28 dezembro 2011

Václav Havel, a pétala da primavera de 68


O ano que agora chega ao fim, um ano ímpar, início de década, deixou marcas profundas e registrou muitas perdas. De relance, lembro que se foram o escritor Ernesto Sabato, os trabalhadores rurais João e Maria do Espírito Santo, a grandiosa cantora Amy Winehouse, o jogador de futebol-arte Sócrates Brasileiro e a belíssima diva do cinema Elizabeth Taylor. Em todas as áreas da vida social, houve prejuízos com a partida de gente insubstituível. Aqui e acolá também pulularam reengenharias de capital, compras e vendas, ampliação de negócios, precarização de vastas formas de trabalhar e viver. Resistente e movido por uma esperança que às vezes nem mais pode perceber, o humano segue em frente, criando, driblando, lembrando que tem história, força em suas tradições. Particularmente, as marcas mais doloridas de 2011 sintetizam-se na morte de Václav Havel, ex-presidente tcheco que tanto influenciou meu modo de ver o mundo, lá no início de minha vida adulta. Deixo aqui, no último texto do blog no ano, minha singela homenagem a este homem de ideias claras e vivas, mergulhadas na tradição progressista, não obstante, assim como já acontecera com Antonio Gramsci, os mais à direta vivam a tentar sequestrar seu belo espólio político. Obrigado pelo exemplo de vida, Havel!

Nos embalos da emocionante derrubada do Muro de Berlim, em 1989, a então Tchecoslováquia viveu sua Revolução de Veludo, que reconduziu o país do Leste Europeu às trilhas da democracia política e da liberdade econômica cidadã. O líder dessa revolução sem armas nem sangue foi o dramaturgo Václav Havel.

Aos setenta e cinco anos de idade, no último dia dezoito, Havel, que esteve à frente da política tcheco-eslovaca entre 1989 e 1992 e, depois, tornou-se-se presidente na nova República Tcheca entre 1993 e 2003, morreu na sua amada cidade de Praga, deixando um legado público complexo e muito, muito rico.

Ao deixar a política, Havel não apenas havia redemocratizado as instituições e a vida social de seu país, como também o deixara preparado para ingressar de modo soberano na União Européia, em 2004.

Como sujeito de letras e artes, Václav Havel foi um dos signatários da "Carta 77", uma combativa ode em defesa dos direitos humanos. Fiel e irredutível opositor ao totalitarismo soviético, Havel sempre permite recordar, por suas convicções, os idealistas personagens de A insustentável leveza do ser, um livro marcante de Milan Kundera responsável por retratar a Primavera de Praga, o ano de 1968 dos tcheco-eslovacos.

Václav Havel defendeu com coerência e extrema decência a pessoa humana e as verdadeiras liberdades do sujeito. Por isso, soube dizer não ao Fundo Monetário Internacional e suas tentativas de subsumir a República Tcheca aos interesses privatistas do mercado globalizado pelas grandes transacionais do capitalismo central. Nesse sentido, decente em cada ato - como num personagem-herói de suas peças e reflexões na dramaturgia -, Havel foi um homem público incansável na linha de frente daquilo que há de mais humanista nas tradições libertárias e socialistas.

Num tempo em que indivíduos dificilmente ultrapassam a condição de caricaturas de uma era de reacionarismo e desesperança, a vida de Václav Havel traz à luz anos de luta e coragem, enfrentamento do consumismo e busca por uma existência plena e verdadeiramente solidária.

O futuro já sente saudade de Havel, o ponto alto da Primavera de Praga.

21 dezembro 2011

Nos intervalos, a solene felicidade


"Quem gosta de ser adulado é digno do adulador" (Shakespeare)

A vida não visa a lucro. Não existe possibilidade de encontrar sombra de felicidade em coisas que se desgastam, tornam-se enjoativas, desnecessárias e até descabidas com o passar do tempo. Em rigor, não há admissibilidade em procurar alegria nas coisas.

É da tradição clássica do pensamento socialista distanciar em profundidade as categorias emprego e trabalho. Enquanto está última sugere a insuperável relação entre o sujeito humano e a natureza, na difícil senda por satisfação de necessidades e realização de desejos, aquela se reduz a uma atividade que garante renda, uma fonte de subsistência. No dia a dia, acredito, não é preciso ir longe para encontrar gente que detesta seu emprego, não se realiza como humano nas tarefas que executa ano após ano. Já no que diz respeito ao trabalho, essa ação de dialéticas constantes entre a subjetividade das almas e a objetividade do mundo, é ainda mais fácil perceber que poucos sabem do que se trata de fato.

Bom, esse percurso conceitual me ajuda a retornar com mais lucidez às tais coisas. Se o emprego é só garantia material de sobrevivência, ele não deve ser compreendido como instrumento para alcance da felicidade. Como coisa, ele está condicionado às circunstâncias, ao perigoso e nefasto jogo que indivíduos e sociedades anônimas (sem subjetividade nem humanidade, visto que se escondem na invisibilidade de números e palavras fáceis) levam a cabo na disputa por poder, ocupação geográfica, domínios de mercado, essas tolices. Mesmo no âmbito do emprego, dessa indispensável alienação que o ser necessita praticar contra si mesmo numa realidade hegemonizada pelo valor de troca, é na linha de montagem, no lugar em que as pessoas de fato produzem e são felizes na fronteira de todas as (im)possibilidades, que reside a graça do viver. Não obstante a vulnerabilidade daqueles que se encontram subalternizados no "chão da fábrica", sem a chance de obter reconhecimento e glória por tudo que fazem, é o mundo da vida que habitam os sorrisos – na ânsia por mais e mais coisas, o humano se esquiva de si mesmo, torna secundária a afetividade, terciária a alimentação das utopias, exilado o amor, condenadas à morte a arte, a cultura, a poesia do existir.

Meu trabalho é minha realização como subjetividade, meu enfrentamento da realidade no incansável intuito de ser feliz, pleno, sujeito de mim e da história. No atual momento da sociedade mundial, capitalista – um mundo sem amor -, realizo no interior dos empregos que tenho (e nos que tive e ainda terei) a fantasia de encarar a natureza, convencê-la a reconhecer a condição humana que não pode prescindir de alegrias, vitórias, caminhadas em relação à alteridade. Vivo a reiterar que, com isso na cabeça, não visto nenhuma camisa, não ostento logomarcas, não absorvo discursos institucionais: meu trabalho é minha caminhada pelos labirintos de mim mesmo, pelos capítulos da longa e prazerosa aventura sociológica. A Sociologia é maior que tudo – e em sua defesa, saio sempre em carreira independente. Respeito regras, conduzo-me bem por regimentos e parâmetros institucionais, mas, no horizonte, desenho a missão de partilhar ideias, ajudar a mudar o mundo. E isso está ecos e mais ecos de distância da realidade corporativa, da cosmovisão estreita  e reducionista que possuem as organizações de capital no mundo contemporâneo. Camisa, quando visto, é, exclusivamente, a do Fluminense Football Club.

É, a vida não visa a lucro, não busca cifras, não requer ser vista como magnânima, imponente, cujos braços a tudo alcancem. A vida visa aos termos da felicidade. Ainda que sua plenitude seja ofuscada pelo delírio pequeno-burguês das mentalidades em vigência – que, aliás, em sua materialização nas relações sociais, andam tagarelas como nunca, falando, falando, colecionando estupidezes -, nos intervalos de uma dominação tão cruel sob a qual todos estamos, acenando com fé para uma luz que prometeu atravessar os céus, é possível e urgente respirar, exercitar no agora a vida que sonhamos para amanhã. Eu viso tão somente ao humano que certamente há em todos nós.

16 dezembro 2011

Um livro sempre atual


Em "O futuro da filosofia da práxis", o filósofo Leandro Konder reconstrói a trajetória do pensamento de Marx fixando-o no século XIX. Marx levantou questões que muitos economistas contemporâneos ainda não resolveram, como, por exemplo, o valor-trabalho e a expropriação de energias humanas para a concentração e o benefício proporcional de poucos. Como sujeito do século XIX, Marx não escapou também às influências do romantismo e do positivismo, o que pode ser claramente atestado em muitas de suas críticas ao modo de produção capitalista como um "estágio" da evolução humana (parcela de sua mentalidade emprestada a C. Darwin, que era autor dileto do amigo de Karl, o velho Engels). O que muito marxistas de hoje em dia combatem como "ciência" é a presença inequívoca de elementos positivistas na obra do genial autor de O Capital, expediente que estipula verdades como fenômenos exteriores à subjetividade e ao enfrentamento da objetividade. Logo na abertura do livro, Leandro Konder assevera: a coisa mais difícil, nos dias atuais, é pensar historicamente. Eu assino embaixo dessa assertiva de 1992, ano da primeira edição, pela Paz e Terra, desse livro indispensável.

15 dezembro 2011

Os direitos humanos de quarta geração


"Muros brancos, povo mudo", fotografia de Liliana-Oliveira

Faz alguns anos que a temática dos direitos humanos à comunicação livre e pluralista ocupou o debate sobre a qualidade da vida democrática.

De que adianta ter liberdade para dizer e fazer - privilégios conquistados por meio dos históricos direitos civis e políticos, afirmados, respectivamente, nos séculos XVIII e XIX, e de lá para cá sempre ampliados e espraiados -, se não existem fontes decentes que informem sobre a diversidade dos acontecimentos por diferentes pontos de vista?

