11 maio 2011

Ingênua, solitária e embriagada lucidez


"The Icarus Light", arquitetura em flores do designer Tord Boontje

Às vezes demora, mas chega um dia em que a velha e já tão desabonada razão esclarecida dá as caras. Privado de luz pelos instintos e pelas expectativas de um futuro que nunca chega, agi de modo egoísta, mesquinho em muitos momentos. A certeza de haver por perto uma alma gêmea, sexualmente arrebatadora, cegou-me, a ponto de permitir que uma mulher fabulosa - uma das mais incríveis que tive o privilégio de conhecer - sofresse, fosse privada de sua própria existência. Por achá-la disponível, eu a maltratei sem querer, sem saber, imatura e prolongadamente.

Num cair da tarde próximo ao final de semana, em meio a caixas fechadas e toda a minha vida esparramada pelo chão - tendo sob os olhos a malsucedida tentativa de ler sobre o anarquismo - admiti que era preciso dar vez à lucidez, a minha sempre ingênua, solitária e embriagada lucidez. (Lembrei-me naquele instante de uma belíssima introdução que o genial e saudoso Hélio Pellegrino dedicou a uma edição de "A Metamorfose", de Kafka, na qual ele afirma que a transformação de Gregor Samsa em um inseto gigante nada mais era do que a metáfora ideal do mundo capitalista, um mundo sem amor.)

Combatente desde cedo deste mundo sem amor, que produz "inseticídios" cotidianos contra o humano, desgastado e atropelado por duras circunstâncias, esqueci-me de atentar aos indivíduos que necessitam do amor, desejam-no transgressoramente para afirmarem sua esperança, sua crença em que o impossível é apenas uma péssima e desastrada interpretação da vida. Confortável por imaginar um belo corpo, dócil e útil (Foucault me apareceu ajuizando negativamente meus atos), à minha eterna espera, afastei-me de meus princípios humanistas de fidelidade e coerência. Errei, persisti no erro, quase contagiado pela covardia daqueles que se acomodam e se reproduzem diante da dor dos outros. (Agora o trabalho magistral de Susan Sontag sobre a "arte" em fotografias de guerra se convertendo em espetáculo midiático de desumanização me congela completamente o pensamento...)

Nesse percurso meio ególotra, meio triste por natureza - sempre inconsciente, entretanto -, despenquei em momentos intermitentes sobre minhas angústias, a sombra de fantasmas que, de tão antigos em mim, assumiram a forma assustadora de meus demônios. Como nunca antes na vida, atestei que, de todos os males que posso provocar, os piores sempre seriam cometidos contra mim mesmo. E apenas quando me vi amargurado por não conseguir enfrentar meus anjos negros é que notei ser patrono da infelicidade de quem só fez e só soube me amar, eloquente, genuína e frondosamente.

Na bela tarde de chuva e calor em que me dei conta de ter me convertido no mesmo inseto que havia aterrorizado o protagonista de "A Metamorfose" e, por extensão, o conjunto de suas relações sociais, veio-me à memória o intranquilo romance de Marcos Fábio Katudjian, "Snuff Movie", que eu lera numa tarde muito chuvosa no perdido ano de 2003. Cheguei a publicar aqui no blog uma resenha do livro e a entrar em contato com o seu autor, tamanhos os desdobramentos da leitura em minha alma. É provável que o livro me tenha chegado à lembrança por causa do subtítulo: depois do fim do mundo. Eu sempre dizia a essa mulher:  te amo até bem depois do fim do mundo. No livro de Katudjian, o amor não existia bem antes dos eventos ue sugeriram o fim dos tempos. Como sobreviventes, alimentávamos a ilusão de que nem após o final de tudo teríamos fim em nossos desejos. E, ao insistir nisso, fiz a linda mulher cansar, cansar, cansar, por tanto ouvir e quase nada sentir desse "amor sobrevivente" dos tempos para além da História.

Quando atinei com a imbecilidade e a estupidez do meu involuntário comportamento irracional, animal, pedi desculpas e desapareci. Entreguei a ela toda a razão do mundo e afirmei que equívocos seriam julgados pelo tempo histórico, pelas paredes sempre tão rígidas da memória. Retraí-me, acusei a mim mesmo de injusto e, decididamente, egoísta. Não pude encarar-lhe os olhos - e tampouco tive essa oportunidade: é certo que teria me atirado sobre ela movido a beijos e hormônios... Teria mais um rompante de delírio instintivo, para, depois, isolar-me em meu comodismo, no conforto açucarado de uma covardia despretensiosa. Condenei-me virtualmente, atormentado por soluços e choro destruidores - em seguida, sublinhando o pós-humano em mim, entrei em sala de aula para uma longa noite de dor, descoberta de vazios que nunca mais serão preenchidos. Inaugurei a vacuidade permanente de meu espírito.

Fiz-me, enfim, homem, humano, sujeito decente. Minha autoatribuição de culpa e total responsabilidade por inoperância e acuamento diante da força do fato amoroso não me isenta de pena, mas abranda o castigo diário que minha consciência, tão tardia e deletéria, me impunha instante a instante, mensagem a mensagem.

A linda mulher será feliz - ela me fez o homem mais feliz do mundo em tantos inesquecíveis momentos. Ela irá voar, como Ícaro, livre, deslumbrada, mas, ao contrário do destino do mito grego, pousará alegre em lugar tranquilo. A felicidade dela será minha verdadeira e definitiva redenção, a dialética do meu amanhã - e ainda mais do meu aqui e agora.