29 abril 2011

A tal coisa certa


Bela imagem compacta do Kremlin, da Praça Vermelha e da Catedral de São Basílio, que integram as maravilhas do mundo moderno e simbolizam a força do povo russo e sua orquestra histórica sempre revolucionária.

"Fazer a coisa certa!", o que é? Passo a vida defendendo que, não importa como nem por que, devemos fazer a coisa certa. Alio a essa crença pressupostos éticos, senso de proporção e valoração estética. De muitas maneiras e de forma quase inconsciente atribuo muito do ideário e do legado socialista a essa minha tão propalada e impenitente visão do mundo. De fé e peito aberto, acredito na tal tal coisa certa. Entre roubar e ser feliz e não roubar e sentir-me feliz por isso; entre mentir e obter vantagens e não mentir e crer nisso como a grande vantagem; entre gastar agora e pagar vida afora e poupar já para ter o que gastar sempre... fico sempre com o conjunto das segundas opções. Aliás, como adepto fiel às segundas opções, mantenho-me alegre por contrastar, prever o novo, jamais calar-me diante do horror e das mentalidades caducas - despertar em mim e nos outros os sinais da rebeldia tem sido meu passo, um itinerário louco, por vezes arriscado, lindo se visto pela contramão da História, via retrovisores do tempo.

27 abril 2011

Fran III


"Dunes", fotografia de Ana Martins

"Fran III" encerra a trilogia em homenagem a morena mais desejada do mundo. Após "A melhor manhã de sábado da minha vida" e "A bela da quinta", é hora de me despedir de Fran e dos contos eróticos. Resolvi me aposentar dessa bela vertente literária. Acredito que o momento seja o de me dedicar a outros escritos, novas praias, areias, águas, sóis... Confesso que escrever sobre Fran foi muito mais que dar asas à imaginação: foi uma forma inventiva e saudável de lidar com minhas ideias,meus desejos e até minhas frustrações (quem não as tem?!). De uma certa maneira, Fran já vive em mim e é o maior amor da minha vida - literariamente, pelo menos.

Não sei bem de onde surgiu a obsessão. Culpei Lourenço Mutarelli e seu doentio personagem de "O cheiro do ralo". Responsabilizei a cultura brasileira e suas odes carnavalescas às curvas femininas. Em momento de provável desatino acusei a coisa em si, paradoxal por natureza, enigmática, bela, aconchegante, destino de tanta fantasia. O fato é que bunda de mulher mexe demais comigo. Por tudo quanto é canto, vivo a admirá-la, cobiçá-la, imaginá-la travesseiro de minha loucura.

Lembro que, quando vi Fran pela primeira vez, soube que estava a vislumbrar a mais linda, perfeita, desejada bunda do mundo. O tamanho, o rebolado, o modo insinuante como se encaixava dentro de um jeans justinho combinavam maravilhosamente com coxas, pernas e calcanhares torneados em linha artesanal de montagem. Mais: a cintura e o movimento das ancas, rígidas e suculentas, permitiam ao olhar cotejar a delícia do sulco, o calor do rego, a aventura delinquente por um universo que se encerraria definitivamente no momento em que a língua se perdesse naquele volume todo bem dosado, feito para a perdição. A bunda de Fran provocou minha paixão por aquela jovem jambo, de sorriso reluzente, de semblante ingênuo, nitidamente a esconder estrepolias de uma mulher que sabia fazer uma sacanagem como nenhuma outra. Um anjo moreno, uma fêmea intensa, uma máquina de amor.

Fran namorava havia bastante tempo o mesmo sujeito, um cara que, de tão papalvo, "de série", instigava em mim uma onda torturante de perplexidade. Como, eu perguntava a mim mesmo, uma bunda dessas pode se oferecer a um indivíduo tão sem graça?! Por que, meu Deus - e isso me perfurava a alma -, um sujeitinho tão tãozinho tem o privilégio de foder um traseiro como o da Fran?! As revoltadas autoarguições caminhavam disso para mais, muito mais. A grande porcaria era imaginar Fran gozando naquele bosta, sendo gozada pelo cacetinho de um indivíduo quase nulo... Enquanto isso provavelmente ocorria, eu me matava de tanto bater punheta pensando na buceta de Fran, na bunda dela rebolando e esporrando no meu pau. No limite, eu estava realmente pirando.

Numa quarta à tarde, após ter ido buscar um livro encomendado na megastore do shopping, resolvi tomar um café para relaxar e pensar na vida. Depois de dois cafés, que em vez de me acalmarem, óbvio, me exclamaram ainda mais, fato que conflitava com a preguiça que parecia gritar dentro da minha cabeça, vi Fran passar. Instantaneamente, dirigi os olhos para o seu rebolado. De calças brancas e semibags, a bundinha ainda despontava, dessa vez leve, libertada dos apertos criadores de formas e silhuetas. Solta e à vontade, a bunda de Fran era ainda mais atraente e sedutora. Senti, em segundos, que meu pau desejava estourar a cueca...

Ao apontar no corredor que levava aos toaletes, provavelmente querendo retornar à loja em que trabalhava, Fran me avistou e percebeu que eu a fitava de modo paralisante - e isso ela já prenunciara havia algum tempo. Caminhando em minha direção, seus passos me aterrorizaram. Quando, a dois instantes de mim, puxou a cadeira a minha frente, sentou-se e disse "Posso tomar um café aqui com você?", principiei a pensar que teria um derrame, um  infarto definitivo.

A mulher decidida, voluptuosa e inesquecível que iria conhecer surgia ali, naquele momento arrebatador.