A concentração dos veículos de comunicação nas mãos de poucos não apenas restringe acesso ao domínio dos meios difusores, como também impede que o conjunto dos cidadãos possa debater o mundo por ângulos pluralistas e até contraditórios. Sem essa condição preliminar da aspiração democrática, ou seja, sem uma unidade diversificada dos pareceres sobre a vida e a história, não há cidadania de fato.

Contra os monopólios e oligopólios dos meios produtores da informação e em favor da efetiva democratização das liberdades de dizer, fazer e ser, os direitos de quarta geração vêm conquistando espaço e força nas discussões sobre as experiências coletivas da prática cidadã.

Junto à ampliação das fontes de informação e ao combate a feudos de comunicação, os direitos de quarta geração também refletem como as novas tecnologias ligadas às ciências e pesquisas sobre saúde humana interagem com a promoção do bem-estar da vida em sociedade. Nesse sentido, temas como clonagem, eutanásia, uso das células-tronco em investigações sobre superação de limites e cura de muitas doenças passam a ser preocupação na batalha pela garantia e pela extensão dos direitos humanos.

Após séculos de lutas por liberdades individuais e direitos fundamentais, os quais sintetizam a necessidade humana de existir com dignidade, ter vez e voz, a cidadania do presente se estabelece francamente em oposição à discriminação, à exclusão e à violência - e, agora, pelo pleno direito às complexidades da vida e pelo acesso ao saber relacionado com as intersecções entre o sujeito humano e o mundo. Um acesso que deseja ser ativo, participativo, construtor da realidade social.

13 dezembro 2011

A noite


A noite me faz melhor. A combinação entre o inusitado e as estrelas, casal símbolo do tempo escuro, iluminando apenas timidamente becos que a alma não pode evitar, nunca me decepciona: à chegada do sol, o sono é de um justo, o descanso, merecidíssimo.

À noite eu me empenho em ser um sujeito menos áspero. O corre-corre do tempo iluminado, escuro tão somente no limite de eu não perder a esperança, desgasta, inebria; é temerário o passar das horas sob a intensidade de luzes incompatíveis com o sossego do corpo e do espírito.

Dia após dia, conto turnos em busca da noite perfeita. Houve época em que orava, suplicava, chamava pelo transcendente. Houve tempo também de ateísmo militante: importunavam-me tanto o céu quanto o inferno, o bem e o mal, o possível e tudo que se anunciava impossível.

Faço o que quero com a noite. Hoje em noite - nada de lugares-comuns nem referências a dias - creio, descreio, recreio. Sinto-me só no parque de diversões da vida ensolarada, mas sei que nunca estou sozinho quando chega a noite.

À noite, músicas soam, ressoam, ecoam bem melhor. A noite pertence à música - é sua partitura especial. A escuridão também pertence à dança, ao beijo, ao amor - todos os tipos de amor vivem na noite e dela recebem fortes abraços e sedutores entreolhares. Se há algo que a noite não é, esse algo cheira à ausência de preconceito e políticas de exclusão. À noite, todos somos iguais. Cada um é um pouco da noite. Nada mais democrático e republicano do que o cair da tarde.

Sempre julguei impertinente que verbos como iluminar e clarear fizessem alusão direta ao dia. À noite, ideias se iluminam, verdades ganham real claridade. Desconheço poetas bronzeados. Mesmo um povo solar, como o cubano, por exemplo, é mais revolucionário no esplendor da sua noite, aquele momento inesquecível que antecede as horas que nos mudam e marcam para sempre. O mar, esse amante impenitente do luar, prepara-se durante toda a noite para, na manhã seguinte, agraciar vidas, ensinar a sorrir. É de noite que o mar compõe sua beleza; pela manhã, existe somente a constatação. A noite também pertence ao mar.

Planos, sonhos, grandes descobertas, encontros definitivos, tudo do melhor em nós e para nós é da noite, ocorre noite afora, até a primeira sombra de cada manhã. O sol, sempre enciumado da exuberante formosura sem alardes da noite, exibe-se até não mais poder: sabe bem que é da noite também, que é nela que necessita se refugiar para reaprender, na escuridão, a brilhar

01 dezembro 2011

Por uma comunicação verdadeiramente livre


Houve um esforço, durante o período da Assembleia Nacional Constituinte, entre 1987 e 1988, de refletir com argúcia sobre o futuro das comunicações no Brasil. Após mais de duas décadas de censura, controle estatal da informação, perseguição às liberdades críticas e de pensamento autônomo, seria de muito bom tom que a nova constituição se dispusesse a regulamentar um amplo processo de democratização dos meios de comunicação social, fato que impedisse a volta ao passado de cercas e abomináveis manipulações. Mais de 20 anos depois da promulgação da constituição democrática de nosso país, quase nada se fez para efetivar o direito à informação livre e responsável, cidadã e realmente fruto de iniciativas em franca e leal concorrência.

É razoável, como ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos da América, que um mesmo grupo de comunicação seja proibido de controlar, numa única cidade, veículos impressos, televisivos e radiofônicos, além de tomar para si as maiores fatias de negócios na rede mundial de computadores. Para muito além de configurar monopólio (uma verdadeira capitania hereditária, numa alusão metafórica a nossa história colonial), esse tipo de concentração impede que outros grupos ou indivíduos possam emitir o contraditório, ou seja, outras visões da vida e da história. Assim, o cidadão passa a ver o mundo por um único prisma, e sua formação passa a ser propriedade desses meios gulosos e economicamente muito poderosos. A permissão para a existência de monopólios ou oligopólios de mídia - muitos deles agraciados por concessões públicas de sinal e portentosos recursos governamentais - é um congelamento do tempo, uma guerra aberta entre a Idade Média que não quer morrer, insiste em fazer-se zumbi do anacronismo político e cultural, e a Modernidade que deseja nascer, almeja a luz, mas é impedida de todas as formas.

Igualmente plausível é não permitir que políticos e titulares de cargos públicos possuam controle de meios de comunicação. Nesse caso, a simbiose entre política, poder econômico e produção da notícia trabalha exclusivamente para a deturpação dos fatos, o esconde-esconde de personagens (protagonistas e coadjuvantes) e ocorrências (mínimas e máximas), a total incivilidade.

Infelizmente, no Brasil, criou-se um cacoete para desqualificar a discussão sobre a democratização dos meios de comunicação. Ao insistir em generalizar tudo como sendo censura, o cacoete conservador acaba praticando aquilo que mais jura combater, isto é, a pior de todas as censuras. É isso.

15 novembro 2011

A verdade está sempre além


Em 1989, os estadunidenses do Faith No More lançaram o álbum "The Real Thing", o terceiro de sua carreira e o primeiro com o vocalista Mike Patton, que tomou a cena compondo todas as canções do disco. Eu lembro que, quando ouvi o álbum pela primeira vez, um novo mundo de saberes musicais se abriu: o rock, o funk, o rap e o bom metal podiam, sim, cruzar caminhos e redefinir horizontes. As duas primeiras faixas, "From Out of Nowhere" e "Epic", marcaram minha vida e recoloriram minha visão sobre a música e as suas possibilidade de criação. Um disco clássico, que se fez na História e em muitas comparações, incluído para sempre na lista dos "grandes da sonoridade universal" e das escolas de hits e feitura de influências.

Conhecer depende de existir de fato a possibilidade de estabelecer comparações. Aquele que leu um livro, viu um filme, ouviu o fato por um único prisma... não tem como saber se está diante de algo bom ou ruim, verdadeiro ou falso. Nesse sentido, todo sujeito que se informa por uma única linha de pensamento está incapacitado de obter um conhecimento mais robusto sobre o mundo dos acontecimentos.

Nos últimos dias, durante os desdobramentos que culminaram na captura e na prisão dos estudantes que haviam ocupado o prédio da reitoria da Universidade de São Paulo, uma das Academias mais importantes da América Latina, percebi, atônito, que a maioria das mídias noticiava o fato por um único viés. As poucas vozes destoantes estavam em veículos menores, de pouca repercussão no interior da chamada "opinião pública" (um dos conceitos mais controvertidos nos estudos sociológicos sobre a comunicação social e a disseminação ideológica de formas de ser e viver, prestar, realizar).

O resultado todos conhecemos, é claro: o bem se colocou ao lado da ordem e de sua restituição; o mal se apossou dos jovens estudantes, os quais passaram a ser vistos e tidos como bagunceiros, vândalos e até criminosos.

O exemplo serve para uma breve reflexão sobre a origem do conhecimento e suas barreiras no ato de interpretar o mundo e desejar transformá-lo.

Há pessoas que acreditam num conhecimento in natura, ou seja, numa possibilidade de encontro da verdade mediante o uso rigoroso de métodos acertados e corretos. De uma forma ou de outra, essa visão compõe o arsenal positivista de análise, que acredita nas coisas (tudo é uma variação infinita de "coisas") como construção de uma vontade natural - aos sujeitos humanos cabe tão somente entender o que são as coisas, descrevendo-as, desajuizadamente. É possível que esse tipo de princípio interpretativo se aplique a fenômenos naturais - e nem mesmo a todas as ocorrências dessa ordem. Quando o assunto são os humanos e suas relações sociais, a coisa fica bem mais difícil, ganhando ares de complexidade, dinamismo e imponderado.

