24 junho 2011

Gramscianas II: a velocidade


"Mercúrio", entre os gregos, deus do comércio, arquétipo da velocidade do lucro capitalista

Ernesto Sabato, nas belas reflexões centenárias de A resistência, escreveu: "Nosso tempo conta com telefones para suicidas. De fato, é possível dizer alguma coisa a um homem para o qual a vida deixou de ser o bem supremo. Eu mesmo muitas vezes atendi pessoas à beira do abismo. Mas é muito significativo que se tenha de procurar um gesto amigo por telefone ou por computador, e não se encontre nada parecido em casa, no trabalho ou na rua, como se vivêssemos confinados numa clínica-prisão que nos separa das pessoas ao nosso lado. E então, privados do contato de um abraço ou de uma mesa partilhada, restam-nos os meios de comunicação". 

Sabato refletia sobre as inconstâncias de nosso tempo, no qual amores e ódios trocam repetidamente de lugar e de função. Ama-se brevemente, torce-se por algo de modo sempre provisório. Os sonhos se concretizam e matam o real, já que são sonhos possíveis somente no mundo virtual... Numa época de valores todos mediados pelo mercado (todos especulados previamente pelas elites econômicas), parar, olhar, ponderar, agir (numa unidade dialética coerente e pertinente) tornou-se raro, senão totalmente obsoleto. Responsabilizar a velocidade talvez seja um caminho para diminuir a dor daqueles que insistem fazer tudo novo pelo lado humano do planeta. A missão já não é apenas impossível: ela se revela de uma ingenuidade cada vez mais urgente.

Muita gente pede explicações sobre o que vem a ser a propalada pós-modernidade. Afinal, o que a difere da modernidade? Em que, de uma vez por todas, poderíamos envolvê-la para defini-la por uma só palavra?

Confesso que sempre escorrego diante do desafio de definir nosso tempo. O problema não é dificuldade para debater. Ao contrário: tenho dedicado o melhor de todas as minhas energias na aventura pelos trechos da tal pós-modernidade. Aliás, prefiro, de verdade, a caracterização modernidade líquida, como bem a define Zygmunt Bauman - para ele o que emblematiza nossos dias são a incerteza e o viés movediço do conjunto das relações humanas. E é exatamente por essa pouca solidez que a pós-modernidade me escapa diariamente. É provável, então, que a palavra que melhor a traduza em termos culturais e de experiência concreta no mundo cotidiano seja velocidade.

Ainda vivemos todos nas fronteiras da modernidade como tempo histórico. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade continuam a conduzir lutas e os desejos humanos. A questão do pós-moderno reside precisamente em tornar mutantes essas categorias e seus valores associados: relativizar os conteúdos de todos os conceitos, de todas as orientações, premissas e atitudes é a essência da velocidade pós-moderna. Nunca foi tão perfeita a máxima "Tudo que é sólido se desmancha no ar", que já foi de Shakespeare, Marx e Berman, em três séculos diferentes, sempre intuindo demonstrar que tempos velozes e turbulentos predizem e antecipam a imagem que se possa ter do futuro.

Inequívoco é assentir que as novas ferramentas tecnológicas, as revoluções nas ciências, nos transportes e nas comunicações adicionaram nitroglicerina ao tempo, que ficou curto e bem ligeiro, e mergulharam o espaço em algum recipiente com líquidos encolhedores: o ontem já era para sempre, o hoje é ontem, o amanhã já chegou e se faz aqui e agora. É quase real a sensação de o mundo caber na palma da mão, num tablet, num notebook, nas nossas tolas presunções virtuais e de absoluto declínio do conhecimento robusto, humano e abrangente. O pós-moderno é como uma vinheta de poucos segundos que pretende explicar o mundo, validar todas as opiniões individuais, desqualificar as utopias coletivizantes, a crença numa liberdade universal, numa igualdade de fato, numa fraternidade incondicional. A descrença em projetos de longo prazo e a redução de quase tudo aos ditames do mercado (quem ainda resiste a tornar-se mercadoria?!) dão mostras de como, de modo rápido e avassalador, somos atropelados diariamente por novidades às vezes chocantes, mas quase sempre previsíveis, tristemente previsíveis...

Não há uma era pós-moderna, como houve entre gregos, romanos, reis e burgueses. Nosso mundo ainda é hegemonicamente composto pela burguesia e seus (des)valores. O tempo pós-moderno é uma aceleração da cultura capitalista, seu acabamento mais formidável até aqui. Todos compram, vendem, trocam, fazem isso a vida toda; creem cegamente nisso como a única verdade imune ao relativismo. Nesse quesito, a velocidade é trôpega e sem horizontes para a ruína da egolatria contemporânea.