente a certeza de que nas pequenas somas residem as pistas para as fortunas incalculáveis, do espírito e da vida.

Sentir o mar até onde ele não existe, degustá-lo com a palma dos pés, sorvê-lo com o maroto sorriso dos incansáveis.

Não cessar de repetir para si mesmo que a vida é um permanente porvir: será o que queremos que ela seja, desde que lutemos, brademos, façamos insurgir nossos desejos revolucionários.

Revolucionar tudo e todos. De lugar. De cor. De fonte e representação. De estados de espírito. Chorar alegrias, alegrar as indecifráveis tristezas humanas.

Humanizar, percorrer, acreditar, fazer o que é certo. 

FELIZ NATAL. GIGANTE 2011!

18 dezembro 2010

Pós-modernidade: os intelectuais e o espírito de nosso tempo

Sasha Grey, atriz pornô estadunidense, que protagonizou "Girlfriend Experience", do cultuado diretor Steven Soderbergh, em 2009, e já desponta como musa pop e pós-moderna por seu declarado amor ao rock, à filosofia, à boa arte e à grande cultura. A bela Sasha sintetiza bem o atual tempo de ecletismos, fragmentos, diversidade e paradoxos: seduz, inquieta e causa todo tipo de polêmica, despertando paixões absolutas e confusas, labirínticas.

Expus, em 21 de outubro, durante o III Encontro Científico de Psicologia da Faculdade Pitágoras (Londrina/PR), cujo eixo temático era "A Psicologia e as Demandas Atuais", uma palestra com o título "Pós-modernidade: mídias, violência e sexualidade". Entendo que esse seja um tema de abrangência infinita, capaz de abraçar a Deus e toda a sua época. É bem provável que por essa razão eu tenha me detido de modo mínimo às particularidades do subtítulo e buscado alargar minha fala em torno da própria ideia de pós-modernidade - ou de cultura pós moderna, posto que partilho da certeza de que não existe um tempo novo após a ainda inconclusa e desafiadora modernidade.... Hoje, editando meu texto para publicar aqui no "Espaço", pensei, pensei, e achei melhor mudar o subtítulo. Acredito que esteja mais sintonizado com o conteúdo - e não apenas a aparência - de minhas ideias sobre o tema.

No curso dos últimos trinta anos, a partir do conjunto de reformas liberalizantes e desregulamentadoras postas em acelerado movimento global por Thatcher e Reagan, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos da América, respectivamente, a construção social da realidade vem se fragmentando, dispersando e enfraquecendo sujeitos, concentrando poder e riqueza material nas mãos das grandes corporações transnacionais. Para que essa nova configuração da ordem mundial reunisse forças e acumulasse as energias que a tornam hegemônica nos dias atuais, espraiando-se por todas as nações e unificando compulsoriamente a nova territorialidade planetária, novas ideologias e inéditas (ao menos no tom e na intensidade) práticas tiveram de vir à luz. Vamos lá ver.

Em um plano bem geral, destaca-se na chamada pós-modernidade – um tempo histórico impreciso e escorregadio, mas, sem dúvida, palco de um momento novo da cultura e do comportamento humano – a primazia da estética sobre a ética. Aparências, mais do que nunca, contam e devem enganar, iludir, persuadir a esquecer conteúdos, denegá-los, desvalorizá-los. Reféns de uma realidade publicitária, imagética e hipertextual, os indivíduos mergulhados na liquidez contemporânea perambulam entre cores, sons, formas e seduções múltiplas que se metamorfoseiam a toda hora, impedindo solidez, durabilidade, lastro para nós firmes de sociabilidade e relacionamentos humanos. Nesse sentido, é importante destacar que o culto pós-moderno às mercadorias e aos novos fetiches da tecnologia e da comunicação acaba por revalidar o isolamento da estética atual: nos labirintos dinâmicos e irracionais de uma consagração individualista, consumista e egocêntrica da realidade, a posse – o TER – sobrepuja o SER, redesenhando as formas do viver junto. Como tão bem intuiu Eric Fromm, ter é algo que transcende o ser, posto que revela as urgências de um tempo voltado exclusivamente para o solipsismo das almas em busca inefável por prazer e delírio.

De modo paradoxal, esse mesmo topos do consumo e do discurso que incita ao refúgio, ao isolamento do espírito, ao salve-se-quem-puder, exige grandes multidões em trânsito, vias férreas, aéreas, rodoviárias, e também em corredores de centros de lojas e espaços de entretenimento fácil, descompromissado e quase sempre bestializante. Trabalhar muito para consumir e evitar a aproximação de coletividades críticas e contestadoras; ver pela TV e pela rede mundial de computadores imagens e banners dos objetos que fecundam a felicidade individual e o status ilusório de socialização forçada e oportunista; aceitar passivamente a naturalização do mundo, dos negócios humanos, rendendo-se diante da inexorabilidade do mercado e do capital, agora deus único de duas cabeças... Tudo isso endossa o desperdício de todas as energias disponíveis na extensão da vida no planeta. 

