18 dezembro 2010

Pós-modernidade: os intelectuais e o espírito de nosso tempo

Sasha Grey, atriz pornô estadunidense, que protagonizou "Girlfriend Experience", do cultuado diretor Steven Soderbergh, em 2009, e já desponta como musa pop e pós-moderna por seu declarado amor ao rock, à filosofia, à boa arte e à grande cultura. A bela Sasha sintetiza bem o atual tempo de ecletismos, fragmentos, diversidade e paradoxos: seduz, inquieta e causa todo tipo de polêmica, despertando paixões absolutas e confusas, labirínticas.

Expus, em 21 de outubro, durante o III Encontro Científico de Psicologia da Faculdade Pitágoras (Londrina/PR), cujo eixo temático era "A Psicologia e as Demandas Atuais", uma palestra com o título "Pós-modernidade: mídias, violência e sexualidade". Entendo que esse seja um tema de abrangência infinita, capaz de abraçar a Deus e toda a sua época. É bem provável que por essa razão eu tenha me detido de modo mínimo às particularidades do subtítulo e buscado alargar minha fala em torno da própria ideia de pós-modernidade - ou de cultura pós moderna, posto que partilho da certeza de que não existe um tempo novo após a ainda inconclusa e desafiadora modernidade.... Hoje, editando meu texto para publicar aqui no "Espaço", pensei, pensei, e achei melhor mudar o subtítulo. Acredito que esteja mais sintonizado com o conteúdo - e não apenas a aparência - de minhas ideias sobre o tema.

No curso dos últimos trinta anos, a partir do conjunto de reformas liberalizantes e desregulamentadoras postas em acelerado movimento global por Thatcher e Reagan, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos da América, respectivamente, a construção social da realidade vem se fragmentando, dispersando e enfraquecendo sujeitos, concentrando poder e riqueza material nas mãos das grandes corporações transnacionais. Para que essa nova configuração da ordem mundial reunisse forças e acumulasse as energias que a tornam hegemônica nos dias atuais, espraiando-se por todas as nações e unificando compulsoriamente a nova territorialidade planetária, novas ideologias e inéditas (ao menos no tom e na intensidade) práticas tiveram de vir à luz. Vamos lá ver.

Em um plano bem geral, destaca-se na chamada pós-modernidade – um tempo histórico impreciso e escorregadio, mas, sem dúvida, palco de um momento novo da cultura e do comportamento humano – a primazia da estética sobre a ética. Aparências, mais do que nunca, contam e devem enganar, iludir, persuadir a esquecer conteúdos, denegá-los, desvalorizá-los. Reféns de uma realidade publicitária, imagética e hipertextual, os indivíduos mergulhados na liquidez contemporânea perambulam entre cores, sons, formas e seduções múltiplas que se metamorfoseiam a toda hora, impedindo solidez, durabilidade, lastro para nós firmes de sociabilidade e relacionamentos humanos. Nesse sentido, é importante destacar que o culto pós-moderno às mercadorias e aos novos fetiches da tecnologia e da comunicação acaba por revalidar o isolamento da estética atual: nos labirintos dinâmicos e irracionais de uma consagração individualista, consumista e egocêntrica da realidade, a posse – o TER – sobrepuja o SER, redesenhando as formas do viver junto. Como tão bem intuiu Eric Fromm, ter é algo que transcende o ser, posto que revela as urgências de um tempo voltado exclusivamente para o solipsismo das almas em busca inefável por prazer e delírio.

De modo paradoxal, esse mesmo topos do consumo e do discurso que incita ao refúgio, ao isolamento do espírito, ao salve-se-quem-puder, exige grandes multidões em trânsito, vias férreas, aéreas, rodoviárias, e também em corredores de centros de lojas e espaços de entretenimento fácil, descompromissado e quase sempre bestializante. Trabalhar muito para consumir e evitar a aproximação de coletividades críticas e contestadoras; ver pela TV e pela rede mundial de computadores imagens e banners dos objetos que fecundam a felicidade individual e o status ilusório de socialização forçada e oportunista; aceitar passivamente a naturalização do mundo, dos negócios humanos, rendendo-se diante da inexorabilidade do mercado e do capital, agora deus único de duas cabeças... Tudo isso endossa o desperdício de todas as energias disponíveis na extensão da vida no planeta. 

