09 abril 2011

Terça-feira, cheiro e gosto do mar


"Sea Dance One", fotografia de João de Castro

Havia naquilo tudo algo de muito especial. Para mim, tratava-se de um ritual, uma rotina que tomava conta dos meus ânimos e ideias toda terça-feira. Saber que ela estaria lá, a dois passos, ao simples alcance do olhar, fazia uma diferença enorme. Não fosse por ela, pelo jeito de menina, a forma doce de quem espera amar, exala a transformação do sensato em loucura incontrolável, as noites daquelas hoje tão longínquas terças de três anos atrás não seriam vividas. Na verdade, pensando agora, acredito que elas não teriam sido nada, provavelmente nem possíveis. O lugar, o jeito como as coisas tiveram por imposição e burrice de ocorrer... Aquela menina, só aquela menina movia meus pensamentos, meu corpo. Naquele ano - de número par, para aumentar a contradição! - ela me permitiu imaginar um pouco mais, por um tempo a mais.

É da imaginação, por sinal, que ela tanto alimentou que nasce a história a seguir, misto do que eu quis, do que ainda quero e do que, é certo, jamais ocorrerá. É apenas o espectro daquelas terças se manifestando em voz alta, rondando meu desejo e se exclamando por meio de um elixir proibido.

O nome dela me reaproximava do mar, fato que fazia tudo ficar ainda mais excitante. O mar, o rock, o bate-bola na areia, paixões que tenho carregado vida adentro, no peito e na raça, abraçando meu próprio tempo. Ali, na segunda fileira, disposta ao cair de meus olhos ao sudeste, canto manso, eu via o mar, sinais amendoados do ver, curvas sempre detidamente refeitas, perscrutadas pela visão de raio-x que seria incrível ter possuído naquela época... Naquele meio ano hoje perdido em minha biografia, se tivesse superpoderes, dedicaria todos eles a ela, ao desvendar da menina-mistério que enfeitava minhas fantasias, tirava meu sono, desequilibrava o professor por trás do homem sedento por paixão, desatino, prazer.

Numa aula despretensiosa, cuidava de falar do conceito de ideologia. Retratei os elementos ideológicos de inversão da realidade, alienação e fetichismo da mercadoria através de exemplos tirados do dia a dia, dos programas televisivos, das baladas jovens. Acredito que não tenha exagerado ao banalizar por completo o cotidiano das novas gerações, consumistas, apáticas, desengajadas e agudamente ignorantes. Fora de seus microcosmos imediatos, não veem a ponta do próprio nariz. A indiferença da geração Z (já era o tal Y dos criativos seres do mundo virtual!), que nada tem da coragem de Don Diego de La Vega, exponencia os problemas sociais de hoje e lança para um futuro impenetrável até pela ficção científica espaços de solidariedade, justiça e paz que possam se generalizar. Ao fim da aula, como me é usual, saí meio baqueado, tocado pelas conclusões que a mim se repetem sempre, todos os dias, aula após aula, leitura após leitura dos livros e do mundo.

No balcão da cantina, entre um gole e outro de um refrigerante, ouvi a voz dela diretamente voltada para mim.

- Sua aula de hoje foi espetacular, professor. Vivemos tão depressa as coisas, tão desligados, que não vemos  tudo aquilo que você disse. Compramos, compramos, nos vendemos por tão pouco, para todo o mundo. Incrível como a ideologia nos deforma. Adorei a expressão que você usou, professor, "pressões deformadoras de nossa visão de mundo". Saio daqui muito melhor hoje, graças a sua aula!

O perfume daquela menina que me representava o mar era suave, quase pueril. Eu me arriscava a imaginar que havia algo de criminoso em meus pensamentos: sentia-me, de fato, a cotejar uma garota, que, apesar de maior de idade, cheirava a leite, meninice pura. Juro que fui capaz de perceber na ponta dos lábios, imaginariamente, é claro, a delícia e o calor da pele dela...