Cada um de nós vê aquilo que as circunstâncias em que vivemos permitem. Os jornais que leio, os programas de TV e Rádio que vejo ou escuto, os filmes que aprecio, os autores que admiro, as pessoas com quem convivo, tudo isso me oferece uma possibilidade de ver o mundo, de me aproximar ou de me distanciar da verdade. O mundo, portanto, será tanto mais amplo ou estreito a depender de quem são essas pessoas (gente de carne e osso, personagens do tempo histórico, escritores, artistas etc.) que atravessam a minha vida, qual caminho percorreram, que escolhas fizeram no curso da História.

Nesse sentido, há verdades e mentiras em relação aos estudantes da USP e em relação a tudo o mais. Para encontrar a verdade, contudo, o bom conhecimento pede comparações e historicidade. Quando todos contam as coisas de um mesmo jeito, ou de modo muito semelhante, prefira a dúvida. Na dúvida enforcamos esse tipo de conhecimento "natural" e "desinteressado" que andam fabricando por aí. É isso.

11 novembro 2011

Meu coração partiu...


A loba se foi. O recado veio em forma de um adeus muito bonito, delicado, repleto da formosura que me acostumei a ver em tudo que era seu. Eu enviei o sinal verde: se ela passasse, sem palavras nem rabiscos de vontade, eu teria entendido aquilo que só o meu sentimento de menino insistia em avistar vivo. É, a loba se foi para sempre, saiu voando, erguida pelo fôlego do meu coração. O que ficou desse órgão-pai em mim, sombras e calores, é apenas suficiente para seguir a vida. A felicidade, buscá-la-ei para dar aos outros. Aquela que poderia me abraçar voou, foi-se em direção ao destino infinito. Será sem dúvida uma longa viagem. Seja feliz, meu coração! Vou sempre torcer por você. Eu queria que ficasse aqui no meu peito, batendo e dando ritmo a minha via, mas, entorpecido, aceito e entendo sua peregrinação: meu peito não lhe é mais um bom lugar. Adeus, velho guerreiro.

09 novembro 2011

A foto


A modelo Nana Gouveia, nas curvas do Edifício Copan, pela fotógrafa Autumn Sonnichsen

Era uma fotografia comum. Não havia nela nenhuma técnica expressa, nenhum detalhe que a fizesse sobressair a outras; nenhum jogo de luz ou cor, nada de efeitos especiais, nada de ângulos inteligentes ou boas pegadas no uso das lentes. A paisagem - ou pano de fundo, como se queira - era das mais triviais, um legítimo lugar-comum. A pose se deu muito provavelmente num domingo ensolarado, numa dessas manhãs de primavera em que o verde produz um pouco dos mistérios de toda a sua beleza. Eu quero mesmo acreditar que exista questões inexplicáveis naquela fotografia. Porque é somente dessa maneira que eu posso justificar a mim mesmo o amor arrebatador que senti à primeiríssima vista por aquela mulher, a linda morena de olhos cor de infinito que deu sua graça a um fotógrafo por mim completamente desconhecido. A foto, uma dessas que se perdem entre milhares na Internet, retratava uma jovem que mirou, acertou, perfurou e sequestrou meu coração, a casa do estranho sentido provocado por isso tudo. E jamais adormecido novamente.

Cabelos longos, negros, leve e elegantemente lançados ao charme que os olhos emprestavam ao contorno do rosto. Entre os lábios, um esboço muitíssimo bem-acabado do sorriso perfeito. Por horas, tragado pela mística daquela boca, senti-me um admirador de Monalisa. Sim, via a arte, em pelo, porém não nua - devo lamentar esse fato?!

Os olhos cor de infinito conferiam ao rosto de sorriso irretocável, belo como os horizontes que se veem nas praias do Rio, um quê de sedução ora descarada e desavergonhada, ora cheia de pudor, meninice, mundo novo a desvendar. Depois de tanto tempo praticamente estático diante daquela fotografia, eu juro que ainda não reconhecia em mim o apelo predominante. Eu queria tudo, cada pedaço daquela mulher, um de cada vez; mas eu também desejava o silêncio da contemplação, um amor do ver, do tão somente imaginar. Quando me refiz - se é que me refiz -, o sentimento que prevalecia no louco repertório de minhas vontades era o de beijar, perder-me por horas nos sabores de um beijo sem fim, tão misterioso e lindo quanto o conjunto absolutamente impecável de curvas que protagonizavam o retrato.

Foto, fotografia, retrato, tanto faz. O que é certo é que todas aquelas belas formas existem de verdade. Os olhos da cor do inalcançável estão por aí, distribuindo estrelas brilhantes e amores atordoantes pelo mundo. Os enigmas daquela mulher inesquecível estão atravessando desejos e sentimentos em toda a parte.

Na noite do dia em que vi a foto não dormi nem um segundo. Na cama, de um lado para o outro, numa inquietude que era do corpo mas se expressava n'alma, o escuro era iluminado pelo sorriso que queimava a memória. Por quatro vezes, alto da madrugada, levantei-me, bebi muita água, busquei na pequena sacada da sala do apartamento um fragmento do céu que me dissesse alguma coisa. Eu precisava amar aquela mulher uma única vez que fosse.

Na manhã seguinte, exausto por conta da espera por respostas que não vieram, imaginei-me alforriado daquele sonho sem recompensa. Em poucos minutos, contudo, pus-me a rabiscar breves versos. Precisava traduzir em palavras aquilo que senti intensamente por tantas horas, diante e longe da fotografia.

Não consegui um verso sequer que pudesse ser considerado à altura do frenesi em mim despertado e alimentado por aquela mulher, pelas curvas que suscitaram emoções e sepultaram a razão.

Hoje vivo a poetizar  o beijo que jamais existirá - e que num dia eterno da minha vida permanece sendo tudo que mais quero deste mundo.

01 novembro 2011

O retorno do exílio


A linda atriz estadunidense Tori Black (Seattle, 1988), minha generosa e prestativa anfitriã no exílio

Ela foi uma das maiores mentiras da minha vida. É triste constatar, a propósito, que de autoenganos a vida está repleta, transbordando. Os erros que marcam, corroem, encharcam de arrependimento nossos dias são, no entanto, aqueles que brotam do desejo - desire, grafia sonora da língua inglesa, talvez seja a mais bela expressão musical da palavra: ao passo que é pura força, é igualmente chama de um desejo mágico, quase mítico. Para ser bem mais sincero, ela foi meu desire mais inócuo e impertinente. (Os pós-modernos, dados a um utilitarismo que não alimento, diriam que ela foi de fato minha maior e mais bombástica perda de tempo.)

Num momento recente em que ainda investigava nas trilhas loucas da minha alma por que me quis tão apaixonado por ela, escrevi de forma folhetinesca que o passado será sempre mistério, uma tentativa, na melhor das hipóteses, de aproximação. Escrevi também, no mesmo devaneio intimista, que o presente é essencialmente contradição, dizeres que não se afirmam, vontades que esbarram no inaudito. Em tom meio laudatório, apostei no futuro como sendo parábola inacabada, imperfeita, desafortunada por tentar trazer para o agora o que ainda não há, talvez nem seja - na condição de porvir, o amanhã só pode ser construção, uma bildung, vocábulo alemão que representa um tipo de educação que não cessa, diário e tenso, que cada um faz de si e para si mesmo, ora ajeitada, ora desajeitadamente.

Dediquei a ela contos que expunham (e contavam, e cantavam!) segredos que até de mim mesmo eu me esforçava por esconder. Defini trilhas dos álbuns musicais mais importantes em minha vida como canções que tivessem sido compostas para nós. Dei vazão às minhas fantasias, a um amor louco, moleque, apenas exuberância. Com isso tudo julguei homenageá-la, adorná-la com os quitutes da minha palavra. O que houve foi negação, reprovação, rejeição. Surgiu das palavras dela uma expressão-síntese: nojo.

Hoje e ainda de novo sozinho eu já sei onde procurar sensações que me fortaleçam. Nos calabouços de todas as memórias, essas imagens que se cruzam e produzem histórias diariamente, busco agora centelhas, pedaços de uma luz que inquietem meu coração. Do desire, contudo, aguardo menos mágica. Minha aposta agora é num real levemente sonhado, algo que eu possa tocar. Quero retornar do exílio. Logo.

28 outubro 2011

O instante que nunca passa


Inspirado no Drácula, de Bram Stoker, o vampiro Nosferatu, personagem central e épico da clássica película de F.W. Murnau, lançada em 1922, é emblema expressionista do medo, das incertezas sem cor nem luz da sétima arte alemã do pós-guerra, na década de 1920. Hoje cult, Nosferatu é anti-herói dos bons, naquilo que resta de um tempo de criação, reflexão e ação no mundo, pelo mundo, com o mundo.

Um olhar atento pelos movimentos do mundo é capaz de detectar um fenômeno muito interessante: a maioria das pessoas que se protegem de modo exagerado da chamada violência urbana - construindo moradias distantes e eletrificadas, blindando automóveis, contratando segurança particular, mergulhando no medo e na angústia - é vítima de uma violência percebida, não dos itens concretos de uma realidade vivida. Isso, em linhas bem gerais, quer dizer que as verdadeiras vítimas da criminalidade e da exclusão social são os povos da periferia e, de um jeito diferente, os incautos cidadãos do tipo médio, que não escaparam à necessidade ou ao desejo de viver de fato e, assim, permanecerem vulneráveis às contradições da realidade comum.

