21 março 2011

Nela

Fotografia de André Luiz Pires

Faz tempo que não faço versos
não proseio poemas
não observo o mundo pelo olhar das palavras
substantivas, intransitivas
predicados de toda a sensibilidade

Faz também muito tempo
que desacreditei daquilo em que cria
recria, inventa, ilumina o necessário não

Há tantos negares em tantos lugares
não-lugares vazios e intranquilos
puro conformismo, medida da vida
pelo pequeno molde dos breves mundos
distante povoado, agora empoeirado
fechado, alérgico à luz e ao amanhã

Existem correntes por toda a parte
danificando a resistência
fragilizando o grito por liberdade
fabricando a estupidez
obstruindo a esperança

É o universo que não será nosso
ainda que tudo começasse outra vez

No horizonte, somente a compulsão
o limite da minha humana instabilidade
Pensamento fixo, ideia obsessiva
Vivo pelo remelexo imaginário do corpo daquela mulher
jambo, perfeita, intocada
A mulher - nunca minha quanto nunca nada

Autocontrole, não o possuo
intuo, pontuo, circulo
Sonho acordado perder-me nela, toda
sempre, muito mais (hipérbole de meu risonho prazer ausente)

Viro o mundo, se puder
para debruçar-me sobre ela
mexer, ensandecer, tardar-me nela

Fazia realmente bom tempo
que não confeccionava versos
Verso-me agora na imagem que se faz
dela, nela, só por ela
a distância
em movimento