- Você tem algum problema com bunda? - perguntou Fran, meio irônica, meio desavisada.

- Hã?! - juro que não dissimulei. Eu havia mesmo sido flagrado de modo surpreendente. De onde teria vindo a matéria-prima da questão? Por que, depois de meses - eu sempre soube que ela sabia de mim! -, ela resolveu perguntar aquilo e daquele jeito?!

- Mulheres percebem, homem, quando são observadas. E percebem ainda mais quando são observadas de um modo particular. Sinto faz tempo que você é aficionado pela minha bunda. Sinto mesmo que você come meu traseiro com os olhos - ela esboçou um sorriso maroto, no canto esquerdo da boca estonteante...

- É... é... eu... bom... - perdi as palavras.

- Você é bobo, homem. Mas consigo entender de verdade que sua doideira por mim não é nada desonesta, que você realmente vê algo especial em mim, de modo cativante, meio romântico, sei lá.

A surpresa, digna do próprio nome, não me impediu de dizer a ela que o que eu sentia era inexplicavelmente gigante e complexo. Pressenti que nunca teria uma oportunidade como aquela. Pedi um café para Fran (eu não toparia uma terceira xícara da minha bebida favorita) e me pus a falar.

- Não sou mais um garoto Fran. Você, sim, é uma menina, uma linda, misteriosa e deliciosa menina. Eu não deveria sentir nada por você. Eu não deveria congelar meu corpo e meu espírito cada vez que fito você e sua bunda, em particular. No entanto, enlouqueço, me desconcerto, fico à deriva só de pensar em você e nessa sua bunda deslumbrante. Você nem precisa estar por perto, eu nem preciso ver você. Minhas retinas já fotografaram seu corpo e meus pensamentos já eternizaram você em todos os meus delírios. Quer saber? Daria metade da vida que devo ter pela frente para foder você sem parar, entregar-me insaciavelmente a sua bunda.

- ... 

Ela é que naquele momento perdeu qualquer ideia, todas as palavras.

Antes de o café chegar à mesa, ousei segurar-lhe o braço. Ela não resistiu. Trouxe-a ao encontro de mim. Ela até facilitou. Beijei-a. Ela correspondeu de modo abertamente interessado. Entre línguas que digladiavam, um calor crescente e movimentos que já não conseguiam se conter. Nossos olhares se convidaram para sair, ir para muito longe dali. Convite reciprocamente aceito.

A caminho do estacionamento, entre o frenesi de mãos e bocas que se buscavam atabalhoadamente, disse a ela que tornaria tudo inesquecível, que iria fodê-la de modo implacável e definitivo. Ela, meio dispersa, ensaiou uma pequena gargalhada e disse: "Estou pronta!". No carro, levemente molhados por uma garoa que não cessava havia três dias, aproveitamos um pátio quase vazio num meio de semana sem muitos atrativos festivos ou comerciais. Em minutos os vidros embaçados impediam que imagens do interior do carro fossem vistas por improváveis pedestres no estacionamento. Meu carro, transformado em confortável cenário de nossa delirante insensatez, mudara nossos planos: não iríamos mais a lugar algum. Estávamos no lugar certo, pleno, perfeito para a imperfeição de nossos tão humanos instintos.

Enquanto nos beijávamos de modo incontido e impetuoso, Fran arriscou o aparelho de som. Na gaveta fazia semanas, o álbum "Thundersteel", dos novaiorquinos do Riot, gravado em 1988. Eu me apressei: "É um disco clássico do heavy metal, Fran. Não ando por aí com trilha sonora para fodas dentro do carro. Infelizmente, não há outro CD por aqui... ". Mais uma vez, o sorriso de Fran me fez desabar: "Amo metal. Sempre quis transar ouvindo um bom disco de metal. E esse aí parece muito bom. Vamos que vamos!". Enquanto rolava "Fight for all", música de abertura do disco, Fran abria a braguilha da calça e jogava lá dentro minhas mãos, pedindo que a penetrasse bem devagar com os dedos. Ao mesmo tempo, ainda em estado de choque, percebi que ela lambia fervorosamente meus mamilos, alternando pequenas mordidas e potentes chupadas. Eu estava condenado a não voltar para a Terra depois daquela tarde.

A guitarra de Mark Reale e a voz de Tony Moore casavam como luvas, e "Fight for all" rolava solta quando Fran começou a chupar meu pau. Pela primeira vez na vida soube o que era garganta profunda. Fran levava o pau até a ponta da garganta, mexendo, mexendo, quase precipitando tudo e me fazendo gozar. Contive a fúria de Fran e voltei a beijá-la. Empurrei-a para o canto do banco traseiro, puxei suas calças e retirei-lhe a calcinha, rosa, linda e perfumada. Mordiscava-lhe os grandes lábios e a penetrava veementemente com a língua, na indubitável certeza de estar a degustar a mais deliciosa buceta do planeta. Quando já me sentia impregnado do gosto de Fran, Tony Moore arrebentava com "Bloodstreets", a minha dileta canção do Riot, uma injustiçada e quase desconhecida banda de metal. (Engraçado é ressaltar que, não obstante o esquecimento do público, a crítica especializada sempre reelege "Thundersteel" como um dos melhores álbuns do estilo em todos os tempos. Incongruências do real.)