A questão é: será que o mundo ao qual estamos todos estreitados é tão assustador quanto a impressão quase sempre negativa (e nada dialética, frise-se) que temos dele?

Ruas desertas, praças às moscas, condomínios e centros de lojas cheios; uma vida apagada, computadores e televisores sempre ligados... O abandono da vida abre portas para a banalização, esse triste fenômeno tão comum às mídias e bate-papos cotidianos que amplifica o ruído das ruas, dando contornos equivocados à realidade. Infância, sexualidade, diversão, educação, bem-estar, política e violência: a banalização disso tudo se revela no quanto esses prodígios da vida têm sido mal discutidos, mal interpretados, mel experienciados. No fundo - e também na superfície -, o banal tira tudo do lugar, coloca o certo no errado, o errado no ausente, o justo na lata de lixo. Em suas variedades mais estranhadas, o banal faz conversões absurdas, incitando a dolorosos acertos de contas com um passado que nunca existiu, mas, como um pesadelo, assombra o imaginário daqueles que acreditam no presente viver - eles apenas acreditam, infelizes caricaturas do hipervazio... Numa palavra, o banal é síntese do relativismo líquido-moderno, da inquestionável crise de valores do contemporâneo.

Em "Os irredutíveis", Daniel Bensaïd (1946-2010) aponta com clareza e perspicácia:

As novas místicas reagem às formas modernas de desolação social e moral do mundo, assim como às incertezas sobre a maneira de habitar politicamente um mundo em convulsão. Não são "velhos demônios" que voltam, mas demônios perfeitamente contemporâneos, nossos demônios inéditos, nascidos das núpcias bárbaras entre o mercado e a técnica. [...] Quando a política está em baixa, os deuses estão em alta. Quando o profano recua, o sagrado tem sua revanche. Quando a história se arrasta, a Eternidade levanta voo. Quando não se querem mais povos e classes, restam tribos, etnias, massas e maltas anômicas. [...] E quando o adversário é apresentado como uma encarnação de Satã, não é de espantar que ele seja desumanizado e bestializado, como em Guantánamo ou em Abu Ghraib.

Nesses termos, para enfrentar os problemas do mundo, como o da violência, por exemplo, o único meio é encarar aquilo de que temos medo, sob pena de o fantasma se revelar, cedo ou tarde, algo muito menor e mais frágil do que desenhava nossa depauperada e egoísta imaginação.

21 outubro 2011

Versando


A antidiva estadunidense Lexi Belle (Louisiana, 1987) perpassa muitos "entreversos" da minha poesia do mundo

Adoro versos:
revelam-me inversos e reversos.
No reflexo,
o perverso do universo,
tão controverso;
na verdade, multiverso.

Versando,
sinto-me diariamente
caminhando,
publicando, 
facilitando cantos,
insaciável que sou
por encantos.

Esforçado, 
quero ver o tom versado,
eternamente complicado,
mérito do traslado
por ideais dinamitado,
partilhado, comungado.

Dos versos
elaboro,
em meio a espíritos imersos,
um pulso complexo
de desejos ora desconexos,
ora simplesmente
perplexos;
na luta e na vida,
voz e coração anexos.

Retraído e reticente,
explosivo e transparente,
meu verso é meu olhar,
ansioso por outro patamar
de sol, luz e mar.
O sonho único que tenho
é de o mundo escrever,
narrar,
versar.

Meu falar é o verso amar.
Meu agir é o verso colorir.
Meu mundo é o verso universalizar.

Mudar e amar,
versando.

20 outubro 2011

A grande reportagem


A reportagem é uma comunhão com o presente, uma narrativa partilhada sobre o ontem e o agora. De Dostoiévski e Tolstoi, na Rússia do século XIX, passando pelo cubano José Martí, por Cervantes e Rabelais, atingindo as crônicas de Dickens e Balzac, acenando para as aventuras de Twain, as "flanagens" de Walter Benjamin, as epopeias modernas de John Reed e o jornalismo literário do pós-guerra nos Estados Unidos, a reportagem é o exercício da descoberta que vale a pena, engrandece, informa, forma e desenvolve estilos e caráter humano. Dos folhetins da primeira imprensa europeia às narrativas urbanas do umbral da Modernidade, a reportagem foi ganhando adeptos, marcas e novos contornos, chegando a rivalizar com a literatura e as grandes narrativas romanescas. Hoje, distribuídas pela pesquisa histórica e pelas publicações especializadas e de público muito seleto, a reportagem cativa poucos, distante que está da mídia hegemonizada pelos parâmetros mercadológicos do "rápido" e "fácil". De todo o modo, há histórias de ontem e de sempre que merecem visita e encantamento, uma contribuição imprescindível ao bom e arguto olhar sobre o mundo e a vida.

Quando garoto, admirava meu avô se apegar por longas horas aos jornais que lia. Eu não entendia muita coisa, mas, ao folhear os cadernos de que ele mais gostava, percebia que páginas e mais páginas eram dedicadas a uma única história, a um único tema. Alguns anos mais tarde habituei-me a reconhecer aquelas tantas páginas - que quase sempre se estendiam por outras edições do jornal - como sendo hospedeiras de grandes reportagens.

Como TV representava muito pouco em nossa vida familiar (exceção feita às novelas, aos telejornais e aos meus desenhos favoritos), cresci, estudei e me formei na universidade tendo o jornal impresso como principal fonte de informações e paradigma central no contato com a realidade. O conhecimento, enfim, partia invariavelmente dos assuntos inicialmente estampados nas folhas que tanto sujavam as mãos e encardiam toalhas de mesa e almofadas do sofá. (Em casa, havia, além de meu avô, meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho, cada qual com seu lugar favorito para emporcalhar com a tinta "maldita" dos periódicos diários.) O cinema, os grandes nomes das artes, dos contos e da crônica, a visão política, as referências biográficas e objetivas do mundo, tudo conheci pelos jornais. Havia fôlego nos escritos. E o mais forte desses vinha exatamente das grandes reportagens.

A ideia de uma reportagem é esmiuçar questões, sem jamais pretender esgotá-las. O intuito é buscar muitas fontes, contrastar verdades e pareceres. Um pouco mais: a reportagem, como toda boa e pertinente investigação, requer tempo, paciência, incríveis habilidades para a narrativa, a sedução, a persuasão. Acima de tudo, a reportagem reclama investimentos: viagens, livros, tecnologia, recursos humanos de primeiríssima linha.

Num tempo veloz e de incessante perscrutar por precisões matemáticas, a notícia virou leilão, um drop alojado num hiperlink. Com a corrida contemporânea pelo tempo real e pela notícia em cima dos fatos cotidianos (invariavelmente banalizados por imagens e sentenças de endosso ou escamoteamento), a coragem para desafiar a própria inteligência, como de modo emocionante fazia meu avô, vem desaparecendo, cedendo lugar à informação leve e pronta, descontextualizada e superficial; o mundo da informação privilegia e protege, hoje, o entretenimento fácil e alienante, travestido de júbilo e marcado essencialmente pelo desconsolado espírito de nosso tempo.

É triste ver que jornais perdem leitores, páginas e reportagens de grande alcance. É também muito triste que as redações jornalísticas sejam tão enxutas, dependentes de agências globalizadas e notícias pasteurizadas, esvaziadas de criticidade. Em muitos veículos, vem despontando a figura do articulista sem conteúdo, do comentador raivoso, do informante programado ideologicamente pelos ranços neoconservadores, a serviço dos mais nefastos medievalismos morais.

A dor maior, contudo, é a de imaginar que garotos e garotas, em cada vez maior número e drama, não terão a imagem do avô leitor e compenetrado, um desafiante das palavras e das ideias. Esse é o prejuízo maior, sem compensações. No lugar da palavra escrita e duradoura, instigante e provocativa, a imagem montada, o acontecimento transformado em linhas curtas, no tamanho e na essência.

10 outubro 2011

O desafio de recriar


Um dos efeitos colaterais do excesso de informação são os ruídos. As redes sociais, por exemplo (e elas vão e vêm, entram e saem do gosto popular), proporcionam de tudo um pouco, de gente sabida a descabida, de ideias ricas a pobres espíritos arrependidos de jamais ter tido ideias. Há realmente de tudo nesta nossa época de superabundância factual e ultravelocidade da notícia. Mais que questionar os rumos disso tudo, parece que nos cabe mesmo refletir sobre os movimentos atuais, sobre o que está ocorrendo na já denominada era das incertezas e da superfluidade.

Saltita por toda parte um desencanto geral. Decretadas mortas, as utopias se converteram em peças de museu, numa palavra de sonoridade agradável, numa desconhecida expressão de muitas línguas, personagem certa de sonhos muito antigos. A regra hegemônica é o utilitarismo, a busca por resultados fáceis e rápidos, "rentáveis", inovadores a cada instante. As artes - esse conjunto tão diversificado da atividade humana na história - não deixam de sofrer as imposições de um mundo orientado pelas estratégias de mercado: seus valores perenes, cuja linguagem atravessa gerações e insiste em sensibilizar homens e mulheres de muitos tempos e espaços, capitulam diante de seus novos valores, instantâneos, fugazes, direcionados ao consumo incessante, às teorias imediatas, às tendências e modas da estação... A cultura, antigo valor-de-uso, notório espectro das identidades sócio-históricas, consagra-se agora na descartabilidade...

