21 março 2011

À la Matrix


Jogaram os próprios pés para o arrepiante espaço entre o mar e o resto do mundo. Entregues à vida, perderam-se na embriagada, louca e sempre lúcida atmosfera da insensatez. Reconheceram-se apaixonados e puderam, enfim, transferir suas fantasias um para o outro. Eram agora um do outro.

Clamaram pela firmeza dos olhares trocados que logo chegasse o ponto máximo do encontro. Sob a vigília atenta e permanente do Sol, naquele instante temperado por uma generosa primavera de leves ares, gozaram um no outro. Mais uma vez rubricaram a sentença: confirmaram ser mesmo um do outro.

Horas depois, mãos dadas em passeio pela orla, momento maior do vento sudoeste, romperam silêncio e sorriso por meio de um beijo longo, intenso, divino. Em segundos, provocaram suspiros e uma jura surgiu no ar, voz calma e segura, absolutamente surpreendente: ela disse que o amava, para sempre e até bem depois do fim do mundo!

Preenchidos no espírito e no corpo, despediram-se na certeza de terem se encontrado um no outro. Perdidos em seus próprios pensamentos, sintonizaram as estações do coração: queriam muito mais para o dia seguinte.

O vermelho e o rosa, a resistência a resignação, a esquerda e a direita fizeram juras de amor praticando o feito amoroso, proclamando o impulso de seus desejos à testemunha da acreditada eternidade. Um bom tempo se passou para que o vazio voltasse ao seu lugar. Fato é que, enamorados e sedentos de paixão, esqueceram-se de teorizar os percalços de tão contraditória união. Sem o cais, a brisa do mar, o amor a mil sóis, a paixão - que era prática pura - se apagou.

Converteram-se em promessas que sabiam frágeis. Adiaram o para sempre e não sobreviveram à ideia de permanecer vivos no mundo após o seu fim. Houve dois ou três ensaios antes da despedida. Duas ou três ilusões também foram responsáveis pelo querer tanto insistir.

Sem o generoso Sol da calmaria de flores ou da lua cheia de belas noites de verão, disseram adeus em meio às tempestades de um cotidiano qualquer. Era hora, enfim, de recobrar o juízo e voltar a viver.

Estavam de volta e foram acolhidos pelo deserto do real. À la Matrix, morreram sonhando durante um imenso e inesquecível sonho bom.

Nela

Fotografia de André Luiz Pires

Faz tempo que não faço versos
não proseio poemas
não observo o mundo pelo olhar das palavras
substantivas, intransitivas
predicados de toda a sensibilidade

Faz também muito tempo
que desacreditei daquilo em que cria
recria, inventa, ilumina o necessário não

Há tantos negares em tantos lugares
não-lugares vazios e intranquilos
puro conformismo, medida da vida
pelo pequeno molde dos breves mundos
distante povoado, agora empoeirado
fechado, alérgico à luz e ao amanhã

Existem correntes por toda a parte
danificando a resistência
fragilizando o grito por liberdade
fabricando a estupidez
obstruindo a esperança

É o universo que não será nosso
ainda que tudo começasse outra vez

No horizonte, somente a compulsão
o limite da minha humana instabilidade
Pensamento fixo, ideia obsessiva
Vivo pelo remelexo imaginário do corpo daquela mulher
jambo, perfeita, intocada
A mulher - nunca minha quanto nunca nada

Autocontrole, não o possuo
intuo, pontuo, circulo
Sonho acordado perder-me nela, toda
sempre, muito mais (hipérbole de meu risonho prazer ausente)

Viro o mundo, se puder
para debruçar-me sobre ela
mexer, ensandecer, tardar-me nela

Fazia realmente bom tempo
que não confeccionava versos
Verso-me agora na imagem que se faz
dela, nela, só por ela
a distância
em movimento