O ritmo da guitarra de Mark Reale e a cozinha direta do baixista Don Van Stavern e do baterista Bobby Jarzombek não permitiam muitas firulas e condescendências. Fran e eu trepávamos com gosto, tesão arrebatador. No momento em que a penetrei, com todo o carro a exalar sexo, ela, em vez de gritar, suspirou,  fixou-me o olhar e repetiu três vezes: "Come!". Confesso que foder ao som de um puro e bom metal é algo quase inenarrável. Os sentimentos se animalizam, os desejos se transformam em pedra bruta, absolutamente indisposta à lapidação. Fran e Riot formavam um par perfeito: a melhor bunda e o melhor disco de metal. Uma experiência verdadeiramente marcante.

Quando o CD alcançou "Run for your life", virei Fran de bruços e a coloquei bem estendida sobre o couro do banco. Com muita ansiedade e, a um só tempo, certa vontade de prolongar a visão de sua bunda até o infinito, beijei-lhe nádegas, lambuzei seu rego com minha saliva, apertei-lhe freneticamente o traseiro. Muito mais linda do que pude supor, a bunda de Fran era convidativa. Parecia de fato me chamar para sorvê-la, perder-me em sua imponência, perfeição. Com as mãos firmes a segurar-lhe pela cintura, encostei a cabeça do pau à entrada de sua vagina, enterrando-lhe o membro até o fim, de uma só vez. Em instantes, debruçado sobre seu corpo, senti que Fran, enfim, estava a delirar, gozar seguidamente. Enquanto os belos riffs de Mark Reale ganhavam a atmosfera úmida do interior do carro, cheguei a sentir que minha vida era tragada pela buceta de Fran; que eu seria prisioneiro permanente daquele corpo, daquele prazer imensurável. 

De surpresa, como havia sido cada gesto e cada palavra de nosso encontro, perfurei o cu de Fran com o dedo médio, festivamente. Percebi um recuo, mas só. Talvez um pouco renitente, Fran empinou um pouco mais a majestosa bunda. Senti que era a deixa. Retirei o pau de sua buceta e o enterrei no cu, apertado, indescritivelmente apetitoso. Durante os pouco mais de três minutos e meio que preenchem o tempo da canção-título do álbum do Riot, um petardo rápido e avassalador, confrontei meu pau com o rabo de Fran, intercalando suavidade e truculência, de acordo com as variações das guitarradas de Reale. Como que ensaiado, gozei no derradeiro e épico segundo da canção. "Thundersteel", o álbum, e Fran e eu, a foda, encerrávamos juntos o show. Um senhor show, frise-se.

Tocou o celular de Fran, perdido no bolso da calça branca que, àquela altura, estava no banco da fente do carro. Era a chefe, dona da loja. Preocupada, resolveu ligar para saber o que estava a acontecer. Fran, meio sorridente, visivelmente cansada, disse que havia tido uma forte indisposição, que havia saído para tomar água e ar, que logo voltaria a loja. Frisou que tudo estava bem naquele momento. Fran pediu que eu ficasse no carro, descansasse, fosse embora mais tarde. Ela teria de retornar ao trabalho. Chegou perto de meu ouvido e sussurrou, lânguida: "Tesudo safado!".

Uma ou duas vezes por semana, sempre à tarde e dentro do carro, em lugares sempre novos, Fran e eu transávamos ao som de algum clássico do heavy metal. Combinávamos banda e álbum pelo telefone, escolhíamos o figurino e dávamos à bunda de Fran o protagonismo absoluto do encontro vespertino. A louca aventura durou uns três anos, até Fran se casar com o namorado e ir viver numa cidadezinha perdida do interior do país. Depois disso, passei a ouvir nossos discos em homenagem a ela, a mais linda bunda do mundo.

22 abril 2011

Verás que um filho teu não foge à luta!


Mariano, com a camisa 2, Marquinho e Fred, com a braçadeira de capitão, logo após o quarto gol do time, marcado por Fred, no finalzinho do jogo que classificou o FLUMINENSE para as oitavas-de-final da LIBERTADORES 2011 e para o LIVRO ETERNO DO FUTEBOL MUNDIAL!

O Fluminense viajou para a Argentina nesta semana levando na bagagem, segundo os impressionantes matemáticos midiáticos, oito por cento de chances de se classificar para as oitavas-de-final da Taça Libertadores da América. O glorioso clube das Laranjeiras levou também, um oferecimento de seus dez milhões de torcedores, cem por cento de esperança, vigor e espírito guerreiro. Em vez de acomodar esses ingredientes tão indispensáveis ao sucesso nas malas, posicionou-os no peito, na raça, na linda faixa verde que corta o uniforme número três do time, vermelho-grená em sua quase inteireza.

Com quatro gols, dois de Fred, um de Júlio César, outro de Rafael Moura, o incansável He-Man, o Fluminense obteve em Buenos Aires, na noite da última quarta-feira, 20 de abril, uma vitória épica, heroica. O clube argentino tentou, empatou o jogo duas vezes, mas sucumbiu à superioridade tricolor, a qual se fez evidente desde o início da partida. Para completar a vitória mágica, o América do México, que disputava com o Nacional do Uruguai o outro último jogo da rodada e do grupo, empatou em Montevidéu, sepultando o time uruguaio e, de brinde, o argentino. Avançam agora os times mexicano e brasileiro - o mais brasileiro de todos os times de futebol, frise-se! Como tão bem destacou Rica Perrone, em adágio quase cântico... "Se futebol é paixão, ninguém mexe nisso mais com seu torcedor do que o Fluminense. Ele não ganha, não perde, nem empata. Ele faz história."