Ali e acolá, no entanto, reproduzem-se com enorme facilidade discursos favoráveis ao esvaziamento. A política se torna mercadoria, entrega-se também às exigências do mercado. Há quem reitere, esforçando-se por acreditar na própria inconsistência teórica, que o mercado nada mais é do que o livre encontro daqueles que podem produzir com aqueles outros a quem resta somente consumir - uma relação natural mediada pela lei. Pois muito bem. O que esse discurso se esquece de analisar é o fator determinante de quem está atrás e à frente da fabricação do universo legal (um ponto tão decisivo que coloca os construtores da ordem acima da lei e de qualquer suspeita). Numa sociedade de classes, ainda que alguns corações do "neotudo" sofram diante dessa expressão, a desigualdade é marca, pura essência. Leis, mercados, políticas e culturas têm lado, estão em favor de alguém, espraiam-se em direção oposta a de muitos interesses, juízos e saberes. A crença no solipsismo é uma leviandade que ignora precedentes estruturantes da sociedade moderna, conjunturas históricas, pactos coletivos em defesa de ideias e ações, todas sempre mediadas por grupos, classes e fragmentos de classe social.

O reino do supérfluo, desvalor equivocado dos atuais desarranjos culturais na assim chamada pós-modernidade (eu prefiro a expressão de Bauman, "sociedade líquido-moderna", sem forma nem consistência, breve, leve, incerta e incongruente), inibe o pensamento prudente e destrói o conhecimento verdadeiramente abrangente. Tudo é transformado em link, drop, imagem: as cores e formas tomam o lugar da letra e da imaginação; a criação se torna refém das "ferramentas" disponíveis.

Num mundo inundado pelo noticiário via satélite e pelas bandas largas de zilhões de bytes por milionésimo de segundo, heroicos são a tradição literária que se mantém, o poema que emociona, a arte que subjetiva impressões acerca do universal. O desafio, que não é nada novo, continua sendo politizar as tecnologias e acordar publicamente seus usos - em nome da sociedade e de suas parcelas, desiguais materialmente, desejosas da igualdade do espírito e da força da vida.

05 outubro 2011

Meu mundo hoje é tricolor


Dia ruim, o sábado 01/10 coroava uma semana que havia sido muito da mais-ou-menos. Às 18 horas, sempre fiel às minhas majestosas três cores, resolvi buscar alento no jogo entre o Fluminense e o Santos. Bem arranjado em campo, o Flu foi resumido pelas palavras do comentarista do SPORTV: “É um time que tem espírito vencedor”. Perdendo por 1 a 0, o Fluzão empatou e, no segundo tempo, virou o jogo, com lindo gol de Sóbis. Aos quarenta e tantos da etapa final, o Santos empata o jogo. Qualquer time cairia; o Fluminense, no entanto, é bem mais que isso. Aos 50 minutos, no último suspiro dos acréscimos, escanteio, bola na área e gooooooool! O menino Márcio Rosário, que acabara de entrar, botou o cocuruto na bola e marcou o terceiro e mágico tento tricolor. O comentarista do SPORTV vaticinou mais uma vez: “Não é apenas o gol da vitória neste jogo. É o gol de um time que vai buscar o título”. Independentemente da profecia se realizar, eu só tenho a dizer o seguinte: “Fluminense, eu amo você!”

Eu enchia o mundo de versos. Achava que inundar a vida de poesia me traria bons pensamentos, despertaria sorrisos enjaulados, resgataria do difícil e forçado exílio ideias de mudar o mundo. Confesso que ainda não sei nada sobre o sucesso ou o total fracasso da alternativa poética. Sei somente que agora sou refém da poesia e não imagino mais o mundo sob tutela exclusiva do utilitarismo, do fatalismo dos que veem só rancor, tudo em fatias, a realidade mutilada por olhares estreitos e temerosos juízos. (Há aqueles que pensam ser a ironia uma sofisticada forma de demonstrar conhecimento. A ironia disso é que o recurso exagerado e bonachão à ironia só desnuda fragilidades e tagarelices, preconceitos e insubstâncias, a absoluta pobreza do espírito.)

Uma linda mulher percebeu e me disse que eu tenho visto as coisas com mais encanto e otimismo. É verdade. Nesse período de tanta busca pelo verso perfeito, amei quase todas as mulheres do mundo; fantasiei futuros e arrisquei presentes, os do tempo e os da sedução. O rock, o blues e o soul me deram muitas trilhas, românticas e dançantes, alegres e também de muita saudade e desejo proibido, completamente censurado. A linda mulher, contudo, estava correta: o mundo me era novo.

Num verão em que perguntas para temas difíceis não largavam minhas horas, por mais que eu nada quisesse com elas – as perguntas -, as luzes vieram do inusitado: três lindas cores passaram a compor a orquestra de uma graça que antes não havia. Na bandeira tricolor das Laranjeiras vi refletido o universo de respostas que a vida esperava de mim. A beleza de tudo passou, repentinamente, a fazer todo o sentido. Naqueles dias quentes, numa premonição em plena calmaria envolvente do Arpoador, eu soube, de uma vez por todas, que teria uma companheira feliz imensidão do mundo afora – e adentro, principal e dialeticamente.

Com alma e mãos tricolores, entendi que eu havia perdido Marx para reconquistá-lo mais tarde, quando a maturidade pudesse me cobrar a autocrítica e me ensinar a não viver de frustrações e arrependimentos. Na contramão do entristecido e esvaziado óbvio dos trânsfugas, reassumi minha história e, de lá para cá, venho passeando por trechos muitas vezes doloridos e espinhosos. Na feira da vida, onde todos vendem e compram de tudo, eu ofereço, no entanto, paz de espírito, coerência e muita, muita honestidade àqueles que me veem, que me acenam com fé, que me querem por perto, inventariando a tradição da mudança. Acima de tudo, busco ser diligente diante dos meus sonhos e das promessas que me fiz nas passagens da vida.

De rock, belas mulheres, escritos e imagens em movimento, vou vivendo, tocando meio desajeitadamente a carroça da resistência. Descobri que o reacionarismo se esconde alhures e lança aqui, ali e acolá santos nomes em vão (e que em suas versões mais desonestas proferem palavrões terríveis e depois rezam a Deus, cheios de cegueira religiosa). Na loucura dos que se acreditam sóbrios e reinventados pelo absurdo, o amor virou conclamação ao solipsismo e a fé se converteu em refúgio de condenação da verdadeira liberdade, aquela que se faz diante de um irmão, olho no olho, sempre de mãos dadas. Num mundo tão impiedoso e desigual, cruento e mesquinho, dizer que o indivíduo é a única referência possível (e dizer isso em nome de Deus, perdido entre orações e um estranho jeito de amar) é a síntese desnuda da própria desreferencialização, essa coisa cega, surda e muda atravessada por cinismos e má-fé. 

Do meu cantinho, proclamo Pasárgadas, novas rosas do povo, a formosura de uma renovada São Bernardo, a terra em miniatura da utopia que desta vez vencerá. Sigo em companhia dos velhos amigos e festejo a certeza de que desconjurados profetas do lugar-comum que alardeiam humildade em prosa trivial não têm o que temer: ninguém nunca traiu aquilo de que jamais realmente fez parte.

Eu, ainda e de novo, sou parcela fixa e fiel da esperança.

28 setembro 2011

A Greve


Fotograma de "A Greve", de Sergei Eisenstein (1924)

Quando penso na palavra greve, duas coisas me vêm imediatamente à cabeça: o filme de Eisenstein, de 1924, uma das grandes obras-primas do cinema mundial, e o fato de a minha geração (das mais novas, nem se fala...) não ter quase nenhuma familiaridade com esse tipo de acontecimento.

Mudaram muito as configurações do universo do trabalho nos últimos vinte ou trinta anos. A precarização aliada à automação, a qualificação sempre exigida lado a lado com os baixos salários, os poucos empregos disputados por multidões jogaram ao pó os grandes movimentos contestatórios. A individualização cega e a hipercompetição praticamente soterraram a solidariedade de classe e a consciência do humano para além de sua minúscula parcela naufragada e impotente.  

Nesse sentido, diante de uma greve, rara e invariavelmente mal interpretada por seus agentes e por quase toda a sociedade, nossas emoções e pouca razão se dividem entre a total indiferença e a indignação por atrapalhar questões pessoais, caminhadas e projetos individuais.

Não obstante o direito de greve estar inscrito na Constituição Federal, de 1988 – um avanço democrático que levou décadas para nos abraçar -, muitas dessas formas coletivas de insatisfação e inquietude podem ser declaradas abusivas, inconstitucionais, por se tratar de “interrupção de serviços essenciais”.

Em verdade, declarar que uma greve é ilegal por paralisar práticas mais substantivas do que outras é admitir que uns são essenciais, outros, superficiais. Mais: que as pessoas atingidas direta ou indiretamente por greves serão unanimemente contrárias às demandas dos trabalhadores que se veem obrigados à suspensão de suas atividades cotidianas.

