06 julho 2011

Gramscianas IV: o indivíduo


"O peregrino sobre o mar de brumas" (óleo sobre tela), de Caspar David Friedrich

Acredito firmemente que a liberdade para todos depende de certa paridade nas condições sociais, econômicas e culturais asseguradas às pessoas. Se permanecem condições privilegiadas (de concentração de poder e riqueza para uns, em detrimento de pobreza e ignorância para outros), a liberdade se degrada. [...] Estou convencido, igualmente, de que a luta permanente pela democratização depende da participação ampliada, do aumento da participação dos explorados no combate à exploração e do aumento da participação dos oprimidos no combate à opressão. (Leandro Konder, em suas "Memórias de um intelectual comunista")

No melhor da já longa e clássica tradição socialista, há uma preocupação permanente em desenvolver condições reais para um equilíbrio entre as liberdades individuais e a experiência comunitária. No mesmo sentido, a luta socialista quis criar uma realidade paritária, nos níveis econômico, político, social e cultural, para TODOS, e não apenas para uns poucos e alguns outros, sazonalmente. Foi Marx quem definiu a sociedade futura - aquela de pescadores, poetas e amantes sintetizados na figura concreta do homem sem adjetivações - como a livre associação de indivíduos livres.

Dos utópicos do século XVIII ao pensamento crítico e dialético dos marxistas do século XX, o alvo socialista não mudou: no fundo, o desejo era transformar o mundo para que ele pudesse ofertar circunstâncias mais favoráveis ao surgimento de um novo tipo de indivíduo, resultado da delicada simetria entre a metade parcial e a metade social, dupla sempre dinâmica que fundamenta o humano.

Os utópicos, como Fourier e Owen, os "científicos", Marx e Engels, em espeical, e os dialéticos, Benjamin e Gramsci, notadamente, todos indicavam no mercado capitalista um sem número de contradições e estratégias para dominar a consciência, escravizar o corpo e controlar o destino dos trabalhadores. Ao mesmo tempo que era obrigado a vender sua força de trabalho a quem quisesse e precisasse comprá-la, o indivíduo se via atormentado pela inquestionável urgência de conter os ímpetos mercantis exclusivamente voltados para o lucro capitalista (costumeiramente calculado por escalas geométricas). À proporção que crescem as forças de mercado, comprando e vendendo tudo que veem pela frente, a porção comunitária dos indivíduos se esvazia e se perde, o que acaba por identificá-los tão somente por sua nada generosa fatia parcial: a competição por salários, status, reconhecimento coloca todos contra todos. Na guerra mercadológica por mais dinheiro, conforto e prestígio, a subjetividade abdica da solidariedade de classe, apaga do horizonte a luta por emancipação humana e restringe a existência a tentar ser "melhor", mais apta, admirada etc. É daí que surgem por exemplo, as noções desconfortáveis de "vagabundo", "subversivo", "imprestável" e toda a escala burguesa de mensuração e classificação daqueles que não se ajustam à lógica capitalista de mercado. Ou se é do bem, ou se é do mal; ou se está ajustado, ou se é pura e simplesmente um "desajustado".

Se as relações generalizadas baseadas no valor de troca permitiram o aquecimento da vida econômica e o aumento da atividade produtiva do trabalho humano, contra o qual as máquinas de indisporiam mais e mais no correr do tempo, o mundo do livre mercado mediado pelas instâncias de interesse do capital não cessou de distribuir distorções, injustiças e desigualdades no interior da vida social. Com a medição monetária e quantitativa de tudo e a batalha imoral entre todos, os valores qualitativos perderam autossignificação.  Os princípios éticos - honestidade, hombridade, coerência entre o dito e o feito - passaram a ser atributos raros e divisórios, em vez de se generalizarem como itens da própria condição humana, elixir do viver junto.

Despedaçada, a comunidade humana não tem como definir os valores que irão orientar as práticas individuais. Preceitos morais e condutas éticas dependem do encontro intersubjetivo, do interesse comum em criar os porquês do convívio, normas e balizas. Isolados e temperados na crença da autossuficiência (falsa dos pés à cabeça), os indivíduos, no capitalismo, se desencontram de si mesmos, na medida em que vivem pela metade, dissociados de sua porção socializante.

A filósofa Agnes Heller foi oportuna ao definir o homem como um ser cindido: toda vez que o pêndulo de sua humanidade recai para um dos lados, causando desequilíbrio, há o desdobrar de muitas inumanidades. Se mais indivíduo do que ser social, o sujeito pode vir a ser um poço de egoísmo, possessão e passionalidade, capaz de articular o que lhe houver de racional apenas na obtenção de vantagens intransferíveis. Se mais ser social do que indivíduo, a carência o torna suscetível à absorção por ondas de fanatismo e extremada intolerância, o que desintegraria de uma vez suas chances de autonomia, discernimento e espontaneidade. As liberdades individuais, conquista dos séculos atravessados pelas lutas populares, requerem o fortalecimento da dinâmica social para que no interior das experiências comunitárias possam ser delimitados os pilares de sua defesa e de sua ampliação. Nesses termos, descobrir alternativas para um cruzamento profícuo e abrangente entre as liberdades individuais e o necessário exercício conjunto dos elementos constitutivos do mundo da vida, referendando a união das metades do humano, permanece tarefa socialista.

Reinventar instituições e mediações; recriar formas de comunicação e promulgação das conquistas técnicas e científicas; repactuar arte e cultura, ofertando-lhes novos papéis e significados; tudo isso corrobora o enigma de Che: como, afinal, construir o "homem novo"? É o que temos de descobrir - e fazer!