Os passos que destroem o planeta, por esgotá-lo em seus recursos naturais e agravar a questão do nó de sua própria sustentabilidade, desperdiçam também as vidas humanas: trabalho, educação, lazer e conhecimento precários para um futuro em que a certeza, se houver, será a de que nada ficou, nada deverá perdurar. Trata-se, portanto, da morte da imortalidade, a qual havia se tornado possível aos humanos por meio de suas obras, lições e exemplos coletivos, altruístas, em favor de todos. O crime revolucionário de Prometeu, à porta da pós-modernidade, tornou-se ato praticado em vão, leviano até.

Outra absurda contradição se evidencia no congraçamento do avesso pós-moderno, qual seja: aquela que revigora novas e variadas formas de exclusão. Na já antiga sociedade industrial – regulada pelo fordismo do pleno emprego e dos rigorosos acordos entre Estado, capital e sindicatos – as políticas públicas alcançavam muitos, quase todos, a depender do país e do estágio de desenvolvimento da agora considerada anacrônica e descontextualizada ideia de luta de classes. Na tradição clássica, onde havia forte organização operária, impactante pressão de diversos setores da sociedade civil, a sociedade política tornava-se agente de mudanças e transformações que desembocavam na satisfação de necessidades humanas básicas, elementares e até avançadas (em sentido lato!), como subsídios para a produção e recursos para educação, pesquisa, arte e cultura. Vale destacar que essa soma entre sociedade civil consistente e em permanente movimento e uma sociedade política atuante e caudatária dos movimentos nascidos e desenvolvidos na organização social resulta naquilo a que Gramsci chamou “Estado Ampliado”. E é desse conceito, em suas múltiplas determinações, que se trata a crise atual e a força emergente do pós-moderno: no lugar das velhas utopias e lutas políticas, convergentes e insurgentes, reina hoje a distopia singular da divergência e da resignação. Em meio a tanta cautela e toalhas úmidas diante do calor da realidade, as diferenças e resistências são criminalizadas, expurgadas, perseguidas, predatoriamente consumidas pela indiferença e pela brutal espoliação. Noutros termos, travestis, homossexuais, negros, mulheres, ativistas políticos etc. sofrem os apenamentos de um discurso que na prática detém e aprisiona aqueles que discordam, contestam, enfrentam, resistem. Apropriadamente, toda essa insensatez tem sido chamada de era do pensamento único. Absortos e fragilizados, no contrapé de todas essas novas configurações do direito penal e do estado policial – que pune e responsabiliza os pobres por sua pobreza e persegue os excluídos que não compõem a sociedade de consumidores – milhões optam por recrudescer fundamentalismos e práticas violentas. Coletivizam-se na negação do humano, rivalizando, sem saber, com o mundo que querem negar, desconstruir. Outro sinal das contradições líquido-modernas.

Para muito além de temas sociopolíticos e culturais tão autoevidentes, o pós-moderno faz caminhar pelas sombras ameaças bem menos visíveis e aparentemente muito menos dramáticas. A derrocada ambiental é uma dessas questões despercebidas.

O recente apelo a discussões em torno das mudanças climáticas e do aquecimento global, que trazem à galope o derretimento das calotas polares, o elevamento do nível das águas oceânicas etc., acaba por hegemonizar um debate de abrangência e conseqüências muito maiores. A crise nos modelos urbanos nascidos com o código moderno e proletário de ocupação do espaço faz transbordarem problemas como os do destino do lixo e as novas doenças e epidemias provocadas por um convívio cada vez menos planejado e sempre mais improvisado, insalubre. No mesmo ponto de inflexão, surge a temática das múltiplas formas de poluição – auditiva, visual, do ar, das águas – e de contaminação dos alimentos. Em direção ao campo, o agronegócio – que torna a vida campesina a atual vitrine do velho fordismo de serialização e desperdício de tempo e energia de vida – prolonga desertos verdes e se alia, como um irmão menor e aprendiz, aos latifúndios totalmente desproporcionais às atuais necessidades de produção de alimentos saudáveis, livres de pesticidas e defensivos (nomes eufêmicos para veneno!).

