19 fevereiro 2011

A bela da quinta


"Gotas Atrevidas", fotografia de João Paulo Redondo

Eu haveria de ler o bilhete todos os dias, anos a fio. A despedida à qual aquelas nunca negadas palavras se referiam marcara o melhor de todo o meu mundo. Depois daquelas linhas tão firmes e decididas, uma provocação ao futuro, passei a entender amor e loucura como sinônimos incontestáveis e bastante intransigentes. 

Eram aproximadamente sete da noite. A caminho de casa, esforçava-me para não me irritar com a lentidão do trânsito. Garoa fina, milhares de carros encavalados numa via estreita, único acesso ao bairro em que resido. Acostumado ao trânsito absurdo de uma cidade litorânea ainda não metropolitana, relaxei com fé dentro do carro e botei um CD do Gary Moore. Fran havia me presenteado dois dias antes com um álbum duplo daqueles, um best of espetacular do mago celta da guitarra bluseira.

Desafeito à música em alto volume, ajustei o som do carro para que eu fosse o único a ouvir as canções de Moore. É detestável aquele tipo de sujeito que adora brindar os ouvidos alheios com música de questionável gosto. Enfim, Moore foi quem me congratulou com a empolgante "Cold Day in Hell". A música inteira não me viu percorrer mais de vinte metros naquele congestionamento absurdo.

Nove ou dez músicas depois, entre as quais "Still Got the Blues", linda e envolvente ao extremo, apontei o carro para a entrada do prédio em que moro. Irritante é saber que, aos domingos ou em horários menos concorridos de segunda a sábado, eu faço o mesmo percurso em menos de quinze minutos - naquela noite de quinta-feira, no pós-rush infernal de sempre, eu levei mais de uma hora. É-me invariável a sensação, no tumulto urbano da modernidade tardia, de que possuo os olhos esbugalhados do anjo da história, de Walter Benjamin, varrido pelo sinal do tempo que muitos estufam o peito para chamar de progresso...

Ao destravar a porta do apartamento, no vigésimo segundo andar - nunca entendi por que optei por morar no edifício mais alto da cidade, no penúltimo pavimento -, senti o perfume de Fran no ar. O delírio suave de sabê-la perto logo deu lugar a um calafrio paralisante na espinha. Simone, estagiária do instituto de pesquisas de opinião e estudos de mercado em que trabalho, havia passado a noite anterior, a de quarta-feira, em casa. Era provável que tivesse também passado algumas horas manhã seguinte, já que tive de sair cedo e a deixei, linda, nua e de bruços, sobre a minha cama. Crimes perfeitos? Decididamente, eles não existem.

- Desde quando arruma a cama pela manhã, Eli? - Fran escondia atrás de um nada dócil olhar de calmaria uma fúria prestes a se insurgir contra mim. Esqueceu-se dos sempre bem-vindos olá, boa noite, coisa e tal.

- Não arrumei a cama, Fran. Você sabe que quem faz isso aqui em casa é a Guta. - botei a culpa na empregada, imediatamente, sem pestanejar.

- E desde quando Guta aparece por aqui às quintas-feiras? Há meses durmo aqui toda quarta-feira e eu nunca a vi chegar na manhã seguinte. É coincidência ela ter vindo no único dia em que tive uma viagem apressada e de última hora para fazer? - a calmaria aparente dos olhos de Fran cedia espaço para um furacão iminente e devastador.

- Fran, meu amor, quer a verdade? Acredita que ela possa nos fazer algum bem? O que está feito está feito. Deixemos esse papo para lá. - tentei dissimular e senti um gosto amargo na boca, sabor, provavelmente, de covardia.

- Verdade?! Você não vai me dizer que trouxe uma vagabunda para dormir no meu lugar, sob meus lençóis, vai?! Você comeu uma piranha enquanto eu estava viajando, Eli?! - fodia-se de vez a tranquilidade do olhar. Eu só podia ver ódio, ranço, desejo de me esganar...

- Simone esteve aqui, Fran... Fizemos um jantar, ouvimos o álbum do House of Lords, o de 1988, que eu amo, você sabe disso, conversamos, rolou, rolou, Fran... E foi só. Nada de mais. Somente sexo, sem mentiras nem videotape. A coisa acabou em si mesma...

Fran se sentou, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e acomodou o rosto nas palmas bem abertas das mãos, cobrindo o rosto, tentando se esquivar da raiva, do eco do que eu acabara de dizer. Permaneceu na mesma posição por minutos que me pareceram horas, dias. Perplexo diante de minhas próprias atitudes - transar com Simone de modo fácil, meio leviano, e contar tudo a Fran quase sem pudor algum -, permaneci em silêncio, encostado a uma das paredes da sala, ao lado da janela principal. Aproveitei para descansar o olhar no mar, nas pessoas que caminhavam em paz pela orla, numa noite quente de verão, embelezada pela partida  da chuva fina.