A greve não é dessas coisas que se fazem por aí porque não há opção ou porque reina a absoluta falta do que fazer. Ela se refere a descontentamentos, a ferimentos que doem na dignidade de quem trabalha e deseja uma vida melhor para si e para seus filhos e netos.

Antes de julgar de modo apressado e, por extensão, equivocado uma ação grevista, procure refletir sobre quantas reivindicações gostaria de ter feito, partilhado; reflita sobre quantas vezes quis gritar e ter um mundo inteiro para ouvir os ecos da indignação, da rebeldia, da vontade de mudar a vida, o curso da história. Se a resposta provável for "muitas, muitas vezes", celebre um gigantesco viva a quem ainda tem coragem de levar suas dores e delícias às últimas consequências.

20 setembro 2011

Conhecer é sempre mais



Lago Ness, em Highland, na Escócia. Todos reconhecem o mistério do monstro que vive em suas águas. Alguém o conhece?!

Reconhecer é menos do que conhecer. Ainda que o prefixo “re” carregue a ideia de mais, de novo, outra vez, o fato de eu reconhecer algo ou alguém não garante que eu saiba do que ou de quem se trata. Dizer que reconheceu alguém na rua, por exemplo, é atestar que viu, lembrou-se de um rosto, de uma personagem, de uma figura pública ou simplesmente familiar. Afirmar que se conhece alguém é algo bem mais complexo, definitivamente embaraçoso para nossas pretensões tão fragilmente humanas, belamente imperfeitas.

De quando em vez, defronto-me com ideias que sou obrigado a reconhecer como válidas, não obstante não as conheça muito bem. Em reuniões, aqueles encontros entre tipos humanos aturdidos pelo desejo de demonstrar poder ou prepotência pura e simples, reconheço a abrangência de muitos argumentos, embora eu não possa conhecer, naquele instante, suas origens, suas verdadeiras intenções. Em momentos diversos, reconheço sons e sinais, mas sou incapaz de conhecer a música ou a questão em voga – ou a voga em questão, como poeticamente ouvi de um irmão potiguar muitos anos atrás.

A bondade humana, inquestionável em face de atos genuínos de generosidade e altruísmo, pode ser reconhecida. Já a condição humana, desafio filosófico e locus do suposto bem maior, não pode ser, por um esforço isolado e pessoal, conhecida, esmiuçada.

Esmiuçar, destrinchar, escarafunchar são verbos que se aproximam do conhecer. De longe refletem algum conhecimento, um fenômeno dado a brevidades, imagens e sensações. Reconheço que o amor, mistério-mor, é essencial para a verdadeira autoestima e para a tão sonhada felicidade. Mas posso afirmar que o conheço em toda a sua sinuosidade?

Minha profissão é reconhecida pela sociedade, inclusive do ponto de vista legal (lei nº 6.888, de 10 de dezembro de 1980). A sociedade sabe o que de fato fazem os sociólogos em seu saber/agir? Reconheço muita gente por aí. Conheço os poucos sujeitos que vivem próximos a mim? Sei muitas coisas, reconheço. Mas será que conheço mesmo as coisas que julgo saber?!

Reconheço países no mapa e monumentos históricos. Conheço-os? Reconheço ainda hoje os objetos de antigas e intensas paixões. Conheci-os alguma vez? Reconheço letras, palavras, expressões, parágrafos, versos e até prosas inteiras. Posso acreditar que conheço tudo isso na profundidade necessária de suas histórias, buscas e inquietudes? Reconheço que me especializei em reconhecer passos e caminhos. Não conheço, contudo, meu próprio destino – jamais o conhecerei!

A formação de uma pouco santa cruzada para perscrutar e condenar ideias, fatos e sujeitos que causaram arrependimentos é um reconhecimento de que se errou, sem dúvida. Daí, no entanto, vaticinar lá e acolá que se conhecem os alvos da fúria e os males reais do passado, seus agentes e circunstâncias, é dar provas resolutas de que pouco se conhece da complexidade histórica. Andar atrás do ontem feito sombra para legitimar que agora se é diferente – evoluiu, desenganou-se, sublimou o equívoco ou a morte – é triangular entre o vazio, o desnecessário e o absurdamente ridículo.

A mudança é elemento alienável da vida, reconheço. (Tão indissociável uma coisa da outra quanto o são a democracia e a vontade geral, em Rousseau.) Apregoar que mudanças pessoais traduzem a realidade elevada de todos os sujeitos é desconhecer a pluralidade de experiências que habitam a vida; é negar que somos, de um modo sempre dinâmico, tenso e cheio de idas e vindas, a unidade na diversidade.

Perceber que o mundo é de muitos e que muita coisa pode permitir crescer sem ódio nem rancor é a única coisa que reconheço e julgo conhecer ao mesmo tempo.

16 setembro 2011

Outras torres


"Castle and Sun", de Paul Klee

Não vou renunciar! Colocado nesta encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que foi plantada na consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente. Eles têm a força, poderão nos avassalar, porém não se detêm os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos". (Presidente chileno Salvador Allende, na manhã de 11 de setembro de 1973, dia em que militares chilenos, com amplo e efusivo apoio estadunidense, depuseram um governo democrático e deram início a mais sangrenta ditadura latino-americana no século XX)

Nunca foi surpresa saber que a ideia segundo a qual a guerra traz a paz encanta muitas cabeças por aí.  Na velha Roma, na locução latina atribuída a Publius Flavius Vegetius Renatus, a cantilena já estava dada: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Meio mundo, senão mais, nasceu, cresceu, viveu e morreu acreditando nisso. (Boa parte desse quase todo o mundo morreu, aliás, em guerras e derivações.)

Diante da queda das torres gêmeas na Nova Iorque do início deste século, muitas lágrimas demonstraram ódio ao terrorismo internacional e aos inimigos estadunidenses. Olhos e sentidos programados para não ver, não perceber, na cintilante força da história, eventos e políticas que, se não justificam, explicam parte do horror que o mundo alimenta contra a chamada “América”. (Alguns amantes incondicionais da terra de George Washington debocham da expressão “estadunidense”, uma vez que imaginam ser os irmãos do norte os verdadeiros “americanos” – nada de dividir tão vasto e diversificado continente com mexicanos, cubanos, uruguaios, brasileiros... São os mesmos “americanófanos” que batizaram a Primeira República brasileira de “Estados Unidos do Sul”.)

Nunca fui antiestadunidense. Ao contrário. A música e as letras dos nossos irmãos do norte são um primor em sua própria historicidade: de lá vieram, entre outras maravilhas, a literatura de Hemingway e o cântico sofrido das plantações de algodão, o blues. Desnecessário falar do cinema, das tecnologias de ponta, da contracultura e dos ícones que contestaram, de muitos modos e desde sempre... as intempéries e as arrogâncias do Império.

Consta que Max Weber (1864-1920), o maior sociólogo do século XX, viajou para fora da Europa uma única vez. Foi conhecer as badaladas ex-colônias inglesas na América, que haviam produzido, nos termos de sua luta por independência, uma das três decisivas revoluções que deram empuxo à modernidade. (Ao lado de ingleses e franceses, estadunidenses contribuíram decisivamente na edificação do mundo moderno. Enquanto ingleses e suas transformações no universo do trabalho industrializavam e urbanizavam nosso tempo; enquanto franceses decapitavam reis, dividiam o poder político e definiam um sem número de novas instituições que trariam vida às subjetividades humanas, os estadunidenses se incumbiam de dar ao mundo um ideal de nação, um forte espírito comunitário, capaz de trasladar desenvolvimentos efêmeros e personalistas e atingir um corpo unificado, um país de cada um e de todos.)

Weber, autor, em 1904, de “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, um dos mais influentes livros de todos os tempos, assombrado com o regime de trabalho extenso dos trabalhadores estadunidenses, a insalubridade dos ambientes de produção, os parcos salários, a decrepitude de moradias e condições de vida, a cultura do “salve-se quem puder” que já hegemonizava a mentalidade ianque, afirmou que, se aquele fosse o futuro do capitalismo e o verdadeiro ensejo para práticas de liberdade e democracia, o amanhã seria sombrio e aterrorizante. Mestre Weber era, por isso e um pouco mais, um “liberal em desespero”. Acreditava no livre empreender, mas perdia-se nas incertezas trazidas à luz por uma realidade que abrilhantava a vida de tão poucos, amesquinhando o presente e o porvir de multidões.

Weber, bem ao contrário dos novos cristãos do liberalismo e da cultura conservadora de nossos dias – muitos deles envoltos por discursos preconceituosos e estúpidos, blindados por palavras de bom-mocismo e pura dissimulação – tinha em seu espírito tão iluminado algo que faz falta demais às esvaziadas não reflexões que tomam os espaços públicos da vida analógica e digital: autocrítica. Ele nunca mudou de lado, mas soube como poucos praticar o verdadeiro sentido da palavra evolução.

13 setembro 2011

Um banquete de Walter Benjamin


É belíssima a parábola de Walter Benjamin intitulada "O rei e a omelete"*. Na pequena história de um rei em conversa com seu dileto cozinheiro, Benjamin investiga os perigos da memória, o assalto que algumas equivocadas sensações praticam contra a consciência humana. Se recordar é viver, convence-nos o autor das "Passagens", prender-se a lembranças congeladas é caminho certo para o erro e a infelicidade.