A título de arremate – num debate ainda indefinido, aberto e assediado por tantos saberes, disciplinas e formas de conhecimento -, um ponto de extrema importância para cercar o objeto pós-moderno é o da exaustiva e também progressiva banalização dos valores essenciais à urgência do quase esquecido mundo moderno.

A vida humana, nas megratópoles contemporâneas (uma hipérbole para o exagero do novo tempo de excessos), vem sendo rebaixada e progressivamente ultrapassada pelos tópicos concernentes ao relativismo sempre apressado de nossos dias. À medida que ganham força as diversas crenças no poder de todas as ideias, todas as formas de viver, todas as concepções e práticas existentes na realidade também alcançam status de válidas e legítimas. Assim, os fins passam a pouco render. Causas, ideários, princípios e condutas pautadas pela coerência são ultrapassados pelos ditames da total instabilidade do movimento, do carpe diem. No fio da navalha da História - ou na corda bamba em que Nietzsche viu o animal humano tentando em vão se equilibrar -, buscam esquivar-se da bancarrota o trabalho (instável, temporário, precário e alienante), o conhecimento (instrumentalizado, reduzido e previamente censurado), a cultura (mercantilizada, massificada, tornada efêmera e trivial) e a sexualidade (promovida a laboratório de indefinições, experimentos, riscos e infelicidade). Numa palavra, os conceitos e categorias tão caros a pensadores como Rousseau, Diderot, Marx, Benjamin, Gramsci volatilizaram seus conteúdos e adaptaram-se a liquidez das novas e intempestivas exigências do provisório e insociável mundo pós-moderno. Ainda que muitas dessas novas formatações sociais exijam maior entendimento dos intérpretes da realidade, na medida em que representam também o espaço de morada de muitos novos personagens de rebeldia e resistência, o típico do pós-moderno, não obstante seu discurso insistente em defesa da pluralidade – o qual só se efetiva no consumo e nas manifestações do indivíduo isolado -, é a busca por homogeneização e desarticulação das diferenças, posto que isso define, aperfeiçoa e potencializa as formas de dominação explicitadas pelas novas redes midiáticas e pelos grupos de negócios e mercadorias: trata-se, pois, da política do vazio e da não substância. Nesse sentido, aprecio muito a expressão modernidade tardia, pela qual Frederic Jameson expõe o atraso – ou, no mínimo, o desvio – cultural do pós-moderno: dividir para conquistar, na melhor das epígrafes romanas de guerra e invasão do outro.

Em livro de importância decisiva para a compreensão do fenômeno pós-moderno, o instigante e elucidativo “Legisladores e Intérpretes”, Zygmunt Bauman vaticina que a figura do intelectual, surgida no umbral do século XX para designar um tipo humano voltado para a crítica e a proposição de ideias, valores e ações que pudessem se universalizar e, assim, orientar utopias e desconstruções, passou dessa eloqüente e admirável condição de legislador da realidade para a de mero e por vezes estéril intérprete dos estilhaços da pós-modernidade. Incapaz de reunir conceitos e argumentos com vista à totalidade da vida social, conectando fenômenos e unificando saberes e práticas, o intelectual-intérprete reduziu-se a corrimão do temporário, do superficial, do mercantil e lucrativo, do inconsequente e “aberto” mundo das coisas que reinam sobre as pessoas, cruel e despoticamente. Ele mesmo se torna vítima do impacto que não consegue evitar: despedaçado, desperdiçado e impotente diante dos mistérios das origens de seu próprio tempo, o intelectual se quebra e se restringe a mero analista desacreditado de um espetáculo do qual ele é, em essência, um espectador assustado e, por vezes, conivente. É isso.