Telê Santana, o eterno Fio Maravilha, um tricolor apaixonado, costumava dizer que preferia que seu time jogasse bem, ainda que perdesse, a vencer sem méritos ou por razões acidentais. Ontem, na cidade portenha, quando tudo apostava em derrota, desclassificação e até vexame, o Fluminense venceu e jogou bem, dando mostras de que possui grande elenco, unidade, paixão à bandeira das mais belas cores do mundo. Mais: o Fluzão explicitou, em hostil campo argentino, que é capaz de sintetizar os desejos de Mestre Telê para um clube invencível: jogar bem, com coragem e emoção, e vencer, com brilho e espírito de intensa determinação. Na quarta-feira, entre suspiros e anseios fantásticos de sua torcida, a melhor e mais bonita do mundo, o Fluminense provou de vez por que é chamado de "Time de Guerreiros!"

Vira e mexe, digo a todos que devo minha vida ao Fluminense. Paixão tardia (não a herdei de ninguém em casa nem vim ao mundo como um stigmata), o tricolor do Rio (o único autêntico tricolor!) chegou a minha vida em momentos em que a graça e a vontade viver já não mais me preenchiam. Desde meu inesquecível time de futebol de botão, feito à mão com capinhas de relógio, goleiro de caixinha de fósforo e decalques do escudo do Flu, passando pelo meu intrigante amor pela Cidade Maravilhosa, suas praias, gente e sombras encantadoras (eu, um paulistano nascido e criado, um ser vivente no interior do Paraná!), até chegar à constatação de que a camisa tricolor me devolveu a alegria de viver quando nada me permitia sequer sorrir, o Fluminense e eu temos nos completado: hoje sei que ser tricolor é das magníficas coisas da minha vida; que ser tricolor está acima de outros "seres" meus - ao lado apenas do ser pai, ser sociólogo, ser um guerreiro em busca de liberdade e amor.

Na partida da última quarta-feira, o Fluminense me salvou DE NOVO, presenteando-me com os mapas para a festa da minha vida. Ainda de olhos marejando, decidi escrever o esboço destas linhas, no calor de uma vitória já eternizada no livro divino do futebol, por sentir e saber fervorosamente que o amor ao tricolor não se pode comparar o amor que se possa ter por outros clubes: amor com aura, alma, fé, milagre e explosão por viver só o Fluzão proporciona. Nelson Rodrigues, poeta e cronista do cotidiano das Laranjeiras e dos feitos mágicos do escrete tricolor, já havia confirmado o que hoje é verdade visceral: "Pode-se identificar um tricolor entre milhares, entre milhões. Ele se distingue dos demias por uma irradiação específica e deslumbradora."

É provável que todas essas minhas palavras sejam consideradas excessivamente apaixonadas, devedoras à razão e ao equilíbrio. Contra críticas ao meu senso de proporção, tendenciosamente branco, verde e grená, sempre me faço as mesmas questões. Há senso que possa envolver e conter uma paixão incontrolável? Há razão que sobressaia a um amor que salva uma vida e a alimenta diariamente? Com as respostas em mente, sigo amando, tricolormente!

Numa quarta-feira de fim de bimestre, após dias e mais dias elaborando, aplicando, corrigindo e discutindo provas e trabalhos na universidade, a noite exalava cansaço e inspirava as semanas que ainda estão por vir. Confiante nos bons dias que me aguardam - e eu também os aguardo, ansiosamente -, pus-me diante da TV pedindo ao Flu que se mantivesse de pé até o fim, tocasse a bola, honrasse o manto tricolor e fizesse a bandeira do clube, soberana nas Laranjeiras (e em minha mesa de trabalho!), tremular feliz, orgulhosa, deificada. Fiéis aos predicados que fazem do clube o que ele é, mágico e para todo o sempre, os jogadores de campeão brasileiro dominaram tudo dentro das quatro linhas, inclusive a pressão e o nervosismo, péssimos acompanhantes em momentos delicados. Ao final do jogo, apesar de os heróis do Flu não poderem comemorar por conta da brutalidade de alguns policiais, jogadores e membros da comissão técnica da equipe argentina, eu me ajoelhei no centro da sala, levei a mão direita ao lado esquerdo do peito, memorizei a Marcha Tricolor (o mais belo hino de um time de futebol, obra-prima do genial Lamartine Babo) e disse, a mim mesmo e ao mundo todo: "Fluzão, verás que um filho teu não foge à luta!"

Já de pé, emocionado até não poder mais, julguei que havia rendido minha homenagem aos atletas e à nação tricolor em todo o planeta. Mais ainda: com sensação inequívoca de pertencer ao Time de Guerreiros, imaginei-me ao lado de Nelson Rodrigues, repetindo-lhe uma de suas frases mais cativantes e verdadeiras: "Ser tricolor não é uma questão de gosto ou opção, mas um acontecimento de fundo metafísico, um arranjo cósmico ao qual não se pode - nem se deseja - fugir." Afinal, Nelson... "Grandes são os outros; o Fluminense é ENORME!"

16 abril 2011

O beco das ideias


Casa onde nasceu Karl Marx, em 1818, em Trier, Colônia, velha Prússia.

Ouvi algo interessante sobre a maldade. Meu interlocutor, um jovem e talentoso professor, diferenciado, vocacionado weberianamente ao trabalho acadêmico e ao ensino, relatava que sempre soubera da existência da inveja, da mentira, da conspiração maldizente. No entanto, disse que só soube como tudo era duro, difícil e destrutivo quando praticaram um pouco de tudo contra ele. Confessou que levara um bom tempo para se restabelecer, entender que a vida era mais, muito mais. Diante dele, refletindo sobre suas palavras de visível dor e prostração, entendi que o tema era válido, requeria, sim, meia dúzia de movimentos da minha inquietação.

