22 abril 2011

Verás que um filho teu não foge à luta!


Mariano, com a camisa 2, Marquinho e Fred, com a braçadeira de capitão, logo após o quarto gol do time, marcado por Fred, no finalzinho do jogo que classificou o FLUMINENSE para as oitavas-de-final da LIBERTADORES 2011 e para o LIVRO ETERNO DO FUTEBOL MUNDIAL!

O Fluminense viajou para a Argentina nesta semana levando na bagagem, segundo os impressionantes matemáticos midiáticos, oito por cento de chances de se classificar para as oitavas-de-final da Taça Libertadores da América. O glorioso clube das Laranjeiras levou também, um oferecimento de seus dez milhões de torcedores, cem por cento de esperança, vigor e espírito guerreiro. Em vez de acomodar esses ingredientes tão indispensáveis ao sucesso nas malas, posicionou-os no peito, na raça, na linda faixa verde que corta o uniforme número três do time, vermelho-grená em sua quase inteireza.

Com quatro gols, dois de Fred, um de Júlio César, outro de Rafael Moura, o incansável He-Man, o Fluminense obteve em Buenos Aires, na noite da última quarta-feira, 20 de abril, uma vitória épica, heroica. O clube argentino tentou, empatou o jogo duas vezes, mas sucumbiu à superioridade tricolor, a qual se fez evidente desde o início da partida. Para completar a vitória mágica, o América do México, que disputava com o Nacional do Uruguai o outro último jogo da rodada e do grupo, empatou em Montevidéu, sepultando o time uruguaio e, de brinde, o argentino. Avançam agora os times mexicano e brasileiro - o mais brasileiro de todos os times de futebol, frise-se! Como tão bem destacou Rica Perrone, em adágio quase cântico... "Se futebol é paixão, ninguém mexe nisso mais com seu torcedor do que o Fluminense. Ele não ganha, não perde, nem empata. Ele faz história."

Telê Santana, o eterno Fio Maravilha, um tricolor apaixonado, costumava dizer que preferia que seu time jogasse bem, ainda que perdesse, a vencer sem méritos ou por razões acidentais. Ontem, na cidade portenha, quando tudo apostava em derrota, desclassificação e até vexame, o Fluminense venceu e jogou bem, dando mostras de que possui grande elenco, unidade, paixão à bandeira das mais belas cores do mundo. Mais: o Fluzão explicitou, em hostil campo argentino, que é capaz de sintetizar os desejos de Mestre Telê para um clube invencível: jogar bem, com coragem e emoção, e vencer, com brilho e espírito de intensa determinação. Na quarta-feira, entre suspiros e anseios fantásticos de sua torcida, a melhor e mais bonita do mundo, o Fluminense provou de vez por que é chamado de "Time de Guerreiros!"

Vira e mexe, digo a todos que devo minha vida ao Fluminense. Paixão tardia (não a herdei de ninguém em casa nem vim ao mundo como um stigmata), o tricolor do Rio (o único autêntico tricolor!) chegou a minha vida em momentos em que a graça e a vontade viver já não mais me preenchiam. Desde meu inesquecível time de futebol de botão, feito à mão com capinhas de relógio, goleiro de caixinha de fósforo e decalques do escudo do Flu, passando pelo meu intrigante amor pela Cidade Maravilhosa, suas praias, gente e sombras encantadoras (eu, um paulistano nascido e criado, um ser vivente no interior do Paraná!), até chegar à constatação de que a camisa tricolor me devolveu a alegria de viver quando nada me permitia sequer sorrir, o Fluminense e eu temos nos completado: hoje sei que ser tricolor é das magníficas coisas da minha vida; que ser tricolor está acima de outros "seres" meus - ao lado apenas do ser pai, ser sociólogo, ser um guerreiro em busca de liberdade e amor.

Na partida da última quarta-feira, o Fluminense me salvou DE NOVO, presenteando-me com os mapas para a festa da minha vida. Ainda de olhos marejando, decidi escrever o esboço destas linhas, no calor de uma vitória já eternizada no livro divino do futebol, por sentir e saber fervorosamente que o amor ao tricolor não se pode comparar o amor que se possa ter por outros clubes: amor com aura, alma, fé, milagre e explosão por viver só o Fluzão proporciona. Nelson Rodrigues, poeta e cronista do cotidiano das Laranjeiras e dos feitos mágicos do escrete tricolor, já havia confirmado o que hoje é verdade visceral: "Pode-se identificar um tricolor entre milhares, entre milhões. Ele se distingue dos demias por uma irradiação específica e deslumbradora."

É provável que todas essas minhas palavras sejam consideradas excessivamente apaixonadas, devedoras à razão e ao equilíbrio. Contra críticas ao meu senso de proporção, tendenciosamente branco, verde e grená, sempre me faço as mesmas questões. Há senso que possa envolver e conter uma paixão incontrolável? Há razão que sobressaia a um amor que salva uma vida e a alimenta diariamente? Com as respostas em mente, sigo amando, tricolormente!

Numa quarta-feira de fim de bimestre, após dias e mais dias elaborando, aplicando, corrigindo e discutindo provas e trabalhos na universidade, a noite exalava cansaço e inspirava as semanas que ainda estão por vir. Confiante nos bons dias que me aguardam - e eu também os aguardo, ansiosamente -, pus-me diante da TV pedindo ao Flu que se mantivesse de pé até o fim, tocasse a bola, honrasse o manto tricolor e fizesse a bandeira do clube, soberana nas Laranjeiras (e em minha mesa de trabalho!), tremular feliz, orgulhosa, deificada. Fiéis aos predicados que fazem do clube o que ele é, mágico e para todo o sempre, os jogadores de campeão brasileiro dominaram tudo dentro das quatro linhas, inclusive a pressão e o nervosismo, péssimos acompanhantes em momentos delicados. Ao final do jogo, apesar de os heróis do Flu não poderem comemorar por conta da brutalidade de alguns policiais, jogadores e membros da comissão técnica da equipe argentina, eu me ajoelhei no centro da sala, levei a mão direita ao lado esquerdo do peito, memorizei a Marcha Tricolor (o mais belo hino de um time de futebol, obra-prima do genial Lamartine Babo) e disse, a mim mesmo e ao mundo todo: "Fluzão, verás que um filho teu não foge à luta!"

Já de pé, emocionado até não poder mais, julguei que havia rendido minha homenagem aos atletas e à nação tricolor em todo o planeta. Mais ainda: com sensação inequívoca de pertencer ao Time de Guerreiros, imaginei-me ao lado de Nelson Rodrigues, repetindo-lhe uma de suas frases mais cativantes e verdadeiras: "Ser tricolor não é uma questão de gosto ou opção, mas um acontecimento de fundo metafísico, um arranjo cósmico ao qual não se pode - nem se deseja - fugir." Afinal, Nelson... "Grandes são os outros; o Fluminense é ENORME!"