08 junho 2011

Gramscianas I: la dolce vita


Anita Ekberg, em fotograma do belíssimo e obrigatório "La Dolce Vita", filme de Federico Fellini, produzido em 1959.

Eu realmente não consigo. Não posso me conter. A acusação de covarde, contudo, não me cai bem. Eu tenho tentado. Não obstante as boas ideias e os sonhos ricos, eu tenho perdido tudo entre um calafrio e outro, entre o desejo que não se insurge e a necessidade de estancá-lo. 

A felicidade (um estado imaginário?) promete mundos e fundos, exige foco, disciplina, mais espiritualidade. O corpo, num movimento que conduz o pensamento ao gozo paralisante da inércia, reclama o tempo, a dor, o repertório acumulado. O corpo não aceita partilhas: quer tudo ao mesmo tempo e sempre. É um bicho quase incontrolável. Força-me por curvas, trilhas sonoras, uma busca sei lá muito bem pelo quê... Sinto - e as sensações trespassam o órgão designado à razão (um pobre ingênuo batalhador) - que a vida me escapa, me provoca, acena de longe com um sorriso irônico. Escancara, la dolce vita, a crueza de suas prerrogativas. Ela só quer me namorar, incestuosamente, parte de mim, e rejeita toda forma de poder ser mais, por mais, quanto mais.

Ao tentar ser útil, vejo-me na inutilidade pragmática de um ser que só pode ser útil se for capaz de matar suas fantasias. De que vale a vida se a obrigação de apagar o delírio pelo cheiro e a ânsia pelo toque fizer-se inapelável, inadiável, puro encurralamento? Tenho feito tantas perguntas, amado tanta gente, partejado ideias que se esfarelam, desmancham pela ar... No turbilhão do novo tempo, tão meu, arrependido de não levar a sério a aventura de Berman (pelo menos não tão a sério quanto deveria), receio, angústia, total inabilidade, esses desesperados sintomas de uma vida em estrada errada, me tomam, transformam, afobam. Só sei que o centro, espaço de equilíbrio entre extremos que se ameaçam, desafiam, agridem, subjugam quando podem, é um ponto invisível, inaudível, desprezível. Ouço velhas canções crente por completo de que o amanhecer clama por vir. Já existe, há horizonte e luz, mas não ganha o mundo (ou seria o mundo a ser presenteado por sua chegada?), meu pobre mundo, congelado, refém de uma ousadia poética que me emprestou os tempos jovens e tornou imprestáveis os tempos de uma maturidade paradoxalmente pueril. Choro também por ter ensinado tão bem os labirintos espelhados de Baudrillard e, obsessivamente, buscar suas improbabilidades. Como me perder para, triunfante, reencontrar meus sonhos? Vejo, aturdido, que as estatísticas do assombroso mundo de meu Deus me pegaram, acumpliciaram-se de meu transtorno pelo prazer - maldito, de fúria incontrolável, que me impede de ser eu, comigo, por mim.

A bela das manhãs foi-se embora para sempre. Respondeu, curta e grossa, que sentiu nojo da minha poesia; que viu, nas canções que ilustravam minha imaginação amorosa, cenas repugnantes, paisagens obscuras e doentias. Desfez homenagens, esqueceu-se do herói; preferiu viver do ontem que será um amanhã insosso. Ao menos no meu tempo-ontem, que está num passado que o alcance da memória já se revela quase incapaz de penetrar, as recordações tem brilho, balanços coloridos, energia - uma energia que fará da fraqueza da memória coragem para prosseguir. Com a morena antes perfeita, que detestou Thundersteel (e por isso mesmo já não é em mais nada perfeita), desenho uma ultrajante expressão na areia, sem censura: foda-se! Livre, enfim.

Não posso me esquecer que dancei com uma loba durante muitos dias. Era uma loba tricolor, embora ela nunca venha a descobrir o que isso de fato significa. (Se soubesse que tinha as três cores da paixão depositadas no fundo dos olhos, teria se refugiado nas diabruras do amor, das rupturas improváveis.) No fim de todas as contas, tenho sido tão somente um sujeito moderno entre a pré-modernidade rejeitada e a pós-modernidade tão acalantada. Resisto entre o ontem que não me satisfaz e o amanhã que não me seduz. Peito guerreiro.

Incorrigível, alio-me ao pessimismo exagerado da análise de mim mesmo. De modo contíguo, insisto no otimismo da vontade, a qual prezo em nome do que virá, certamente virá. Como negar a beleza das listas grenás, verdes e brancas que vivem a enriquecer minhas horas e criações? Como não ver esperança nas palavras do pequeno sardo, que hoje é meu mundo inteiro de teorias e ações? Em meu frágil universo, potente de cor e ideias, mantenho acesas todas as chamas. O entardecer que leva à escuridão é a indispensável passagem para o amanhecer.