Os passos que destroem o planeta, por esgotá-lo em seus recursos naturais e agravar a questão do nó de sua própria sustentabilidade, desperdiçam também as vidas humanas: trabalho, educação, lazer e conhecimento precários para um futuro em que a certeza, se houver, será a de que nada ficou, nada deverá perdurar. Trata-se, portanto, da morte da imortalidade, a qual havia se tornado possível aos humanos por meio de suas obras, lições e exemplos coletivos, altruístas, em favor de todos. O crime revolucionário de Prometeu, à porta da pós-modernidade, tornou-se ato praticado em vão, leviano até.

Outra absurda contradição se evidencia no congraçamento do avesso pós-moderno, qual seja: aquela que revigora novas e variadas formas de exclusão. Na já antiga sociedade industrial – regulada pelo fordismo do pleno emprego e dos rigorosos acordos entre Estado, capital e sindicatos – as políticas públicas alcançavam muitos, quase todos, a depender do país e do estágio de desenvolvimento da agora considerada anacrônica e descontextualizada ideia de luta de classes. Na tradição clássica, onde havia forte organização operária, impactante pressão de diversos setores da sociedade civil, a sociedade política tornava-se agente de mudanças e transformações que desembocavam na satisfação de necessidades humanas básicas, elementares e até avançadas (em sentido lato!), como subsídios para a produção e recursos para educação, pesquisa, arte e cultura. Vale destacar que essa soma entre sociedade civil consistente e em permanente movimento e uma sociedade política atuante e caudatária dos movimentos nascidos e desenvolvidos na organização social resulta naquilo a que Gramsci chamou “Estado Ampliado”. E é desse conceito, em suas múltiplas determinações, que se trata a crise atual e a força emergente do pós-moderno: no lugar das velhas utopias e lutas políticas, convergentes e insurgentes, reina hoje a distopia singular da divergência e da resignação. Em meio a tanta cautela e toalhas úmidas diante do calor da realidade, as diferenças e resistências são criminalizadas, expurgadas, perseguidas, predatoriamente consumidas pela indiferença e pela brutal espoliação. Noutros termos, travestis, homossexuais, negros, mulheres, ativistas políticos etc. sofrem os apenamentos de um discurso que na prática detém e aprisiona aqueles que discordam, contestam, enfrentam, resistem. Apropriadamente, toda essa insensatez tem sido chamada de era do pensamento único. Absortos e fragilizados, no contrapé de todas essas novas configurações do direito penal e do estado policial – que pune e responsabiliza os pobres por sua pobreza e persegue os excluídos que não compõem a sociedade de consumidores – milhões optam por recrudescer fundamentalismos e práticas violentas. Coletivizam-se na negação do humano, rivalizando, sem saber, com o mundo que querem negar, desconstruir. Outro sinal das contradições líquido-modernas.

Para muito além de temas sociopolíticos e culturais tão autoevidentes, o pós-moderno faz caminhar pelas sombras ameaças bem menos visíveis e aparentemente muito menos dramáticas. A derrocada ambiental é uma dessas questões despercebidas.

O recente apelo a discussões em torno das mudanças climáticas e do aquecimento global, que trazem à galope o derretimento das calotas polares, o elevamento do nível das águas oceânicas etc., acaba por hegemonizar um debate de abrangência e conseqüências muito maiores. A crise nos modelos urbanos nascidos com o código moderno e proletário de ocupação do espaço faz transbordarem problemas como os do destino do lixo e as novas doenças e epidemias provocadas por um convívio cada vez menos planejado e sempre mais improvisado, insalubre. No mesmo ponto de inflexão, surge a temática das múltiplas formas de poluição – auditiva, visual, do ar, das águas – e de contaminação dos alimentos. Em direção ao campo, o agronegócio – que torna a vida campesina a atual vitrine do velho fordismo de serialização e desperdício de tempo e energia de vida – prolonga desertos verdes e se alia, como um irmão menor e aprendiz, aos latifúndios totalmente desproporcionais às atuais necessidades de produção de alimentos saudáveis, livres de pesticidas e defensivos (nomes eufêmicos para veneno!).

