08 janeiro 2011

A melhor manhã de sábado da minha vida

"Red Nude", obra de Amadeo Modigliani, de 1917

Os tempos eram outros, bem outros. Os velhos sabores da infância não passavam de poeira na memória, resquícios da ilusão de que a vida seria para sempre leve, plena de significados e infinitas conexões. O tempo passara, e eu já era um homem contagiado pelo mundo real, buscando na casa de praia de meus avós, talvez o único símbolo material que restara da unidade familiar e da aproximação entre parentes, um pouco de quietude espiritual para poder enfrentar mais um ano de existência adulta, com trabalho, dificuldades, cobranças, desafios, expectativas... Os dias por ali, portanto, eram muito menos por amor em família nas festas de fim e início de ano e muito mais para me afastar da loucura da assim chamada cidade grande.

Havia um ano que minha mulher deixara minha casa para viver com seu personal trainer. As ginásticas matinais que sempre considerei estranhas e suspeitas tinham, enfim, provocado seu efeito desejado. A apatia e a distância entre nós, vidas quase paralelas, sem recheio nem substância de visões de mundo confluentes, anunciavam que isso aconteceria  a qualquer momento. Restava apenas saber quem teria coragem de dar o pontapé na já murcha bola, fixa e indelével na marca de nossos pênaltis conjugais. Ela correu, deu de bico e fez seu grande gol. 

Passada a véspera de Natal, mesa farta e dispendiosa, exageros pequenos-burgueses, a manhã seguinte revelava uma casa nua, com mínimos sinais de presença humana. O excesso de vinhos e licores iria mesmo colocar todos de molho até o início da tarde. Tios e primos de cidades distantes, namorados e namoradas absolutamente estranhos, sobrinhos adolescentes e suas gírias incognoscíveis, papos de outras galáxias, gente de outros mundos. Natal e Ano Novo em família traziam os personagens da mediocridade ultramoderna: palavras contadas e pensadas, gestos ensaiados, cinismo preparado ao longo de meses com finos ingredientes de nossa cultura ocidental de aparências e sombras. Eu, é claro, fazia jus à fama de "tio torto", "comunista", "artista exótico". Falava pouco, não me prestava a sorrisos amarelos, preferindo um livro a puxadas de papo meramente formais e que a nada levariam. Meu comportamento, entretanto, não espantava ninguém, uma vez que havia sido temperado ao longo de décadas pela imagem marginal de cineasta e fotógrafo. (Como se vive assim, no Rio, de praia em praia, sem responsabilidades e coisa e tal? - essa era provavelmente a pergunta que faziam uns aous outros a toda hora.)

Na manhã de desertos da alma, casa de corredores vazios e de bela luz matinal a atravessar as venezianas entrecortadas, optei por um banho no corredor de cima, onde ficavam os cinco ou seis quartos da morada litorânea da família Rossi. É inegável o bom gosto arquitetônico e a inteligência para dispor cômodos à luz natural que tinha meu avô, provavelmente o último visionário desta família tão apagada, sem contrastes nem talentos. Filhos, filhas, netos e netas, todos burocratas, almofadinhas de escritórios de advocacia ou negócios imobiliários, com alguma bosta de MBA em uma merda qualquer de faculdade que existe aos montes por aí. O velho Rossi, caso se importasse com essa porcaria toda, estaria triste. Como dava com os ombros para isso tudo - "São uns cocôs", dizia sempre -, segue feliz lá na eternidade, contaminando o céu com sua visão privilegiada de tudo.

Pelo meio do corredor, a caminho do banho, percebi que do terceiro quarto à esquerda saía uma canção suave, uma baladinha hard só a voz e violão. Como a porta estava apenas encostada, deixando uma boa fresta para o entendimento do que havia em seu interior, arrisquei-me a saber quem dormia ali e quem era a pessoa com tão bom gosto para músicas de manhã de sol e numa casa de frente para o mar. De olhos fechados - bem fechados, não é, Kubrick?! -, lá estava ela, em leves remelexos corporais, embalada pelos dedilhados ao violão de Richie Kotzen e pela rouca voz de Bret Michaels. A linda canção do Poison, um acalanto àquela hora, me permitiu fantasiar a beleza em sua forma mais pura: de corpo escultural, Fran, a bela entre as belas durante a ceia de Natal, cobria-se apenas de uma delicada lingerie branca, parte de baixo, deixando desnudados seios perfeitos, em cor, medida, chances dadas à loucura. Pernas dobradas, pés dançantes, dava sinais de que já se anunciava à manhã do dia de Natal. Perdido entre sua dança e sua beleza, eu não percebi que me vira. Quando ouvi "Eli, que quer, tudo bem?", debrucei-me sobre a vergonha e a total ausência de desculpas.

- Bom dia, Fran! Feliz Natal! A porta estava aberta... a música... Poison...

- Native Tongue é o álbum definitivo deles, não? - ela perguntou, com um sorriso explicitamente acolhedor. - Essa é uma versão acústica do CD, com essas baladas de arrepiar! - completou, feliz à exaustão.

- Fui chamado pela canção. É Until You Suffer Some, não? - disfarcei, visivelmente encabulado. - Quando esse disco saiu, em 1993, você ainda era uma menina. Como passou a gostar desse tipo de música, de hard rock? - dei meia volta na saia justa...

- Ah, foi com um namorado que tive na faculdade. Ele era desses roqueiros fora de moda, só ouvia música antiga, coisas out.

As conclusões de Fran sobre o ex-namorado me deixaram duplamente perplexo: primeiro, senti-me velho, desses que estão fora de moda; segundo, me considerei ainda mais out, um depravado à porta do quarto de uma ninfa de calcinha e peitos esculpidos em sonho. Quase saí correndo, mas uma atração inexplicável me manteve ali, parado, à espera sabia-se lá de quê.