Leandro Konder atesta que num mundo marcado por quantificação e hipercompetitividade é complicado escapar à individualização egoísta, à tentação de juntar-se a grupelhos que existem e giram em torno de interesses mesquinhos, extremamente particularistas. Faz tempo que esses míseros interesses constituem as chamadas "panelinhas", clubinhos fechados que reúnem gente sem visão coletiva, sem olhar público, sem imaginação sociológica, uma gente contaminada pelo cinismo e pelas velhas concepções patrimonialistas da realidade - concepções essas que muitos membros do clubinho julgam odiar e combater.

Quando me dou a pensar sobre alguns meios acadêmicos, algumas rodas ocupadas por gente que diz brilhar, fazer pesquisa, ciência, construir saberes e conhecimentos, me vem forte à cabeça uma das máximas de Sérgio Buarque de Holanda, publicada no imortal Raízes do Brasil (1936), segundo a qual nossas elites dominantes sempre fizeram, no Brasil, a coisa pública se assemelhar ao quintal de suas fazendas e propriedades privadas, uma extensão de seus domínios, onde valem o arbítrio, a dissimulação, fuxicos e pequenezas. Eu acredito de verdade que a maldade a que se referia meu interlocutor ferido reside nesse vazio, nessa confraria de entulhos semifeudais.

Outra expressão que denota bem a maldade de que me falava meu cabisbaixo interlocutor é mediocridade. Comparados a expoentes de suas áreas de conhecimento e atuação, os medíocres membros dos clubinhos da maldade nem embriões conseguem ser: não estudam, não publicam (a não ser textos sofríveis em periódicos de vigésima quarta categoria!), não frequentam os grandes encontros (nem convidados são!), não são quase nada mesmo. Diante de nomes de peso e de promessas no mundo intelectual, destilam sua venenosa inveja, manipulando números, favorecendo seus tristes laços de compadrio. Rejeitam os melhores e afastam perspectivas teóricas e profissionias que possam botar em xeque suas frágeis e melancólicas incompetências. Abortar o novo é o exercício predileto da mediocridade.

Conheci, tal qual meu agora amadurecido interlocutor, muita gente assim, que se fez de modo estranho e suspeito, que adentrou todas as festas pela porta dos fundos, felicitados por parentesco, sentimentos de dó e altíssima comiseração. Gente ruim, esvaziada, que se repete década após década, obstruindo a novidade agostiniana, aquela que dá esperança a cada nascer. Membros natos de grupelhos e conspirações fascistas - ainda, vale lembrar, que posem de democratas e arrotem uma postura ética absolutamente inexistente em seus passos.

No instante em que pude perceber um breve porém profundo hiato nas palavras condoídas do meu interlocutor, pus-me, sem querer, a lembrar essas figuras, que sabem tão pouco, ostentam tanto, representam, nos mundos de que se gabam, uma micro partícula indiferente e desprezível.

Escapar à mediocridade é encostar-se nos melhores, manter a coerência, ser livre intelectualmente. Numa de minhas andanças pelos trechos de um desses clubinhos (não obstante eu estivesse realmente só de passagem), fui condenado por ser marxista - nada disseram, camuflaram-se no palavrório elogioso e no ranger dos dentes à revelia da pertinência do meu trabalho (pertinente, julgo, porque franco, lapidado na lida, testado numa prática decenal de experiências múltiplas e verdadeiramente dialéticas, sempre reciprocamente referendadas).

Minha opção, contudo, é mesmo a de frequentar o beco das ideias. Lá, quis até dizer a meu interlocutor, convivem a genialidade de Einstein, a coragem de Gramsci, o coração de Benjamin, a decência de Weber, a grandeza de Arendt, a inquietude de Poulantzas, a generosidade de Lukács, a criatividade de Kafka, o ímpeto guerreiro de Marx, o sorriso de Konder. Em muitos momentos, a depender do papo das longas manhãs, tardes e noites, o eterno Jesus se senta à mesa e traz algumas palavras de amor, solidariedade, justiça e paz.

No beco, fujo do medo, congratulo-me com o saber, com o princípio de irredutibilidade do mundo aos meus imperativos subjetivistas. Ao mesmo tempo, na doçura da dialética, aprendo a ser irredutível diante das determinações cruentas e desumanas do real. Por lá descubro que bom mesmo é aprender na diversidade, enfrentando as agruras da vida para compor uma rica unidade. No bom beco de mestres e referências, aprendi que a casa da vida tem múltiplas moradas, que o conhecimento é pluri, inter, multi, transdisciplinar, meio musical, inteiramente poético e cinematográfico. O conhecimento, ensinam-me os frequentadores do beco, é síntese de rigor e ensaísmo, pulso da responsabilidade e da certeza nada feuerbachiana: entender já se entendeu, agora é hora de alterar o curso da vida.

Só se conhece o que se persegue; só se substitui o que de fato está superado. No beco do mundo, enfim, obtive e estou sempre a renovar a chave de minha autossuperação, em busca de alguém em mim que valha a pena amar incondicionalmente.

Um aperto de mão em C. Wright Mills


Pedra do Arpoador, no Rio de Janeiro, o lar do vento sudoeste (Fotografia: Remollido)

Publicado pela primeira vez em 1959, e rapidamente tornado indispensável na compreensão do saber nas ciências humanas e sociais, o livro "A Imaginação Sociológica", do estadunidense Charles Wright Mills, redefiniu toda a ecologia de saberes pertencente a Sociologia. Seu pressuposto central - o de que necessitamos mais de nós mesmos e de nossa articulação entre a consciência e o mundo - explicita-se muitíssimo bem na seguinte passagem...