A título de arremate – num debate ainda indefinido, aberto e assediado por tantos saberes, disciplinas e formas de conhecimento -, um ponto de extrema importância para cercar o objeto pós-moderno é o da exaustiva e também progressiva banalização dos valores essenciais à urgência do quase esquecido mundo moderno.

A vida humana, nas megratópoles contemporâneas (uma hipérbole para o exagero do novo tempo de excessos), vem sendo rebaixada e progressivamente ultrapassada pelos tópicos concernentes ao relativismo sempre apressado de nossos dias. À medida que ganham força as diversas crenças no poder de todas as ideias, todas as formas de viver, todas as concepções e práticas existentes na realidade também alcançam status de válidas e legítimas. Assim, os fins passam a pouco render. Causas, ideários, princípios e condutas pautadas pela coerência são ultrapassados pelos ditames da total instabilidade do movimento, do carpe diem. No fio da navalha da História - ou na corda bamba em que Nietzsche viu o animal humano tentando em vão se equilibrar -, buscam esquivar-se da bancarrota o trabalho (instável, temporário, precário e alienante), o conhecimento (instrumentalizado, reduzido e previamente censurado), a cultura (mercantilizada, massificada, tornada efêmera e trivial) e a sexualidade (promovida a laboratório de indefinições, experimentos, riscos e infelicidade). Numa palavra, os conceitos e categorias tão caros a pensadores como Rousseau, Diderot, Marx, Benjamin, Gramsci volatilizaram seus conteúdos e adaptaram-se a liquidez das novas e intempestivas exigências do provisório e insociável mundo pós-moderno. Ainda que muitas dessas novas formatações sociais exijam maior entendimento dos intérpretes da realidade, na medida em que representam também o espaço de morada de muitos novos personagens de rebeldia e resistência, o típico do pós-moderno, não obstante seu discurso insistente em defesa da pluralidade – o qual só se efetiva no consumo e nas manifestações do indivíduo isolado -, é a busca por homogeneização e desarticulação das diferenças, posto que isso define, aperfeiçoa e potencializa as formas de dominação explicitadas pelas novas redes midiáticas e pelos grupos de negócios e mercadorias: trata-se, pois, da política do vazio e da não substância. Nesse sentido, aprecio muito a expressão modernidade tardia, pela qual Frederic Jameson expõe o atraso – ou, no mínimo, o desvio – cultural do pós-moderno: dividir para conquistar, na melhor das epígrafes romanas de guerra e invasão do outro.

Em livro de importância decisiva para a compreensão do fenômeno pós-moderno, o instigante e elucidativo “Legisladores e Intérpretes”, Zygmunt Bauman vaticina que a figura do intelectual, surgida no umbral do século XX para designar um tipo humano voltado para a crítica e a proposição de ideias, valores e ações que pudessem se universalizar e, assim, orientar utopias e desconstruções, passou dessa eloqüente e admirável condição de legislador da realidade para a de mero e por vezes estéril intérprete dos estilhaços da pós-modernidade. Incapaz de reunir conceitos e argumentos com vista à totalidade da vida social, conectando fenômenos e unificando saberes e práticas, o intelectual-intérprete reduziu-se a corrimão do temporário, do superficial, do mercantil e lucrativo, do inconsequente e “aberto” mundo das coisas que reinam sobre as pessoas, cruel e despoticamente. Ele mesmo se torna vítima do impacto que não consegue evitar: despedaçado, desperdiçado e impotente diante dos mistérios das origens de seu próprio tempo, o intelectual se quebra e se restringe a mero analista desacreditado de um espetáculo do qual ele é, em essência, um espectador assustado e, por vezes, conivente. É isso.

14 dezembro 2010

Todas as palavras do mundo

Maria Ribeiro, em ensaio de Marcio Simnch, para a Revista Trip

Há imagens, como já enfatizaram provérbios e ditados imemoriais, que substituem todas as palavras do mundo. Eu penso um pouco diferente: acredito em imagens que despertam palavras, alimentam desejos, formam escritores e artistas de letra escrita. Quando vi a atriz Maria Ribeiro, a bela da imagem, no filme TOLERÂNCIA (2000), de Carlos Gerbase, senti milhares de palavras percorrerem meu corpo, formando versos e prosas e ameaçando minha imaginação com a sedução eterna. Dialetizada entre a pureza angelical e a pura sacanagem das ninfas, Anamaria, personagem de Maria Ribeiro, não substituiu minhas letras: resgatou-as de seu exílio, dos recônditos de minha alma, e as traduziu em poesias, contos, romances para o eterno sempre.