Sentindo-se solitário e tomado por uma estrondosa melancolia, o rei pede ao cozinheiro que lhe prepare uma omelete de amoras, igual a uma que experimentou na infância, ofertada por uma velha e nunca encontrada mulher que deu guarida a ele e a seu pai, durante uma fuga, nos momentos subsequentes a uma derrota em batalha contra o exército de um reino vizinho. Ao solicitar o prato simples à base de amoras, cujo sabor era mais vivo à ideia do que ao paladar, o rei julgava trazer de volta grandes sensações vivenciadas naqueles momentos de repouso e aconchego na casa da generosa senhora. Em meio a medos, incertezas e frustrações, a omelete, acreditava o rei, devolvera-lhe o sentido da vida, a paz ao coração. Era hora de sentir tudo aquilo de novo. Emblemática, contudo, foi a sentença dada pelo rei ao cozinheiro: se conseguir uma omelete como aquela, viverá rico, feliz e será meu herdeiro; se falhar, morrerá. Ainda mais radiantes e contundentes foram as palavras imediatas do cozinheiro em resposta à ameaça real: traga logo o carrasco, meu senhor, chegou a minha hora de morrer.

Entre muitas incríveis lições, o mestre-cuca real afirmou que até saberia fazer uma saborosa omelete, igual ou melhor àquela sorvida pelo rei em seu tempo de criança. Não obstante conhecer a técnica para o fazimento de uma inesquecível omelete de amoras, o cozinheiro não lograria êxito algum em devolver ao rei uma experiência única, marcada pelo alívio, pelo alerta picante do perigo, pela mão estendida e o oferecimento de tranquilidade num instante de perseguição e temeridade. Mais: a omelete de hoje não reproduziria a delícia inusitada de um presente-enigma e de um futuro completamente aberto.

Admirado com as palavras do cozinheiro - e convencido de sua impressionante vitalidade -, o rei recompensou-o com uma imensa fortuna e a liberdade plena em relação às obrigações reais.

Walter Benjamin foi um pensador único, original, intuitivo, marxista de um jeito muito próprio e autêntico. Ao passo que se tornou convicto muito cedo da abrangência do marxismo para explicar as espoliações levadas a cabo pelo grotesco do capital, cercou-se também da certeza de que as artes e o universo cultural mereciam destaque contundente nas tarefas a que se lançavam os revolucionários. Em seus escritos, a fotografia, o cinema, o brinquedo, a literatura e o olhar inquieto do homem diante da realidade ilustram o mundo dos seus leitores. Benjamin, provavelmente para muito além de qualquer outro grande pensador, soube reunir a força de seus amores - depositados em conflito no seu coração - e a eloquência de seus posicionamentos críticos e invariavelmente inteligentes e sensíveis. Dessa amálgama tão complexa, nasce a conturbada melancolia benjaminiana.

Razão e emoção, essa diáde tão controversa, recebe da vida e da obra do alemão Walter Benjamin sua mais bem acabada, aclamada e inquestionada síntese. O rei provavelmente teve em seu arguto cozinheiro o alter-ego desse incrível gênio das ideias.

* No Brasil, o miniconto está publicado no volume III das Obras Escolhidas de Walter Benjamin, "Rua de Mão Única", publicado pela Editora Brasiliense (2009, quarta reimpressão).

05 setembro 2011

Pequena crítica prosaica


A atriz Scarlett Johansson, uma poesia nova-iorquina nascida em 1984.

Cresci acreditando numa máxima cuja autoria desconheço por completo: "A prosa está ao alcance de todos; a poesia é privilégio de poucos, daqueles que possuem aguda sensibilidade humana". Eu permaneço fiel à segunda parte do vaticínio. Olhar poeticamente a vida e seus afluentes, afetos e acontecimentos, razão e insensatez, é de fato um monopólio de almas que conquistaram a chance de se elevar, "sair do chão", como cantam ídolos populares em seus espetáculos sem poesia alguma. Dar a um mundo tão duro e reificado (para usar uma expressão lukacsiana tão démodé em tempos de utilitarismo exponenciado e esvaziamento reflexivo) poemas, versos, cor e brisa em forma de letra, é mais do que um privilégio; é uma plena graça. Poetas, sem sombra de dúvida, são sujeitos que se fabricam em máquinas raras, artesanais, com um impetuoso quê divino.

A prosa eu via como uma habilidade mínima de integrar e dar sentido a ideias e escritas, por mais simples que pudessem ser. Na oralidade, a prosa me aparecia como transmissão imediata de saberes. Na historicidade, a prosa era investigação, crítica, registro, feitura da memória: interagiam nela o ontem, o hoje e o amanhã, esboçando-se um certo desejo de civilização.Na cotidianidade, a prosa já me foi receita, recado, crônica da vida, uma impressão do mundo, uma singular e singela rubrica do ato inexorável e universal de pensar, julgar, agir, tudo a um só tempo.

Em tempos de tão escasso conteúdo humano e proliferação descontrolada de imagens e códigos tribais, inacessíveis ao outro antropológico, sinto, hoje, na carne, que a prosa é o grande equivalente geral da sensibilidade poética: para ser clara, bonita e envolvente, a prosa requer capturar a rara máquina em que são fabricados os poetas. Até lá, de modo bisonho e até melancólico, permaneço ressentido das palavras vivas, fortes, apaixonadas e apaixonantes. Sigo só, aprisionado à poesia do mundo que já acabou.

24 agosto 2011

Nada como um clássico



Impossível não reconhecer em Durkheim todos os seus esforços para tornar a Sociologia uma ciência com jeito próprio, estilo definido, razão esclarecedora. Mais do que isso: surpreendo-me sempre com as contribuições que sua verve eminentemente conservadora empresta a minha visão progressista do mundo. Como diz o título deste texto, nada como um clássico. Eles nos salvam do desespero e do desconforto por tão pouco saber desta vida.

O francês Émile Durkheim (1858 -1917), um dos precursores da reflexão sociológica no século XIX, sempre me intrigou. Apesar de sua clara filiação metodológica ao positivismo – doutrina segundo a qual a sociedade seria regida por leis naturais, indeléveis - e seu franco testemunho em favor de um conservadorismo moral e atitudinal, o autor de “As regras do método sociológico” cede pistas a uma interpretação mais refinada e enriquecedora da realidade.

Durkheim é essencialmente positivista em muitos aspectos: crê em forte naturalização das relações humanas (com funções particulares a ser desempenhadas num organismo vivo de partilha do bem comum), credita aos fatos sociais, ingredientes da vida coletiva, um status socializante, exterior e, principalmente, repressor (ou se cumpre, ou se paga por descumprir) e insiste numa absoluta prevalência da consciência coletiva, um tipo de “cérebro do mundo”, sobre todas as existências individuais. Nesses termos, fatos cumpridos e bem seguidos, geração após geração, seriam a matéria-prima da consciência coletiva, que, por sua vez, seria endossada pelas vivências familiares, religiosas, produtivas, educacionais, governamentais e comunicacionais. Numa palavra, e num esboço ultradidático, eu poderia dizer que para o autor da cidade de Epinal, na relação entre o todo e as partes, a sociedade seria nota dez e o indivíduo, isolado, nota zero.

É precisamente no refletir sobre a elaboração da consciência coletiva que Durkheim se afasta do positivismo, da tentativa histórica de engessar o real, e rompe com o viés marcadamente conservador de sua interpretação da modernidade. Preocupado em estabelecer parâmetros para uma coesão social, um harmônico estado social de partilha e colaboração entre todos, em nome do todo, o autor de “As formas elementares da vida religiosa” assevera seu otimismo, aposta no equilíbrio entre as partes (daí seus detidos estudos sobre a divisão do trabalho social, mola propulsora do capitalismo industrial) e entende que é pela educação – e não pela repressão, pelo encaminhamento à boa conduta com base no medo da punição – que se constrói uma consciência coletiva que persuada o indivíduo, convença-o de sua abrangência e importância. Da mais tenra idade à vida adulta, o ambiente educativo deveria fornecer os códigos da experiência conjunta, a matriz de todos os valores, o mapa dos prejuízos possíveis numa sociedade sem coesão, sem propósito e destino comuns. A deseducação, o “salve-se-quem-puder”, seria para Durkheim o ponto de partida para a anomia social, um processo degenerativo que conduziria o tecido social ao caos, à inevitabilidade do projeto modernidade. Bloquear o caos é tarefa, portanto, de portentosos investimentos nas consciências individuais, as quais, "fabricadas" em uníssono, criariam o espírito ideal de um novo tempo.

Há em Durkheim, contudo, um ponto ainda mais progressista em relação ao típico e conservador pensamento funcionalista e organicista. Por investir esforços no poder gerador da educação, o autor de “O suicídio” – um fato social que revela em maior ou menor grau o descolamento entre as aspirações do coletivo e as percepções individuais – acaba por permitir uma reflexão em busca da ideia de totalidade, tão cara à investigação dialética da História. Para que uma criança possa de fato aproveitar a vida escolar, dela participar e nela aprender acerca dos componentes da consciência coletiva, é indispensável atribuir à família papel preponderante. Em sendo assim, para que a educação logre êxito como conjunto quase infinito de fatos sociais, é preciso que haja investimentos em emprego e renda para as famílias, segurança, moradia, espaços de lazer e atividades em dias de descanso, confraternização. Mais: eleger a educação como base de sustentação da crença numa possível e bem-sucedida sociabilidade é dedicar, de modo bastante direto e estreitamente vinculado, atenção ao trabalho, à cultura e às diversas funções sociais de governos e instituições públicas e privadas. Nesse sentido, a solidariedade orgânica, complexa e integrada, deve instar reunir, como frisado, a atuação de cada parte em convergência às necessidades e expectativas do todo, do real em si. 