- O Poison é da última safra hard dos 90'. E esse disco, o Native Tongue, é um clássico, o único com as guitarras mágicas de Richie Kotzen. Depois de 93' e 94' o hard rock americano foi atropelado pelo tal do grunge. O bom hard está em coma, mas ainda não está liquidado. Ouvir essa música numa manhã de Natal tão bonita me fez lembrar das boas coisas da vida... - esbanjei cultura pop e, de certa maneira, dei uma cantada em Fran, aproximando a canção que ouvia e a glória de viver.

- É verdade. Detesto grunge, stoner, indie, essas coisas todas. Não têm substância, feeling. O hard oitentista era pura emoção um estilo de vida. Nossa, como é bom conversar sobre as coisas de que gosto, encontrar alguém diferente! O mundo é tão mais do mesmo, não? - perguntou, após demonstrar êxtase pela descoberta de um homem de quase quarenta anos a cultivar hábitos distintos dos da multidão.

- Concordo - as palavras já não me vinham mais...

Fran, clicou o botão de pular faixas de seu som portátil umas duas ou três vezes e botou 7 Days Over You para tocar. Uma versão unplugged extremamente intimista, que exalava sexo pelas ventas, ou melhor, pelas cordas vocais e do violão de Michaels e Kotzen.

- Vem aqui, vem - chamou, com lascívia transparente, inescusável

Magnetizado pelo olhar de Fran e atraído pelas chamas que seus seios lançavam em minhas retinas, dispensei o juízo e qualquer motivo que pudesse gritar um não a minha consciência. Dei alguns passos e já estava com a boca em sua boca, num lânguido e excitado cruzar de línguas e lábios.

- Chupa minha buceta! - imperativa, desde o início, a linda Fran.

Enquanto retirava minha bermuda e arrancava de qualquer jeito minha camiseta, mantive o cuidado, sei lá como, de não desgrudar minha boca do corpo de Fran. Percorri os seios demoradamente, mas demoradamente mesmo, à medida que meus dedos abriam caminho entre suas pernas, fazendo-lhe suave massagem nos grandes lábios e perfurando, com um dedo e tranquilamente, a buceta mais gostosa que tocara em minha vida. A essa altura o CD já tocava a comovente Theatre of the Soul.

Absorto em pensamentos miraculosos, chupei com afinco e muita paciência a buceta de Fran. Ela ensejou que minha língua se movesse de todas as formas e em todos os sentidos. Entre um movimento e outro, enfiava-a bem fundo, a ponto de sentir toda a vibração interna do corpo de Fran na ponta de meus lábios, como um choque, uma correnteza de energias humanas mais vivas do que nunca. Senti que ela não teve cerimônia alguma para gozar umas duas vezes em minha boca.

No momento em que Fran abocanhou meu pau, sustentando-o com as mãos em sua base, enterrando-o no fundo de sua garganta, Michaels e Kotzen me inebriavam com a inesquecível versão acústica de Something to Believe In, do álbum Flesh & Blood, de 1990, época em que o guitarrista da banda era o polêmico C.C DeVille. A calmaria da canção aliou-se às sensações impressionantes que vazavam de meu corpo. Sem recato nem limites, Fran sorvia meu pau com fúria, detonando-o numa maré de prazer incomensurável. Esforcei-me como um titã para não esporrar em sua boca...

Em estado de pura transcendência, estava já em outro plano quando Fran engatou meu pau em sua buceta, iniciando uma série memorável de cavalgadas deliciosas. Tocando devagar o ritmo do sexo, Fran queria prolongar nosso prazer. Deitou-se de lado, virou-se de bruços, comandou o mais incrível papai-e-mamãe da minha história. A cada nova posição, fazia questão de, diligente e carinhosamente, mostrar ao meu pau o caminho certo, da gruta fabulosa do delírio.

Novamente sobre mim, rebolando como uma diva de contos eróticos, Fran vaticinou:

- Goza na minha boca! - num outro imperativo incontestável.

Posicionei-me em pé, ao lado da cama. Enquanto preparava meu pau, com a mão direita, para a gozada da minha vida, a mão esquerda segurava Fran pelo rabo-de-cavalo, adereço potencial de parte substantiva de minha loucura naquela manhã de dezembro. Quando explodi, toda a porra do mundo cobriu-lhe o rosto, bochechas, lábios, pescoço, parte do lindo nariz, empinado e delicado. Com estilo - mulher de requinte, Fran -, minha diva recolheu cada gota de esperma esparramada por seu rosto e encaminhou-as à boca, não se esquecendo de me deixar claro de que estava a engolir absolutamente tudo. 

O sorriso de satisfação de Fran, agora recostada em meu corpo, pernas entrelaçadas, a mordiscar meus lábios, era decorado por Lay Your Body Down, que a dupla Kotzen e Michaels escolheu para encerrar a sessão acústica de suas belas canções oitentistas.

- A melhor manhã de sábado da minha vida, Eli! - exclamou Fran entre suspiros e nítidas declarações amorosas de alegria, realização.

Com o sol ainda mais intenso e frondoso a invadir o quarto pelas lâminas semiabertas da veneziana que nos protegia do mundo, intuí que havia encontrado o que tanto queria - e que começava também a entender a bobagem dos muito obscuros motivos que me fizeram acreditar que o amor não existia em lugar algum. Naquele momento, ainda a recuperar forças e a sorrir desconcertadamente para a minha própria alma, pude me virar para Fran e dela ouvir: "Feliz Natal, Eli!"