Este ano foi um tempo em que escrevi muito e, paradoxalmente, quase nada. Explico. Embrenhei-me na rede mundial de computadores para, de algum modo, minimizar os danos que me causam o analfabetismo virtual, cujas estatísticas negativas eu tanto engrosso. Não sei fazer planilhas, sou péssimo com edições de vídeo e imagem, subaproveito os recursos da Internet e até dos editores de texto. Algumas pessoas até tentam me agradar dizendo que o "Espaço" é bonito e bem cuidado. Concordo com o segundo predicado, uma vez que, comparado a outros belos blogs que existem por aí, este amado meu chega a ser analógico, quase um papel sulfite. Muitos alunos também gostam de reiterar que os slides de minhas aulas são alegres, coloridos (invariavelmente em verde, branco e grená) e dinâmicos, com vídeos, fotografias, links etc. Bom, se soubessem quanto peno para elaborá-los...

Sob o prisma digital, portanto, escrevi muito: esboçei ideias e aforismos diários no twitter (uma ferramenta que não me permite esquecer minhas impertinências mais profundas); preparei dezenas de novas aulas, com autores, livros e teorias inéditas; escrevi todos os meses longos textos aqui no "Espaço", ainda que na maioria das vezes tenha publicado um só post mensal, ou dois, não mais do que três.

Vale destacar - e muito! - que coligi mais de 50 poemas para meu primeiro livro como eterno aprendiz da mais singela e bela entre todas as artes da palavra. Boa parte dessas poesias venho publicando desde 2005 aqui no blog. Reunidos, melhorados e acrescidos de alguns inéditos, os poemas compõem meu livro DESMUNDOS, uma homenagem no plural ao romance de Ana Miranda e uma referência aos desencontros de beijos, olhares, desejos que vivo desde a aurora do meu próprio tempo. DESMUNDOS, que só não saiu em 2010 por problemas editoriais e de diagramação (outro efeito doído de meu analfabetismo virtual), sairá com toda a certeza ainda no primeiro semestre de 2011.

O ardente e inquieto universo de minhas fantasias e imaginação (herança fourieriana) também produziu neste ano, que já abraça seu final, os oito roteiros para os contos de FRAN, reunião de histórias que narram um amor improvável. Eli ama Fran. Ele, receoso de si mesmo, contudo, nada diz a ela, que ao longo dos quatro pares de histórias, distintas paisagens e experiências simboliza e protagoniza o amor perfeito, o desejo sublime, a mulher divinizada. Criar, dar à luz e ajuizar esses contos foi uma experiência tensa e praticamente infinita, cujos frutos permanecem no porvir. As marcas disso, no entanto, fixam em mim a certeza de meu amor pela palavra escrita e pelos voluptuosos sentimentos despertados em minha vida por FRAN.

Mas até que DESMUNDOS e FRAN ocupem prateleiras, reais e virtuais, essas na web, e cheguem às mãos do leitor, serão apenas promessas, projetos de um escriba cuja visão de mundo contrasta a razão prática da sociedade capitalista, com suas urgências e incertezas, efemeridade e não substância. É certo que 2011 trará os dois livros ao mundo dos vivos e que será o meu ano literário: o primeiro ano do resto da minha vida.

Eu disse que escrevi pouco neste já em despedida 2010. E é verdade. Como sociólogo - e no quesito acadêmico stricto sensu - fiz muito pouco. Afora umas palestras aqui e acolá, dezenas de intervenções midiáticas na imprensa local analisando a campanha eleitoral do ano e uma proposta intelectual ousada de encruzilhada entre Antonio Gramsci e o anarquismo, restringi-me à sala de aula, várias turmas, uma avalanche de disciplinas por todo o período letivo. A conclusão, justa e clara, não me poderia ser outra: ficar muito em sala de aula representa, de modo quase automático na relação, produzir pouco, refletir menos, repetir-se demais. Como quero falar apenas do viés escriba, nem vou detalhar as consequências psíquicas e físicas de esgueirar-me na universidade entre centenas de representantes da juventude líquido-moderna...

Bom, o fato é que bons ventos vêm trazendo o ano da graça de 2011. Casa nova (enfim, o apê com o qual sonhei toda a vida), trabalho novo (testado e garantido durante uma longa, difícil e necessária transição para novos mares), perspectivas renovadas no plano da subjetividade... Meu filho me carrega no colo, à altura de seus deliciosos quatro anos. E minha vida a dois deve despertar para um novo tempo, melhor e mais afortunado, principalmente depois que BER-LINDA revolucionou minha história e partiu para adornar suas vitrines... Creio que terei agora o almejado lar doce lar.