Algum tempo depois, minutos que se converteram em intermináveis horas imaginárias, Fran, lentamente, se levantou. Passos leves, dirigiu-se até mim e, com força, abraçou-me pelas costas. Seu rosto, colado a meu dorso, contraiu-se tenazmente, declarando naquele abraço ternura e desejo.

Sem muito mais, levantou minha camisa e começou a percorrer minhas costas, da cintura à nuca, com a ponta da língua. Ao mesmo tempo, com uma das mãos já dentro de minha calça, socava forte meu pau, numa masturbação vigorosa e enlouquecedora. Cruzando os braços em forte movimento, pôs-me de frente para ela, agachou-se a abocanhou meu pau inteirinho. Notei que, levemente engasgada, Fran sorriu desenvergonhadamente, fato que logo se juntou à bela imagem de sua mão esquerda a acariciar, também com ímpeto e velocidade, o clitóris. Segundos depois, vi que Fran havia enterrado três de seus dedos na buceta. Garganta profunda e buceta preenchida por movimentos de dedos ensandecidos: a imagem mais perfeita que conheci do prazer. Outro presente de Fran!

Morena de olhos profundos e perfurantes, dona de um corpo exuberante e esculpido por anjos, Fran se ergueu e se lançou ao sofá, onde, de pernas bem abertas, colocou-se de frente para mim. Indicou o caminho:  exigiu que lhe chupasse a buceta. Com as mãos de Fran segurando minha cabeça, fui completamente conduzido por ela no sexo oral. Foi ela que deu o ritmo e impôs a força de cada movimento de minha língua. Eram nítidos e fantásticos os vários gozos de Fran em minha boca.

De repente, girou o corpo e se posicionou de quatro, empinando de modo impressionante e sedutor a bunda. Quando me preparei para penetrar-lhe a buceta ouvi um contundente não.

- Lambe meu cu, seu filho-da-puta!

Fran nunca tinha se comportado daquele jeito. Não dizia palavrões, não se masturbava na minha frente. Até para chupar meu pau dava sinais de constrangimento e pudor exagerado. Como num passe de mágica, ali estava eu, chupando um cu delicioso e entalando quatro dedos de minha mão numa buceta que, frondosa, me parecia inédita, fabulosamente naquele instante descoberta...

Minha transa despretensiosa e imatura com Simone, muito menos sedutora e bela que Fran, teria lhe despertado desejos reprimidos e guardados a sete chaves?! Toda aquela fúria sexual seria ódio ou a consagração de uma paixão arrebatadora por mim?! A essas perguntas, soube mais tarde, eu nunca obteria respostas.

Úmida em excesso e inteiramente lambuzada por suor, saliva e secreções, Fran vaticinou que comesse seu cu. Muitas vezes, eu pedi a Fran que conversássemos sobre sexo anal, falei de meu desejo em relação ao assunto. Ela, contudo, não desenvolvia a conversa, travava, mudava de prosa. Eu sentia, portanto, que o tema era tabu e que ela, decidida, não falaria de sexo anal nem o faria comigo. Pus um ponto final na história. Pelo menos até aquela noite de quinta-feira.

- Não quero nem a sombra do teu pau na minha buceta. Soca com raiva esse pau no meu cu e goza lá dentro que nem um cavalo! Vai, desgraçado!

Ela estava mesmo enlouquecida, completamente fora de si. Eu, no entanto, atendi criteriosamente seus pedidos e acatei diligentemente sues imperativos.

Sem qualquer cerimônia, fui até o talo no cu de Fran. Aos gritos, ela chorou muito. Em alguns instantes, imaginei que ela fosse pedir para parar. Nada! Recitava feito um mantra:

- Arrebenta meu cu! Arrebenta meu cu! Arrebenta meu cu!

O cheiro de sangue e a coloração vermelha em meu pau e no rego de Fran não demoraram a surgir. Em meio a dor compartilhada e a ações mutuamente descontroladas, gozei no fundo do cu de Fran, segurando-a firme pelas ancas, prendendo seu corpo ao meu de modo insolvente, delirante. Ao fundo, pude ouvir, do despertador musical do quarto, programado para me lembrar às 22 horas que precisava enviar relatórios por e-mail, a linda e nunca tão oportuna "Hearts of the World", do primeiro e eterno álbum do House of Lords.

Quando retirei meu pau de Fran, saciado e ferido à exaustão, ela desabou sobre o sofá, recolheu uma almofada junto ao peito e indicou as costas para que eu me deitasse também. De conchinha, dormimos.

Horas depois, despertei por conta da forte luz solar que invadiu a sala. Eu tinha mesmo apagado completamente. Fran não estava em lugar algum do apartamento.

Em cima da mesa da cozinha, embaixo de uma garrafa com café quentinho, o bilhete:

Adeus, Eli. Por favor, não me procure mais. Se puder, conviva em paz com as lembranças quase surreais do que vivemos ontem à noite. Tenho certeza de que jamais você terá algo sequer parecido com aquilo! Daqui por diante, valorize o que tem, Eli! 

Beijos, 

Fran

Nunca mais vi Fran. Nunca mais tive uma bela e surpreendente noite de quinta-feira.