"A imaginação sociológica capacita seu possuidor a compreender o cenário histórico mais amplo, em termos de seu significado para a vida íntima e para a carreira exterior de numerosos indivíduos. Permite-lhe levar em conta como os indivíduos, na agitação de sua experiência diária, adquirem frequentemente uma consciência falsa de suas posições sociais. [...] A imaginação sociológica nos permite compreender a história e a biografia e as relações entre ambas, dentro da sociedade. Essa é a sua tarefa e a sua promessa".

Em busca da promessa da imaginação saí em busca de minhas conexões, tanto reais quanto imaginárias. Percebi que todas elas atiçam, permitem reluzir estradas e destinos, ampliar a criação.

Fiz viagens epopeicas: uma odisseia, outra ao centro da Terra e uma tamanha que durou quase quarenta anos, bem mais que os consagrados oitenta dias necessários para percorrer o mundo. Nesse tempo, percebi que o mundo todo estava aqui, perto, bem perto, dentro de mim, espremido entre demônios, lágrimas empoçadas, tramas e dramas hiperativadas.

De repente - e realmente não mais do que de repente - de soslaio vi o ontem, o já, o depois-do-amanhã, esse tempo que às vezes se faz tão mais tarde, na fronteira perdida do quase nunca, do nunca, do nunca jamais. Havia lá um circuito poderoso de paixões: a bandeira do Fluminense Football Club a tremular, o rosto de meu filho sorrindo para mim e para a vida, a companhia esquecida, sempre aquecida, de todas as horas. Soube, num movimento de sensações um tanto quanto confusas, que a vida estava inteirinha aos meus pés, sempre estivera, à espera de meu entender, do estender de minha mão. A pergunta que me fiz, e que ressoou, ressoou, ressoou... "Onde estava minha consciência em si?"

Diante dos fatos e de tanta arguição autocrítica, acredito que inédita até então, inaugurei minha imaginação sociológica. Reuni minha biografia e a história à qual eu atribuí tão pouco sentido ao longo do tempo. Pesei suas inter-relações, desconectei o que era preciso desconectar, pluguei-me nas passagens do vento sudoeste, o sopro natural que anuncia mudanças. A nova direção era antiga, perfazia o trecho que já havia me feito, amadurecido, preparado para a batalha das ideias. O que agora me chegava era o carimbo do passaporte: "Bem-vindo, senhor, ao deserto do real, onde tudo, se bem observado e trabalhado, pode voltar-se em seu favor!". A voz, juro, não me era estranha. Preferi, contudo, atinar com sua excelente recomendação. Observar, imaginar - sempre sociologicamente - e trabalhar a realidade!

Conectei-me ao passado, ao presente e ao futuro, reescrevi o poema que inaugurou minha revolução. Tirei do caminho a enorme pedra que lá estava, que eu mesmo havia posto por lá. Recordei Leandro Konder, que me ensinou que é no coração que vive o ímpeto revolucionário, o embrião subjetivo da mudança necessária. Novamente, uma pergunta cheia de arestas pontiagudas: "E quem é mesmo que muda o coração?!"

Somei, alinhei, organizei ideias, projetos e velhos programas de ação. Estava tudo pronto e ao ponto fazia bastante tempo, a aguardar o meu reencontro com a inevitável ponte do mundo - aquela que liga paisagens, pessoas, tudo que nos quer bem.

Cansado, porém inteiro e disposto para tudo o mais, esboço estas honestas e ainda tímidas linhas, avaliando o tom positivo de meu alívio e de minhas canções. Hora de perseguir o lugar e as circunstâncias em que tudo foi deixado, ir até lá, voando no tempo e no espaço, resgatar a semente de tudo. Agora, certeza, entendi o lindo texto do sociólogo de todas as gerações, o indispensável C. Wright Mills. Abro a janela da minha alma e lhe estendo a mão. Seu cumprimento é firme, convicto. Seus olhos brilham e um ensaio de contente sorriso se faz notar. Ele agradece a lembrança, acenando com a cabeça e praticando uma saída discreta. Seus passos o levam ao horizonte, até o mundo em que vivem os eternos. Está consumado.

09 abril 2011

Terça-feira, cheiro e gosto do mar


"Sea Dance One", fotografia de João de Castro

Havia naquilo tudo algo de muito especial. Para mim, tratava-se de um ritual, uma rotina que tomava conta dos meus ânimos e ideias toda terça-feira. Saber que ela estaria lá, a dois passos, ao simples alcance do olhar, fazia uma diferença enorme. Não fosse por ela, pelo jeito de menina, a forma doce de quem espera amar, exala a transformação do sensato em loucura incontrolável, as noites daquelas hoje tão longínquas terças de três anos atrás não seriam vividas. Na verdade, pensando agora, acredito que elas não teriam sido nada, provavelmente nem possíveis. O lugar, o jeito como as coisas tiveram por imposição e burrice de ocorrer... Aquela menina, só aquela menina movia meus pensamentos, meu corpo. Naquele ano - de número par, para aumentar a contradição! - ela me permitiu imaginar um pouco mais, por um tempo a mais.

É da imaginação, por sinal, que ela tanto alimentou que nasce a história a seguir, misto do que eu quis, do que ainda quero e do que, é certo, jamais ocorrerá. É apenas o espectro daquelas terças se manifestando em voz alta, rondando meu desejo e se exclamando por meio de um elixir proibido.