Nas estradas sociológicas e socialistas desenhei minha trajetória há muitos anos. Não pretendo nem quero abandonar esse caminho - é nele que reacendo diariamente minha esperança no ser humano. Não obstante em vários momentos essa esperança-que-não-se-acaba seja abalada profundamente, é preciso dizer que de fato ela não terá fim. No dia em que ela cessar, a estrada terá terminado - pelo menos para mim.

O "Espaço" volta em 2011, mais bonito, mais bem cuidado, recheado de novidades para uma nova década. Como parte de minha revolução subjetiva, dedicar-me-ei muito mais aos posts, buscando evitar longos períodos sem publicações por aqui. No mais, desejo que o próximo ano seja bom para todos e traga indícios de que caminhamos bem para um mundo de homens e mulheres definitivamente livres e iguais. 

Ah, e que o Fluzão possa dar mais uma grande volta pela América e, enfim, conquiste o planeta - o que lhe é de nascimento, direito e paz. É isso.

Tudo

"Quase um beijo", fotografia de Cristye

Nunca entendi muito bem os enigmas e todo o fascínio que carregam e escondem os beijos. Nem sei dizer se a palavra beijo - um ato tão humano que permite a transcendência de seus sujeitos - possui plural. Penso que um beijo já seja soma, comunhão. Lembro que Shakespeare afirmou, mais de uma vez, que um beijo é a manifestação mais plena da intimidade. Beijar, acintosamente, é um gesto pornográfico, uma troca monumental de ingredientes que fabricam delírios e destemperos. Creio que até Charles Fourier apostaria no beijo como a paixão definitiva, o efeito sublime do processo de humanização.

Tanto mistério ainda me diz pouco a respeito das maravilhas que um beijo pode provocar. A simples ideia de um beijo suscita calores, arrepios, sonhos e muita turbulência. Dormir para sonhar com o beijo desejado, os lábios da vida; evitar o despertar para não ter de se descolar da boca perfeita. Beijos conduzem o pensamento à anatomia completa do ser, aos esconderijos de nós mesmos.

Lourenço Mutarelli, no indispensável "O cheiro do ralo", seu livro de estreia, de 2002, criou um sujeito obcecado pela bunda. Ele buscava - e acabou encontrando - a bunda perfeita. De modo diferente do solitário e paranoico personagem de Mutarelli, eu busco o beijo perfeito. Ainda que esse beijo jamais tenha acontecido, lá está ela - a bunda perfeita - no mesmo corpo dos lábios amados, da mulher ideal. O beijo desejado - sonho impossível - traz consigo a bunda, as pernas, os seios, a barriga, os pés, os olhos, a pele, o tudo perfeito.

Eu realmente não tenho pretensão de compreender a loucura que beijos alimentam. Desejo apenas sonhá-la. Feito um louco.

(Prólogo de meu livro de contos "FRAN". Trata-se de um breve devaneio de Eli, protagonista masculino das histórias, observando Fran, a mulher divinizada, em uma de suas rotinas diárias. Para Eli, ou para os pensamentos e desejos dele, Fran é a materialização do beijo perfeito - tão perfeito que absolutamente impossível.)

02 dezembro 2010

Adeus, BER-LINDA!


Fim do plantão tricolor. Fim dos "bons dias" e "boas noites". Fim dos doces "vida" e "amor". Fim de muitas coisas, de todas as coisas que deram sentido às coisas que não tinham razão de ser. Agora, o fim faz perecer. O olhar, camuflado e azul, eterizado, insinuante, que precisava se esgueirar da multidão atenta e às vezes tão maledicente, também cessou: não resistiu às poucas forças de sua resistência nada revolucionária, não obstante utópica e valente - que tentou ser forte, que buscou ser maior, que acreditou ser possível o que sempre será possível, somente aos olhares que não se cansam de erguer bandeiras.

A espera cansou. Os dias intermináveis cansaram. Os desencontros cansaram. Os sonhos incomuns cansaram de tantas incongruências, assimetrias de voz, vez, desejo. Os mundos, enfim, cansaram.

Houve um adeus, marcado pela linguagem que fez a união nascer: virtual, fria, distante, às vésperas do fim, que, ironicamente, havia sido seu início, no verão de minh'alma, no fim ingrato de um ano duro, mas necessário. Passado, ufa!

Ciente de que não haverá arrependimentos, de que o adeus de lá não voltará atrás e de que um sonho novo já ocupa seu coração, já coloniza todas as suas atenções, abaixo os olhos, respiro fundo, contemplo o céu e grito, atordoado, pronto para me esconder entre as lágrimas que só irão parar de escorrer para dar vazão às outras, aquelas verdes, brancas e grenás que salvarão, pela enésima vez, a minha vida da própria morte...

Adeus, BER-LINDA!