- Sabe, professor, todas as suas aulas têm me reinventado. Todos os outros professores e seus discursos de mercado me enojam. Tenho medo de ter escolhido uma profissão que não poderei seguir por constrangimento moral. Como ser publicitária depois de saber tudo que tenho aprendido com você?!

Cada palavra que saía daquela boca tão bem desenhada, frágil, leve, rosa me dizia um pouco mais sobre o poder da minha vontade, do meu impulso freado de ter aquela mulher em meus braços. Refiz-me e lhe disse o que realmente ainda penso sobre o assunto em pauta.

- Nada a impede de ser publicitária e exercitar as coisas que julga estar a aprender. É possível, com ética e prioridades que não sejam exclusivamente mercantis, atuar no mercado de imagens e consumo com inteligência solidária, eficiência, sofisticação. Aliás é disto que se precisa tanto: saber vender o que deve ser vendido e convencer pela sabedoria, não pela ideologia das ocultações e meias-verdades. Essas coisas todo o mundo sabe fazer com maestria já.

Ela baixou os olhos, sorriu e me disse, erguendo lentamente a cabeça:

- Quando for uma publicitária de sucesso, juro que vou fazer orgulhar-se de mim, dos meus trabalhos. Se eu só tivesse você como professor, eu já teria o que é preciso para ser gente e profissional. Muito obrigada pelas terças-feiras que serão inesquecíveis por toda a minha vida, professor.

Foi a minha vez de baixar a guarda, disfarçar o movimento inicial de lágrimas a fugir dos olhos. A cantina estava fechando, já quase não havia alunos na faculdade. Eram quase dez e meia da noite. A van que levaria aquela menina-mulher de olhos cor de mel para sua cidade, na região metropolitana, a pegaria somente às onze e vinte. Ela era a primeira a chegar e a última a sair entre os colegas de turma. Meu horário também já estava vencido fazia tempo. A aula acabara às dez da noite.

- Nossa, professor, como é chato ficar por aqui toda noite, sozinha por mais de uma hora até chegar minha van. Um verdadeiro saco. E com esse friozinho que está hoje então...

Verdade. Fazia um frio de doer naquela terça. O mês, acho, era julho, últimos respiros do semestre, pouca gente habitando corredores e dependências da instituição.

- Ao menos aqui dentro você está segura. Daqui a pouco sua van estará por aqui. Bom, vou ao banheiro e para casa, descansar. Foi uma noite exaustiva na sala, não? Até semana que vem.

Ela dedilhou o ar me acenando um adeus com forte insinuação de que a coisa não pararia por ali...

Diante do espelho, torneira aberta, eu jogava água no rosto e na nuca, tentando diminuir o calor causado por aquela conversa. A presença daquela garota me desequilibrava mesmo. Eu permaneci excitado durante todo o momento em que ela esteve perto de mim. Cada olhar que ela me dirigia tornava meu tesão mais difícil de suportar.

Quando enxugava rosto e mãos para pegar minha pasta e sair, ouvi a porta do banheiro bater. Ouvi também um incômodo barulho de trinco. Só de suspeitar que estava sendo preso àquela hora da noite no banheiro mais afastado do campus me deixou em pânico. Corri em direção à porta, queria evitar o pior, contar com a sorte de haver algúem no corredor ainda...

Às costas da porta, devidamente trancada, lá estava ela, guardando o celular na bolsa e sorrindo de um modo muito comprometedor.

- Sabe, professor, disse ao motorista da minha van que iria para casa de carona com uma amiga. Ele não virá me buscar, e eu, na verdade, pretendo ficar por aqui com você. Quero mostrar na prática o que penso sobre os olhares que trocamos ao longo desses meses todos.