O nome dela me reaproximava do mar, fato que fazia tudo ficar ainda mais excitante. O mar, o rock, o bate-bola na areia, paixões que tenho carregado vida adentro, no peito e na raça, abraçando meu próprio tempo. Ali, na segunda fileira, disposta ao cair de meus olhos ao sudeste, canto manso, eu via o mar, sinais amendoados do ver, curvas sempre detidamente refeitas, perscrutadas pela visão de raio-x que seria incrível ter possuído naquela época... Naquele meio ano hoje perdido em minha biografia, se tivesse superpoderes, dedicaria todos eles a ela, ao desvendar da menina-mistério que enfeitava minhas fantasias, tirava meu sono, desequilibrava o professor por trás do homem sedento por paixão, desatino, prazer.

Numa aula despretensiosa, cuidava de falar do conceito de ideologia. Retratei os elementos ideológicos de inversão da realidade, alienação e fetichismo da mercadoria através de exemplos tirados do dia a dia, dos programas televisivos, das baladas jovens. Acredito que não tenha exagerado ao banalizar por completo o cotidiano das novas gerações, consumistas, apáticas, desengajadas e agudamente ignorantes. Fora de seus microcosmos imediatos, não veem a ponta do próprio nariz. A indiferença da geração Z (já era o tal Y dos criativos seres do mundo virtual!), que nada tem da coragem de Don Diego de La Vega, exponencia os problemas sociais de hoje e lança para um futuro impenetrável até pela ficção científica espaços de solidariedade, justiça e paz que possam se generalizar. Ao fim da aula, como me é usual, saí meio baqueado, tocado pelas conclusões que a mim se repetem sempre, todos os dias, aula após aula, leitura após leitura dos livros e do mundo.

No balcão da cantina, entre um gole e outro de um refrigerante, ouvi a voz dela diretamente voltada para mim.

- Sua aula de hoje foi espetacular, professor. Vivemos tão depressa as coisas, tão desligados, que não vemos  tudo aquilo que você disse. Compramos, compramos, nos vendemos por tão pouco, para todo o mundo. Incrível como a ideologia nos deforma. Adorei a expressão que você usou, professor, "pressões deformadoras de nossa visão de mundo". Saio daqui muito melhor hoje, graças a sua aula!

O perfume daquela menina que me representava o mar era suave, quase pueril. Eu me arriscava a imaginar que havia algo de criminoso em meus pensamentos: sentia-me, de fato, a cotejar uma garota, que, apesar de maior de idade, cheirava a leite, meninice pura. Juro que fui capaz de perceber na ponta dos lábios, imaginariamente, é claro, a delícia e o calor da pele dela...

- Sabe, professor, todas as suas aulas têm me reinventado. Todos os outros professores e seus discursos de mercado me enojam. Tenho medo de ter escolhido uma profissão que não poderei seguir por constrangimento moral. Como ser publicitária depois de saber tudo que tenho aprendido com você?!

Cada palavra que saía daquela boca tão bem desenhada, frágil, leve, rosa me dizia um pouco mais sobre o poder da minha vontade, do meu impulso freado de ter aquela mulher em meus braços. Refiz-me e lhe disse o que realmente ainda penso sobre o assunto em pauta.

- Nada a impede de ser publicitária e exercitar as coisas que julga estar a aprender. É possível, com ética e prioridades que não sejam exclusivamente mercantis, atuar no mercado de imagens e consumo com inteligência solidária, eficiência, sofisticação. Aliás é disto que se precisa tanto: saber vender o que deve ser vendido e convencer pela sabedoria, não pela ideologia das ocultações e meias-verdades. Essas coisas todo o mundo sabe fazer com maestria já.

Ela baixou os olhos, sorriu e me disse, erguendo lentamente a cabeça:

- Quando for uma publicitária de sucesso, juro que vou fazer orgulhar-se de mim, dos meus trabalhos. Se eu só tivesse você como professor, eu já teria o que é preciso para ser gente e profissional. Muito obrigada pelas terças-feiras que serão inesquecíveis por toda a minha vida, professor.

Foi a minha vez de baixar a guarda, disfarçar o movimento inicial de lágrimas a fugir dos olhos. A cantina estava fechando, já quase não havia alunos na faculdade. Eram quase dez e meia da noite. A van que levaria aquela menina-mulher de olhos cor de mel para sua cidade, na região metropolitana, a pegaria somente às onze e vinte. Ela era a primeira a chegar e a última a sair entre os colegas de turma. Meu horário também já estava vencido fazia tempo. A aula acabara às dez da noite.

- Nossa, professor, como é chato ficar por aqui toda noite, sozinha por mais de uma hora até chegar minha van. Um verdadeiro saco. E com esse friozinho que está hoje então...

Verdade. Fazia um frio de doer naquela terça. O mês, acho, era julho, últimos respiros do semestre, pouca gente habitando corredores e dependências da instituição.

- Ao menos aqui dentro você está segura. Daqui a pouco sua van estará por aqui. Bom, vou ao banheiro e para casa, descansar. Foi uma noite exaustiva na sala, não? Até semana que vem.

Ela dedilhou o ar me acenando um adeus com forte insinuação de que a coisa não pararia por ali...

Diante do espelho, torneira aberta, eu jogava água no rosto e na nuca, tentando diminuir o calor causado por aquela conversa. A presença daquela garota me desequilibrava mesmo. Eu permaneci excitado durante todo o momento em que ela esteve perto de mim. Cada olhar que ela me dirigia tornava meu tesão mais difícil de suportar.

