25 maio 2011

A língua é de todos nós

"Favela com o Cristo Redentor" (Acrílica sobre tela), de Vanessa Lima

Na última terça-feira, 24/05, resolvi fazer minha coluna no CBN Cidadania sobre o debate em torno da polêmica despropositada que tem agredido a atitude do Ministério da Educação de aprofundar enfim o debate sobre os usos plurais da língua portuguesa. Entre farpas e desatinos, o livro de Heloísa Ramos vem sofrendo obnubilados ataques (adorei a adjetivação de Maurício Dias, na Carta Capital desta semana, dirigida aos rancorosos críticos da temática), a ponto de ser açoitado como manual de ignorâncias e impropérios linguísticos. Bom, abaixo meu comentário agora redigido - creio na língua escrita como documento da eternidade!

O tiroteio contra Heloísa Ramos e seu livro, "Por uma vida melhor", distribuído em seiscentos mil exemplares pelo Ministério da Educação em escolas públicas de todo o país, é mais um triste sinal de como esperneiam nossas carcomidas elites em tempos democráricos.

A língua é um patrimônio vivo, que muda e altera regras, interpretando e compondo cenários históricos e paisagens socioculturais. Nesse sentido, os tantos brasis que por aqui existem, como já ensinou Darcy Ribeiro, vivem contribuindo para novas falas e, no tempo das ciências, dando sinais para novas formalidades e registros linguísticos. Para nossas elites, contudo, não é concebível que rappers e caboclos, negros e caipiras, índios das tribos da mata e da urbe possam ser sujeitos do português que se pratica no Brasil, seja escrito, seja dito.

Heloísa Ramos sabe disso tudo e deixa claro em apresentação a sua obra que a língua é um espaço de luta política e disputa pelo poder. Como questão de classe, a língua pode vir a ser - e eu penso que sempre tem sido! - um instrumento para criar, difundir e consagrar preconceitos, formas renovadas de exclusão e ódio à diversidade. Heloísa Ramos, contudo, faz o certo: trabalha as variantes todas de nossa língua, da rua humilde ao palácio iluminado, e aponta onde cada qual tem seu devido e desejado lugar. O resto é pura bobagem, reverberação esvaziada de sentido e pertinência.

Não se quer acabar com a norma culta/padrão. (Acredito que Drummond não teria desejado isso ao escrever que tinha uma pedra no meio do caminho, em vez de afirmar que havia a tal pedra. Penso também que o genial Adoniram Barbosa não tenha intuído o fim da linguagem clássica ao cantar "fumo" a uma casa e não "encontremo" ninguém.) Quer-se, pelo contrário, reavivá-la no confronto diário com a língua do povo, submetendo-a a História.

É lamentável perceber como ilustrados e descoloridos debatem ranços, medos, ojerizas e covardias valendo-se de um patrimônio que é indígena, que é negro, que é das ruas do mundo, uma vez que tanto os brasileiros da periferia das nossas cidades, das picadas das nossas matas e dos horizontes do  nosso sertão quanto os estrangeiros de todo o planeta vivificam diariamente a língua portuguesa pelos usos que dela fazem.

Transformar a língua em estátua que evidencie a face dos vilões que viraram heróis ao massacrar inocentes barbaramente silenciados é missão de nossas envelhecidas e descompassadas elites. Quem é mesmo o ignorante nesse ataque a nossa sempre inculta e bela língua portuguesa?!

11 maio 2011

Ingênua, solitária e embriagada lucidez


"The Icarus Light", arquitetura em flores do designer Tord Boontje

Às vezes demora, mas chega um dia em que a velha e já tão desabonada razão esclarecida dá as caras. Privado de luz pelos instintos e pelas expectativas de um futuro que nunca chega, agi de modo egoísta, mesquinho em muitos momentos. A certeza de haver por perto uma alma gêmea, sexualmente arrebatadora, cegou-me, a ponto de permitir que uma mulher fabulosa - uma das mais incríveis que tive o privilégio de conhecer - sofresse, fosse privada de sua própria existência. Por achá-la disponível, eu a maltratei sem querer, sem saber, imatura e prolongadamente.

Num cair da tarde próximo ao final de semana, em meio a caixas fechadas e toda a minha vida esparramada pelo chão - tendo sob os olhos a malsucedida tentativa de ler sobre o anarquismo - admiti que era preciso dar vez à lucidez, a minha sempre ingênua, solitária e embriagada lucidez. (Lembrei-me naquele instante de uma belíssima introdução que o genial e saudoso Hélio Pellegrino dedicou a uma edição de "A Metamorfose", de Kafka, na qual ele afirma que a transformação de Gregor Samsa em um inseto gigante nada mais era do que a metáfora ideal do mundo capitalista, um mundo sem amor.)