Senti um calafrio na espinha. Engoli a seco e percebi que gritar, resistir, argumentar, qualquer coisa, nada adiantaria. Diante de mim, já jogando bolsa e casaco no chão, havia uma fêmea que eu não descobrira nos meses de aula, nas terças de tantos devaneios. Olhos fixos, lançou seus braços atrás de mim, contraiu-me em direção ao seu corpo e mordeu com os lábios meu pescoço. Em segundos, sua língua preenchera cada poro de meu rosto, penetrando com intenso desejo minha boca. Nossas bocas passaram muitos minutos trocando fortes impressões, sussurros e algumas palavras bem sacanas.

- Confessa, professor. Quantas vezes bateu punheta pensando em minha buceta, hein, hein?! Quantas vezes se imaginou me pegando de quatro, gozando em mim, comendo minha bunda, hein, hein?!

Entre perguntas de respostas já bem conhecidas e salivas ardentes, fui me entregando aos movimentos de minha menina que lembrava o mar, cujo nome era parte da paisagem mais importante da minha vida. Sem que percebesse os caminhos que a levariam a tal feito, senti sua boca abocanhar meu pau. Primeiro, timidamente, apenas a percorrer a cabeça com a ponta da língua. Em instantes, atrevidamente, com a garganta a cutucar a ponta do meu pau, já em estado de erupção, pronto para o que desse e viesse. E deu. E veio.

Jogado ao chão, acompanhei os movimentos do quadril dela em direção a minha cabeça. Cavalgou a buceta em minha boca, gozando umas duas ou três vezes. Naquele instante, todos os corredores da faculdade eram escuridão e silêncio. Já não havia nada, apenas nós dois e as parcas luzes de emergência no interior do banheiro a ilustrar para cada um de nós corpo e sensações um do outro. Resolvi, então, virar o jogo. Livrei-me do corpo dela sobre meu olhos, deitei-a de bruços e me dobrei sobre seu corpo, enfiando com força meu pau em sua buceta. Úmidos e apertados para valer, aqueles lábios da buceta me fizeram libertar obscenidades...

- Agora diga há quanto tempo sonha em ser currada por mim de bruços, há quanto tempo imagina meu pau perfurando com força sua buceta, há quanto tempo enlouquece só de imaginar meu pau desse jeito, socando feito uma metralhadora sua bunda... Diga!

Ela gemia, gritava e não parava de dizer: "Mais, mais, mais!"

Levantei-a pelas ancas, deixei-de quatro, pedi que empinasse a bunda. Ergui meu corpo, fiquei de pé, só um pouco curvado pelos joelhos. Enfiei sem muita cerimônia (apenas com auxílio de alguns cuspes desbravadores) a cabeça do pau no cuzinho dela. O melhor cuzinho de todo o mundo, sem sombra de dúvida. Quando pressenti a entrada sem muita dificuldade e a resistência zero dela, cravei o resto até o talo. Aí, sim, ouvi um grito que não escondia a mistura perfeita de dor e prazer.

- Filho da puta!, ela exclamou com fúria. - Come esse cu, come, filho da puta, me faz sangrar de dor e tesão, caralho!

Poucos minutos depois estava encharcando aquele cu maravilhoso de porra. Sentei-me, exausto, e ainda pude viver a delícia de ter aquele menina beijando minha boca, suavemente, e acariciando meu pau, destinatário das honras de um verdadeiro herói.

Enrolamo-nos em casacos, blusas, tudo que encontramos. O calor de nossos corpos e almas, contudo, já era suficiente para driblar o frio que viria madrugada adentro. Pela manhã, saímos quando os funcionários da escala abriram os corredores, antes de qualquer sinal de aluno, professor ou burocrata. De carro, levei a mulher com nome, cheiro e gosto de mar até sua casa, algumas cidades no percurso ao sul. Não trocamos uma palavra, apenas sorrisos, canções pelo rádio e a promessa, de nossos olhares, que outras terças-feiras agora poderiam se repetir às quartas, sextas, domingos...

Todo dia seria terça-feira para nós. Todo dia.