14 dezembro 2010

Tudo

"Quase um beijo", fotografia de Cristye

Nunca entendi muito bem os enigmas e todo o fascínio que carregam e escondem os beijos. Nem sei dizer se a palavra beijo - um ato tão humano que permite a transcendência de seus sujeitos - possui plural. Penso que um beijo já seja soma, comunhão. Lembro que Shakespeare afirmou, mais de uma vez, que um beijo é a manifestação mais plena da intimidade. Beijar, acintosamente, é um gesto pornográfico, uma troca monumental de ingredientes que fabricam delírios e destemperos. Creio que até Charles Fourier apostaria no beijo como a paixão definitiva, o efeito sublime do processo de humanização.

Tanto mistério ainda me diz pouco a respeito das maravilhas que um beijo pode provocar. A simples ideia de um beijo suscita calores, arrepios, sonhos e muita turbulência. Dormir para sonhar com o beijo desejado, os lábios da vida; evitar o despertar para não ter de se descolar da boca perfeita. Beijos conduzem o pensamento à anatomia completa do ser, aos esconderijos de nós mesmos.

Lourenço Mutarelli, no indispensável "O cheiro do ralo", seu livro de estreia, de 2002, criou um sujeito obcecado pela bunda. Ele buscava - e acabou encontrando - a bunda perfeita. De modo diferente do solitário e paranoico personagem de Mutarelli, eu busco o beijo perfeito. Ainda que esse beijo jamais tenha acontecido, lá está ela - a bunda perfeita - no mesmo corpo dos lábios amados, da mulher ideal. O beijo desejado - sonho impossível - traz consigo a bunda, as pernas, os seios, a barriga, os pés, os olhos, a pele, o tudo perfeito.

Eu realmente não tenho pretensão de compreender a loucura que beijos alimentam. Desejo apenas sonhá-la. Feito um louco.

(Prólogo de meu livro de contos "FRAN". Trata-se de um breve devaneio de Eli, protagonista masculino das histórias, observando Fran, a mulher divinizada, em uma de suas rotinas diárias. Para Eli, ou para os pensamentos e desejos dele, Fran é a materialização do beijo perfeito - tão perfeito que absolutamente impossível.)