Quando enxugava rosto e mãos para pegar minha pasta e sair, ouvi a porta do banheiro bater. Ouvi também um incômodo barulho de trinco. Só de suspeitar que estava sendo preso àquela hora da noite no banheiro mais afastado do campus me deixou em pânico. Corri em direção à porta, queria evitar o pior, contar com a sorte de haver algúem no corredor ainda...

Às costas da porta, devidamente trancada, lá estava ela, guardando o celular na bolsa e sorrindo de um modo muito comprometedor.

- Sabe, professor, disse ao motorista da minha van que iria para casa de carona com uma amiga. Ele não virá me buscar, e eu, na verdade, pretendo ficar por aqui com você. Quero mostrar na prática o que penso sobre os olhares que trocamos ao longo desses meses todos.

Senti um calafrio na espinha. Engoli a seco e percebi que gritar, resistir, argumentar, qualquer coisa, nada adiantaria. Diante de mim, já jogando bolsa e casaco no chão, havia uma fêmea que eu não descobrira nos meses de aula, nas terças de tantos devaneios. Olhos fixos, lançou seus braços atrás de mim, contraiu-me em direção ao seu corpo e mordeu com os lábios meu pescoço. Em segundos, sua língua preenchera cada poro de meu rosto, penetrando com intenso desejo minha boca. Nossas bocas passaram muitos minutos trocando fortes impressões, sussurros e algumas palavras bem sacanas.

- Confessa, professor. Quantas vezes bateu punheta pensando em minha buceta, hein, hein?! Quantas vezes se imaginou me pegando de quatro, gozando em mim, comendo minha bunda, hein, hein?!

Entre perguntas de respostas já bem conhecidas e salivas ardentes, fui me entregando aos movimentos de minha menina que lembrava o mar, cujo nome era parte da paisagem mais importante da minha vida. Sem que percebesse os caminhos que a levariam a tal feito, senti sua boca abocanhar meu pau. Primeiro, timidamente, apenas a percorrer a cabeça com a ponta da língua. Em instantes, atrevidamente, com a garganta a cutucar a ponta do meu pau, já em estado de erupção, pronto para o que desse e viesse. E deu. E veio.

Jogado ao chão, acompanhei os movimentos do quadril dela em direção a minha cabeça. Cavalgou a buceta em minha boca, gozando umas duas ou três vezes. Naquele instante, todos os corredores da faculdade eram escuridão e silêncio. Já não havia nada, apenas nós dois e as parcas luzes de emergência no interior do banheiro a ilustrar para cada um de nós corpo e sensações um do outro. Resolvi, então, virar o jogo. Livrei-me do corpo dela sobre meu olhos, deitei-a de bruços e me dobrei sobre seu corpo, enfiando com força meu pau em sua buceta. Úmidos e apertados para valer, aqueles lábios da buceta me fizeram libertar obscenidades...

- Agora diga há quanto tempo sonha em ser currada por mim de bruços, há quanto tempo imagina meu pau perfurando com força sua buceta, há quanto tempo enlouquece só de imaginar meu pau desse jeito, socando feito uma metralhadora sua bunda... Diga!

Ela gemia, gritava e não parava de dizer: "Mais, mais, mais!"

Levantei-a pelas ancas, deixei-de quatro, pedi que empinasse a bunda. Ergui meu corpo, fiquei de pé, só um pouco curvado pelos joelhos. Enfiei sem muita cerimônia (apenas com auxílio de alguns cuspes desbravadores) a cabeça do pau no cuzinho dela. O melhor cuzinho de todo o mundo, sem sombra de dúvida. Quando pressenti a entrada sem muita dificuldade e a resistência zero dela, cravei o resto até o talo. Aí, sim, ouvi um grito que não escondia a mistura perfeita de dor e prazer.

- Filho da puta!, ela exclamou com fúria. - Come esse cu, come, filho da puta, me faz sangrar de dor e tesão, caralho!

Poucos minutos depois estava encharcando aquele cu maravilhoso de porra. Sentei-me, exausto, e ainda pude viver a delícia de ter aquele menina beijando minha boca, suavemente, e acariciando meu pau, destinatário das honras de um verdadeiro herói.

Enrolamo-nos em casacos, blusas, tudo que encontramos. O calor de nossos corpos e almas, contudo, já era suficiente para driblar o frio que viria madrugada adentro. Pela manhã, saímos quando os funcionários da escala abriram os corredores, antes de qualquer sinal de aluno, professor ou burocrata. De carro, levei a mulher com nome, cheiro e gosto de mar até sua casa, algumas cidades no percurso ao sul. Não trocamos uma palavra, apenas sorrisos, canções pelo rádio e a promessa, de nossos olhares, que outras terças-feiras agora poderiam se repetir às quartas, sextas, domingos...

Todo dia seria terça-feira para nós. Todo dia.

Questão de Método

A atriz Nanda Costa, em fotografia de J. R. Duran, para a Revista TRIP

A paisagem, quando ainda inteira
prendia meus sonhos, sufocando as energias

Hoje a paisagem, não obstante olhos só a queiram bela
é fragmentada, apresenta pontos de escuridão

Entre a luz que aprisiona e a treva que permite sonhar
pinto de preto meu mundo
observando o velho caminho
lendo antigas pistas
desejando mais um vez - e de novo!
interrogar-me para de fato conhecer
ser livre, viver

Alguém disse
e estava mesmo coberto de razão
que a ortodoxia é pura e duradoura questão de método

Agora sim - e mais uma vez!
estou de volta à negra e iluminada contramão