Um derradeiro ato durkheimiano torna o sociólogo francês um autor contemporâneo e indispensável para pensar nosso tumultuado universo (pós)moderno. Trata-se do destacamento da responsabilidade social sobre a formação e a atuação dos indivíduos. Se foi negado a um jovem de treze ou catorze anos um núcleo familiar estruturado, uma escola decente, uma sociedade realmente solidária, é possível criminalizá-lo por uma atitude corrosiva, agressiva, violenta? Para Durkheim, não. Antes, faz-se necessário imputar culpa à sociedade, sua debilidade em definir caminhos, criar métodos de convencimento e persuasão, investir maciçamente na elevação da vida individual sintonizada com os desejos e necessidades da consciência coletiva. O preço a pagar é do todo, muito mais de todos, muito menos de cada um.  Deve-se cobrar, segundo Durkheim, de quem recebeu da sociedade as regras e os meios, os frutos e as fórmulas. Do contrário, a mea culpa é social.

Driblar as chances da inviabilidade de um forte grau de coesão social é tarefa dos esforços que atuam conjuntamente na trama da partilha social, dialeticamente, se assim posso dizer ao me referir a Émile Durkheim, um clássico entre os bons clássicos.

18 agosto 2011

Meu beijo da madrugada II



A única coisa que restou da última madrugada foi um canto de arrepios que, de hora em hora, religiosamente, entoa uma melodia cheia de saudade. Deus, como é possível sentir tanto a falta do que nunca houve? Aquele beijo que acalma, aquele abraço que protege, aquele olhar que inspira, aquele calor que fortalece... Toda madrugada é a mesma coisa: uma única mulher, única também na capacidade de reunir tudo de que preciso, invade o percurso sinuoso de meus sonhos e, feito uma vampira, suga todas as minhas fantasias, apropria-se do meu querer, de todas as coisas que guardo no peito, em silêncio. Já não sei mais se as madrugadas me fazem bem ou mal. Desconfio do amor perfeito, ao passo instantâneo que não imagino acordar sem sonhar dormir de novo.

[...]

O sonho atravessou parte da manhã desta vez. Durante a noite, levantar para beber água repetiu-se três vezes. Apesar de a temperatura ser amena, a alma exalava calor, temperatura escaldante. Entre uma praia e outra, nas madrugadas já rotineiras de devaneios sem fim, caminhávamos em paz, sorridentes, trocando juras infinitas de paixão. Nos momentos de calmaria e reserva, o amor era impressionante: nada em nós se mantinha distante por mais do que um ou dois milímetros. Corpos fundidos, ardência d'almas. Já de pé, a segunda-feira cobrava seus tributos e minha mente sonegava tudo, desconcertadamente. A mulher mais bonita do mundo, de nome novo, tudo novo, havia invadido minhas horas de sono para bradar: "EU TE AMO!". Ainda agora, pronto para caminhar pela tarde e pela noite, sinto seu cheiro e as consequências de suas palavras. Estou flanando pelo meu futuro neste exato momento.

[...]

Na madrugada de ontem o beijo foi um escândalo. Era manhã, céu lindo, tempo de luz. O Sol resolvera mesmo protagonizar um pouco minhas noctívagas passagens de desejo e fantasia. À entrada do mar, na praia em que aprendi a sonhar, viver e me reconhecer como sujeito na História, acompanhei seu caminhar rumo aos ensolarados raios do horizonte. Já na água, ela se refastelava com as ondas do Rei Netuno, feito menina, sapeca de tudo. Do real, nada me lembro. Sei apenas que acordei num pós-luau, estremecido pelos beijos mais intensos que troquei na vida. Ainda que nunca tenha existido, a mulher mais bonita do mundo, de nome completamente desconhecido, havia deixado seu cheiro e seu amor em mim. Naquele dia e na prova das primeiras horas do dia seguinte eu tive certeza de que conheci a minha PRINCESA do mar.

16 agosto 2011

Classes, desejos e reparações


Na História sempre houve classes sociais. Entre os gregos, na Antiguidade Clássica, Aristóteles dividia a sociedade em escravos e homens livres. Mais do que isso: em sua boa obra, Política, o filósofo dividia os cidadãos atenienses entre pobres, classe média e ricos: nos governos, afinal, prevalecia a presença dos mais ricos nos postos de tomada de decisão. Entre os egípcios já havia documentos que comprovavam a existência da noção de classes, da divisão da sociedade em tipos humanos diferentes, com distintos créditos e papéis sociais. Na Idade Média e no universo árabe, tradições culturais e religiosas diversas refletem as classificações sociais e as separações entre indivíduos e grupos humanos. Para partir deste plano e encontrar uma vaga à porta do Céu, a classe a que se pertencia era uma condição definitiva para a felicidade, neste e noutro mundo.

No capitalismo, no tempo-síntese das transformações nascidas do Renascimento, da Reforma e das Revoluções Francesa, Inglesa e Estadunidense, a novidade é que essas classes são colocadas em movimento; surge a promessa de dinamismo econômico e ascensão social àqueles que trabalham. De um mundo fechado, fixo, em que se nasce, cresce e morre no mesmo lugar e da mesma forma, a realidade passa a abraçar uma sociedade aberta, em que tudo deixa de ser para estar. A perspectiva da mudança dá nova configuração às classes sociais, que agora se movimentam sobre uma economia "livre" e por condições sociais sem amarras nem impedimentos. Em síntese, as classes sociais no capitalismo ocupam um espaço na vida econômica e levam a cabo lutas políticas que as identificam com determinadas visões de mundo. Karl Marx escreveu que coube ao economista escocês Adam Smith, um pensador liberal, verificar a existência das classes na sociedade hegemonizada pelo capital. A ideia de classe e sua existência não são, portanto, um complô diabólico da esquerda ou dos marxistas. Antes, trata-se de um apontamento simples de quem vê o mundo pela sempre tensa e volátil relação entre o homem, a natureza e suas condições concretas de reprodução da vida.

Há algum tempo li o resultado de uma pesquisa que constatou que o brasileiro não sabe a que classe pertence. Hoje, quando se fala nas tais classes sociais, elas logo vem acompanhadas por isoladas letras maiúsculas: classes A, B, C, D, E... O critério é renda. De tanto a tanto, classe X; de outro tanto a outro tanto, na soma dos rendimentos familiares, classe Y...

Penso eu que também não saberia dizer a que classe alfabética pertenço.

Ora, numa sociedade aberta - não obstante os grandes capitais sempre pretendam fechá-la para si mesmos -, a dinâmica salarial é constante e varia de região para região do país. Além disso, é imperativo que se analisem não apenas os padrões de consumo, mas, principalmente, as prioridades de consumo. Uma família que prefere investir em educação e cultura, ainda que ganhe menos dinheiro que outras que optam por roupas de luxo e joias, não pode ser vista com uma letra menos engrandecedora do que aquelas conferidas às famílias que não dedicam um real a livros, viagens, cinema... O consumo cultural, por exemplo, que está diretamente relacionado à vida escolar, às preferências que se elegem para a vida dos filhos e netos, não é um item exclusivo e derivativo do tamanho da renda familiar. Não. Na complexa estruturação das classes sociais, umas se rendem à conquista do dinheiro e do conforto material; outras, sabedoras dos limites espirituais dessa escolha, abrem-se para alternativas radicalmente diferentes e passam a consumir os bens imateriais, que, paradoxalmente, se eternizam como valor e herança da vida. Se é de fato preponderante a realidade econômica - a qual limita ou expande acessos aos bens do mundo, tangíveis ou intangíveis -, a própria organização das classes e a sua luta política podem corroer a inevitabilidade de uma vida marcada pela carência monetária e recheá-la de outros e mais humanos sentidos. É nisso que está a luta ideológica por hegemonia e pela efetivação do bloco histórico, como tão bem definiu Antonio Gramsci. Há brilho, luz, potência criadora e revolucionária na cultura - e é por meio dessa pesagem cultural que se pode enfrentar a força destruidora do olho do furacão capitalista.

Bom, nesses temos, a questão por detrás das letras que adjetivam as classes hoje em dia é mais simples do que aparenta: como o objetivo dos apoiadores desse tipo de classificação é "controlar" hábitos e tendências exclusivamente de consumo, orientando pesquisas de opinião, consultores empresariais e estratégias de marketing, dá-lhe reducionismo. A simplificação e a desistoricização de um conceito, aliadas à oferta de pertencimento ao mundo mediante a capacidade de endividamento, pagar mais contas, comprar mais e viver menos, são o elixir da existência desses recursos metodológicos e distintivos mercadológicos.

Eu sonho um dia integrar a classe "L", a da livre existência, sem rótulos nem pré-determinações. Uma classe em que dinheiro e poder de aquisição material tenham bem menos valor que ideias, princípios e práticas de afetividade e enaltecimento do ser humano. É isso.