05 julho 2011

Por um único segundo


"O abraço do mar III", uma arte de Ricardo Paula

De soslaio, completamente envergonhado sei lá por quê, eu a vi passar por um único segundo.Seria bem honesto que eu dissesse: mal a vi. Assim mesmo, com apenas um instante da sua presença a metros de mim, voltei a não esquecê-la sob hipótese alguma.

A mulher mais bonita do mundo estava ali novamente, ao alcance reprimido do olhar, a mil léguas submarinas do meu verdadeiro desejo de surpreendê-la por abraços, beijos, todas as poesias que pudesse lhe dedicar. Não sei - alguém sabe? - o que é o amor. Sinto, no entanto, que, se o amor é magnânimo, tenho-o em mim, tamanha a grandeza da imagem dela nos rabiscos do meu pensamento. 

Toda vez que me disponho a esquecê-la, o movimento de minhas ideias me conduz de fato pela contramão: seus olhos escuros e profundos, suas curvas perfeitas, o indefectível rabo-de-cavalo, o sorriso anestesiante, o perfume que só sei imaginar bem perto, o calor que chego a me permitir quando cerro os olhos e me entrego a sonhar... toda ela me atropela desprevenido, absorto em instantâneos de uma pura paixão que nunca existirá, nem por um único segundo...

Quando quis homenageá-la, tornando-a musa das letras mais inspiradas que já grafitei nas paredes do delírio, ela optou por me esquecer para sempre. Despediu-se por meio de uma pergunta que me vi obrigado a fazer, dado o colossal desespero de perdê-la antes mesmo de a possuir. O verbo possuir, aliás, quando se associa a ela em meus devaneios, brinca com meu equilíbrio emocional, me arrefece, tortura para liquidar de vez o que eu julgava melhor em mim: essa grandeza que pode ser o tal amor, talvez seja o humano em busca e si mesmo, certamente sou eu subvertendo a condenação ao exílio d'alma.

Por um único segundo - o último, não sei -, a mulher mais bonita do mundo bateu à porta da imaginação. Por toda uma vida, se apenas isso me contemplar, serei um pouco daquele instante, sempre hesitante, gigante.