16 abril 2011

Um aperto de mão em C. Wright Mills


Pedra do Arpoador, no Rio de Janeiro, o lar do vento sudoeste (Fotografia: Remollido)

Publicado pela primeira vez em 1959, e rapidamente tornado indispensável na compreensão do saber nas ciências humanas e sociais, o livro "A Imaginação Sociológica", do estadunidense Charles Wright Mills, redefiniu toda a ecologia de saberes pertencente a Sociologia. Seu pressuposto central - o de que necessitamos mais de nós mesmos e de nossa articulação entre a consciência e o mundo - explicita-se muitíssimo bem na seguinte passagem...

"A imaginação sociológica capacita seu possuidor a compreender o cenário histórico mais amplo, em termos de seu significado para a vida íntima e para a carreira exterior de numerosos indivíduos. Permite-lhe levar em conta como os indivíduos, na agitação de sua experiência diária, adquirem frequentemente uma consciência falsa de suas posições sociais. [...] A imaginação sociológica nos permite compreender a história e a biografia e as relações entre ambas, dentro da sociedade. Essa é a sua tarefa e a sua promessa".

Em busca da promessa da imaginação saí em busca de minhas conexões, tanto reais quanto imaginárias. Percebi que todas elas atiçam, permitem reluzir estradas e destinos, ampliar a criação.

Fiz viagens epopeicas: uma odisseia, outra ao centro da Terra e uma tamanha que durou quase quarenta anos, bem mais que os consagrados oitenta dias necessários para percorrer o mundo. Nesse tempo, percebi que o mundo todo estava aqui, perto, bem perto, dentro de mim, espremido entre demônios, lágrimas empoçadas, tramas e dramas hiperativadas.

De repente - e realmente não mais do que de repente - de soslaio vi o ontem, o já, o depois-do-amanhã, esse tempo que às vezes se faz tão mais tarde, na fronteira perdida do quase nunca, do nunca, do nunca jamais. Havia lá um circuito poderoso de paixões: a bandeira do Fluminense Football Club a tremular, o rosto de meu filho sorrindo para mim e para a vida, a companhia esquecida, sempre aquecida, de todas as horas. Soube, num movimento de sensações um tanto quanto confusas, que a vida estava inteirinha aos meus pés, sempre estivera, à espera de meu entender, do estender de minha mão. A pergunta que me fiz, e que ressoou, ressoou, ressoou... "Onde estava minha consciência em si?"

Diante dos fatos e de tanta arguição autocrítica, acredito que inédita até então, inaugurei minha imaginação sociológica. Reuni minha biografia e a história à qual eu atribuí tão pouco sentido ao longo do tempo. Pesei suas inter-relações, desconectei o que era preciso desconectar, pluguei-me nas passagens do vento sudoeste, o sopro natural que anuncia mudanças. A nova direção era antiga, perfazia o trecho que já havia me feito, amadurecido, preparado para a batalha das ideias. O que agora me chegava era o carimbo do passaporte: "Bem-vindo, senhor, ao deserto do real, onde tudo, se bem observado e trabalhado, pode voltar-se em seu favor!". A voz, juro, não me era estranha. Preferi, contudo, atinar com sua excelente recomendação. Observar, imaginar - sempre sociologicamente - e trabalhar a realidade!

Conectei-me ao passado, ao presente e ao futuro, reescrevi o poema que inaugurou minha revolução. Tirei do caminho a enorme pedra que lá estava, que eu mesmo havia posto por lá. Recordei Leandro Konder, que me ensinou que é no coração que vive o ímpeto revolucionário, o embrião subjetivo da mudança necessária. Novamente, uma pergunta cheia de arestas pontiagudas: "E quem é mesmo que muda o coração?!"

Somei, alinhei, organizei ideias, projetos e velhos programas de ação. Estava tudo pronto e ao ponto fazia bastante tempo, a aguardar o meu reencontro com a inevitável ponte do mundo - aquela que liga paisagens, pessoas, tudo que nos quer bem.

Cansado, porém inteiro e disposto para tudo o mais, esboço estas honestas e ainda tímidas linhas, avaliando o tom positivo de meu alívio e de minhas canções. Hora de perseguir o lugar e as circunstâncias em que tudo foi deixado, ir até lá, voando no tempo e no espaço, resgatar a semente de tudo. Agora, certeza, entendi o lindo texto do sociólogo de todas as gerações, o indispensável C. Wright Mills. Abro a janela da minha alma e lhe estendo a mão. Seu cumprimento é firme, convicto. Seus olhos brilham e um ensaio de contente sorriso se faz notar. Ele agradece a lembrança, acenando com a cabeça e praticando uma saída discreta. Seus passos o levam ao horizonte, até o mundo em que vivem os eternos. Está consumado.