14 dezembro 2010

Todas as palavras do mundo

Maria Ribeiro, em ensaio de Marcio Simnch, para a Revista Trip

Há imagens, como já enfatizaram provérbios e ditados imemoriais, que substituem todas as palavras do mundo. Eu penso um pouco diferente: acredito em imagens que despertam palavras, alimentam desejos, formam escritores e artistas de letra escrita. Quando vi a atriz Maria Ribeiro, a bela da imagem, no filme TOLERÂNCIA (2000), de Carlos Gerbase, senti milhares de palavras percorrerem meu corpo, formando versos e prosas e ameaçando minha imaginação com a sedução eterna. Dialetizada entre a pureza angelical e a pura sacanagem das ninfas, Anamaria, personagem de Maria Ribeiro, não substituiu minhas letras: resgatou-as de seu exílio, dos recônditos de minha alma, e as traduziu em poesias, contos, romances para o eterno sempre.

Este ano foi um tempo em que escrevi muito e, paradoxalmente, quase nada. Explico. Embrenhei-me na rede mundial de computadores para, de algum modo, minimizar os danos que me causam o analfabetismo virtual, cujas estatísticas negativas eu tanto engrosso. Não sei fazer planilhas, sou péssimo com edições de vídeo e imagem, subaproveito os recursos da Internet e até dos editores de texto. Algumas pessoas até tentam me agradar dizendo que o "Espaço" é bonito e bem cuidado. Concordo com o segundo predicado, uma vez que, comparado a outros belos blogs que existem por aí, este amado meu chega a ser analógico, quase um papel sulfite. Muitos alunos também gostam de reiterar que os slides de minhas aulas são alegres, coloridos (invariavelmente em verde, branco e grená) e dinâmicos, com vídeos, fotografias, links etc. Bom, se soubessem quanto peno para elaborá-los...

Sob o prisma digital, portanto, escrevi muito: esboçei ideias e aforismos diários no twitter (uma ferramenta que não me permite esquecer minhas impertinências mais profundas); preparei dezenas de novas aulas, com autores, livros e teorias inéditas; escrevi todos os meses longos textos aqui no "Espaço", ainda que na maioria das vezes tenha publicado um só post mensal, ou dois, não mais do que três.

Vale destacar - e muito! - que coligi mais de 50 poemas para meu primeiro livro como eterno aprendiz da mais singela e bela entre todas as artes da palavra. Boa parte dessas poesias venho publicando desde 2005 aqui no blog. Reunidos, melhorados e acrescidos de alguns inéditos, os poemas compõem meu livro DESMUNDOS, uma homenagem no plural ao romance de Ana Miranda e uma referência aos desencontros de beijos, olhares, desejos que vivo desde a aurora do meu próprio tempo. DESMUNDOS, que só não saiu em 2010 por problemas editoriais e de diagramação (outro efeito doído de meu analfabetismo virtual), sairá com toda a certeza ainda no primeiro semestre de 2011.

O ardente e inquieto universo de minhas fantasias e imaginação (herança fourieriana) também produziu neste ano, que já abraça seu final, os oito roteiros para os contos de FRAN, reunião de histórias que narram um amor improvável. Eli ama Fran. Ele, receoso de si mesmo, contudo, nada diz a ela, que ao longo dos quatro pares de histórias, distintas paisagens e experiências simboliza e protagoniza o amor perfeito, o desejo sublime, a mulher divinizada. Criar, dar à luz e ajuizar esses contos foi uma experiência tensa e praticamente infinita, cujos frutos permanecem no porvir. As marcas disso, no entanto, fixam em mim a certeza de meu amor pela palavra escrita e pelos voluptuosos sentimentos despertados em minha vida por FRAN.

Mas até que DESMUNDOS e FRAN ocupem prateleiras, reais e virtuais, essas na web, e cheguem às mãos do leitor, serão apenas promessas, projetos de um escriba cuja visão de mundo contrasta a razão prática da sociedade capitalista, com suas urgências e incertezas, efemeridade e não substância. É certo que 2011 trará os dois livros ao mundo dos vivos e que será o meu ano literário: o primeiro ano do resto da minha vida.

Eu disse que escrevi pouco neste já em despedida 2010. E é verdade. Como sociólogo - e no quesito acadêmico stricto sensu - fiz muito pouco. Afora umas palestras aqui e acolá, dezenas de intervenções midiáticas na imprensa local analisando a campanha eleitoral do ano e uma proposta intelectual ousada de encruzilhada entre Antonio Gramsci e o anarquismo, restringi-me à sala de aula, várias turmas, uma avalanche de disciplinas por todo o período letivo. A conclusão, justa e clara, não me poderia ser outra: ficar muito em sala de aula representa, de modo quase automático na relação, produzir pouco, refletir menos, repetir-se demais. Como quero falar apenas do viés escriba, nem vou detalhar as consequências psíquicas e físicas de esgueirar-me na universidade entre centenas de representantes da juventude líquido-moderna...

Bom, o fato é que bons ventos vêm trazendo o ano da graça de 2011. Casa nova (enfim, o apê com o qual sonhei toda a vida), trabalho novo (testado e garantido durante uma longa, difícil e necessária transição para novos mares), perspectivas renovadas no plano da subjetividade... Meu filho me carrega no colo, à altura de seus deliciosos quatro anos. E minha vida a dois deve despertar para um novo tempo, melhor e mais afortunado, principalmente depois que BER-LINDA revolucionou minha história e partiu para adornar suas vitrines... Creio que terei agora o almejado lar doce lar.

Nas estradas sociológicas e socialistas desenhei minha trajetória há muitos anos. Não pretendo nem quero abandonar esse caminho - é nele que reacendo diariamente minha esperança no ser humano. Não obstante em vários momentos essa esperança-que-não-se-acaba seja abalada profundamente, é preciso dizer que de fato ela não terá fim. No dia em que ela cessar, a estrada terá terminado - pelo menos para mim.

O "Espaço" volta em 2011, mais bonito, mais bem cuidado, recheado de novidades para uma nova década. Como parte de minha revolução subjetiva, dedicar-me-ei muito mais aos posts, buscando evitar longos períodos sem publicações por aqui. No mais, desejo que o próximo ano seja bom para todos e traga indícios de que caminhamos bem para um mundo de homens e mulheres definitivamente livres e iguais. 

Ah, e que o Fluzão possa dar mais uma grande volta pela América e, enfim, conquiste o planeta - o que lhe é de nascimento, direito e paz. É isso.