05 julho 2011

Gramscianas III: a contradição


O modo de pensar dialético - atento à infinitude do real e à irredutibilidade do real ao saber - implica um esforço constante da consciência no sentido de ela se abrir para o reconhecimento do novo, do inédito, das contradições que irrompem no campo visual do sujeito e lhe revelam a existência de problemas que ele não estava enxergando. (Leandro Konder, em "A derrota da dialética")

Marx aprendeu com Hegel que, no plano da reflexão lógica e formal, toda contradição é uma manifestação de defeito. Hegel asseverava que, sendo limitada, a lógica formal não era capaz de abarcar todos os problemas da humanidade.

Na vida concreta, naquele inevitável encontro de sujeitos que partilham impressões e ações em face da realidade diária, a contradição é um elemento essencial, inalienável. Mais do que um limite ou uma imperfeição, a contradição é algo que se renova: não há, nunca houve, jamais haverá realidade e presença humana que, defronte uma da outra, intercaladas, não produzam e façam emergir contraditoriedades. 

Com essa percepção da vida social, Marx se opunha radicalmente às intenções metafísicas, para as quais tudo se relaciona somente pela superfície, uma vez que a essência de todas as coisas - inclusive a "coisa humana" - será sempre imutável. Dessa resolução, observou Marx, nasce a associação imediata entre o pensamento metafísico e as questões meramente quantificáveis. (Se as coisas não mudam, como tão bem apoiavam os positivistas do século XIX, não haveria por que atribuir ao humano habilidades para empreender transformações qualitativas em sua existência.)

Hegel, contudo - ainda que nos limites do idealismo e da especulação da consciência como sendo o verdadeiro "espírito do mundo" - percebia que tudo só podia existir em movimento, e que todo movimento se embebia de muitas contradições. Como tudo muda o tempo todo, todas as coisas - humanas e inumanas - estão inter-relacionadas: as partes que compõem a tensa relação entre o homem e a natureza possuem historicidade, têm início, desdobram-se no tempo, vivem a se metamorfosear, adquirindo novos papéis, funções, representações do real. A reciprocidade entre os fragmentos que totalizam o mundo, cada qual com suas particularidades e características muito distintivas, ligam as fissuras do tecido da vida. Para entender o mundo, portanto, dirá Marx mais tarde, é imprescindível "quebrá-lo", analisá-lo em suas partículas e recompô-lo. Através desse exercício de montar e desmontar realidades, apreende-se que o todo é indefinidamente maior que a soma das parcelas que o constituem, tomadas isoladamente.

Nesse sentido, uma família é mais do que cada um dos seus membros reunidos; uma instituição educacional é mais complexa e dinâmica do que as atividades integradas de seus dirigentes, professores, funcionários e aluno; uma cidade ou um país, enfim, não se reduz às suas realidades imediatas, ainda que fosse possível aglutinar o econômico, o cultural e o político numa comunidade ilusoriamente integrada e internamente coerente.

Se apenas reunidos, somados ou integrados, os instantes particulares de uma determinada experiência concreta não apresentam claramente suas contradições essenciais. No plano do contínuo movimento que aproxima e ao mesmo tempo distancia as particularidades e suas múltiplas relações entre si, as quais revelam lacunas, imponderados, rupturas etc., a contradição se autoanuncia - a evidência do conflito (ou ao menos do confronto) só se faz no mesmo espaço em que sua negação também pode se elevar. É assim que a dialética, num infinito proceder de afirmações e negações, conservação e sublimação, define toda realidade como sendo composta por elementos constituintes e não definitivos dessa própria constituição, ou seja, o belo está no feio, o certo cutuca internamente o errado, o justo possui predicados de injustiça, o perfeito resvala sempre no medíocre, face a face. A essência desses pólos contraditórios em sucessivas e inefáveis articulações impede que o todo seja tomado por suas partes, todas elas, em si, resguardadas das contradições que só se põem a nu quando em situação de movimento, integração e partilha.