Combatente desde cedo deste mundo sem amor, que produz "inseticídios" cotidianos contra o humano, desgastado e atropelado por duras circunstâncias, esqueci-me de atentar aos indivíduos que necessitam do amor, desejam-no transgressoramente para afirmarem sua esperança, sua crença em que o impossível é apenas uma péssima e desastrada interpretação da vida. Confortável por imaginar um belo corpo, dócil e útil (Foucault me apareceu ajuizando negativamente meus atos), à minha eterna espera, afastei-me de meus princípios humanistas de fidelidade e coerência. Errei, persisti no erro, quase contagiado pela covardia daqueles que se acomodam e se reproduzem diante da dor dos outros. (Agora o trabalho magistral de Susan Sontag sobre a "arte" em fotografias de guerra se convertendo em espetáculo midiático de desumanização me congela completamente o pensamento...)

Nesse percurso meio ególotra, meio triste por natureza - sempre inconsciente, entretanto -, despenquei em momentos intermitentes sobre minhas angústias, a sombra de fantasmas que, de tão antigos em mim, assumiram a forma assustadora de meus demônios. Como nunca antes na vida, atestei que, de todos os males que posso provocar, os piores sempre seriam cometidos contra mim mesmo. E apenas quando me vi amargurado por não conseguir enfrentar meus anjos negros é que notei ser patrono da infelicidade de quem só fez e só soube me amar, eloquente, genuína e frondosamente.

Na bela tarde de chuva e calor em que me dei conta de ter me convertido no mesmo inseto que havia aterrorizado o protagonista de "A Metamorfose" e, por extensão, o conjunto de suas relações sociais, veio-me à memória o intranquilo romance de Marcos Fábio Katudjian, "Snuff Movie", que eu lera numa tarde muito chuvosa no perdido ano de 2003. Cheguei a publicar aqui no blog uma resenha do livro e a entrar em contato com o seu autor, tamanhos os desdobramentos da leitura em minha alma. É provável que o livro me tenha chegado à lembrança por causa do subtítulo: depois do fim do mundo. Eu sempre dizia a essa mulher:  te amo até bem depois do fim do mundo. No livro de Katudjian, o amor não existia bem antes dos eventos ue sugeriram o fim dos tempos. Como sobreviventes, alimentávamos a ilusão de que nem após o final de tudo teríamos fim em nossos desejos. E, ao insistir nisso, fiz a linda mulher cansar, cansar, cansar, por tanto ouvir e quase nada sentir desse "amor sobrevivente" dos tempos para além da História.

Quando atinei com a imbecilidade e a estupidez do meu involuntário comportamento irracional, animal, pedi desculpas e desapareci. Entreguei a ela toda a razão do mundo e afirmei que equívocos seriam julgados pelo tempo histórico, pelas paredes sempre tão rígidas da memória. Retraí-me, acusei a mim mesmo de injusto e, decididamente, egoísta. Não pude encarar-lhe os olhos - e tampouco tive essa oportunidade: é certo que teria me atirado sobre ela movido a beijos e hormônios... Teria mais um rompante de delírio instintivo, para, depois, isolar-me em meu comodismo, no conforto açucarado de uma covardia despretensiosa. Condenei-me virtualmente, atormentado por soluços e choro destruidores - em seguida, sublinhando o pós-humano em mim, entrei em sala de aula para uma longa noite de dor, descoberta de vazios que nunca mais serão preenchidos. Inaugurei a vacuidade permanente de meu espírito.

Fiz-me, enfim, homem, humano, sujeito decente. Minha autoatribuição de culpa e total responsabilidade por inoperância e acuamento diante da força do fato amoroso não me isenta de pena, mas abranda o castigo diário que minha consciência, tão tardia e deletéria, me impunha instante a instante, mensagem a mensagem.

A linda mulher será feliz - ela me fez o homem mais feliz do mundo em tantos inesquecíveis momentos. Ela irá voar, como Ícaro, livre, deslumbrada, mas, ao contrário do destino do mito grego, pousará alegre em lugar tranquilo. A felicidade dela será minha verdadeira e definitiva redenção, a dialética do meu amanhã - e ainda mais do meu aqui e agora.