16 abril 2011

O beco das ideias


Casa onde nasceu Karl Marx, em 1818, em Trier, Colônia, velha Prússia.

Ouvi algo interessante sobre a maldade. Meu interlocutor, um jovem e talentoso professor, diferenciado, vocacionado weberianamente ao trabalho acadêmico e ao ensino, relatava que sempre soubera da existência da inveja, da mentira, da conspiração maldizente. No entanto, disse que só soube como tudo era duro, difícil e destrutivo quando praticaram um pouco de tudo contra ele. Confessou que levara um bom tempo para se restabelecer, entender que a vida era mais, muito mais. Diante dele, refletindo sobre suas palavras de visível dor e prostração, entendi que o tema era válido, requeria, sim, meia dúzia de movimentos da minha inquietação.

Leandro Konder atesta que num mundo marcado por quantificação e hipercompetitividade é complicado escapar à individualização egoísta, à tentação de juntar-se a grupelhos que existem e giram em torno de interesses mesquinhos, extremamente particularistas. Faz tempo que esses míseros interesses constituem as chamadas "panelinhas", clubinhos fechados que reúnem gente sem visão coletiva, sem olhar público, sem imaginação sociológica, uma gente contaminada pelo cinismo e pelas velhas concepções patrimonialistas da realidade - concepções essas que muitos membros do clubinho julgam odiar e combater.

Quando me dou a pensar sobre alguns meios acadêmicos, algumas rodas ocupadas por gente que diz brilhar, fazer pesquisa, ciência, construir saberes e conhecimentos, me vem forte à cabeça uma das máximas de Sérgio Buarque de Holanda, publicada no imortal Raízes do Brasil (1936), segundo a qual nossas elites dominantes sempre fizeram, no Brasil, a coisa pública se assemelhar ao quintal de suas fazendas e propriedades privadas, uma extensão de seus domínios, onde valem o arbítrio, a dissimulação, fuxicos e pequenezas. Eu acredito de verdade que a maldade a que se referia meu interlocutor ferido reside nesse vazio, nessa confraria de entulhos semifeudais.

Outra expressão que denota bem a maldade de que me falava meu cabisbaixo interlocutor é mediocridade. Comparados a expoentes de suas áreas de conhecimento e atuação, os medíocres membros dos clubinhos da maldade nem embriões conseguem ser: não estudam, não publicam (a não ser textos sofríveis em periódicos de vigésima quarta categoria!), não frequentam os grandes encontros (nem convidados são!), não são quase nada mesmo. Diante de nomes de peso e de promessas no mundo intelectual, destilam sua venenosa inveja, manipulando números, favorecendo seus tristes laços de compadrio. Rejeitam os melhores e afastam perspectivas teóricas e profissionias que possam botar em xeque suas frágeis e melancólicas incompetências. Abortar o novo é o exercício predileto da mediocridade.

Conheci, tal qual meu agora amadurecido interlocutor, muita gente assim, que se fez de modo estranho e suspeito, que adentrou todas as festas pela porta dos fundos, felicitados por parentesco, sentimentos de dó e altíssima comiseração. Gente ruim, esvaziada, que se repete década após década, obstruindo a novidade agostiniana, aquela que dá esperança a cada nascer. Membros natos de grupelhos e conspirações fascistas - ainda, vale lembrar, que posem de democratas e arrotem uma postura ética absolutamente inexistente em seus passos.

No instante em que pude perceber um breve porém profundo hiato nas palavras condoídas do meu interlocutor, pus-me, sem querer, a lembrar essas figuras, que sabem tão pouco, ostentam tanto, representam, nos mundos de que se gabam, uma micro partícula indiferente e desprezível.

Escapar à mediocridade é encostar-se nos melhores, manter a coerência, ser livre intelectualmente. Numa de minhas andanças pelos trechos de um desses clubinhos (não obstante eu estivesse realmente só de passagem), fui condenado por ser marxista - nada disseram, camuflaram-se no palavrório elogioso e no ranger dos dentes à revelia da pertinência do meu trabalho (pertinente, julgo, porque franco, lapidado na lida, testado numa prática decenal de experiências múltiplas e verdadeiramente dialéticas, sempre reciprocamente referendadas).

Minha opção, contudo, é mesmo a de frequentar o beco das ideias. Lá, quis até dizer a meu interlocutor, convivem a genialidade de Einstein, a coragem de Gramsci, o coração de Benjamin, a decência de Weber, a grandeza de Arendt, a inquietude de Poulantzas, a generosidade de Lukács, a criatividade de Kafka, o ímpeto guerreiro de Marx, o sorriso de Konder. Em muitos momentos, a depender do papo das longas manhãs, tardes e noites, o eterno Jesus se senta à mesa e traz algumas palavras de amor, solidariedade, justiça e paz.

No beco, fujo do medo, congratulo-me com o saber, com o princípio de irredutibilidade do mundo aos meus imperativos subjetivistas. Ao mesmo tempo, na doçura da dialética, aprendo a ser irredutível diante das determinações cruentas e desumanas do real. Por lá descubro que bom mesmo é aprender na diversidade, enfrentando as agruras da vida para compor uma rica unidade. No bom beco de mestres e referências, aprendi que a casa da vida tem múltiplas moradas, que o conhecimento é pluri, inter, multi, transdisciplinar, meio musical, inteiramente poético e cinematográfico. O conhecimento, ensinam-me os frequentadores do beco, é síntese de rigor e ensaísmo, pulso da responsabilidade e da certeza nada feuerbachiana: entender já se entendeu, agora é hora de alterar o curso da vida.

Só se conhece o que se persegue; só se substitui o que de fato está superado. No beco do mundo, enfim, obtive e estou sempre a renovar a chave de minha autossuperação, em busca de alguém em mim que valha a pena amar incondicionalmente.