19 julho 2011

A última lembrança


Grace Kelly, a musa da beleza eterna, a mulher mais bonita do mundo

Nunca me perguntei se havia necessidade de apresentar razões para amá-la. Na verdade, embora seja puro lugar-comum, está enraizado em mim que paixões e amores abrem mão de formalidades, explicações, registro em ata, testemunhas oficiais. Quando proibido (e lá longe se vão milhares de circunstâncias que podem ou devem ser consideradas proibidas), o tal amor, sublime ato descontínuo - a nada pode ligar-se, de ponto algum deve advir -, converte-se em vontade, ansiosa força humana. Amantes acometidos pelo proibido quebram tabus, rompem fronteiras. O antiquado mundo do pecado transforma-se em algo a ser desmoralizado, completamente destruído.

Refletindo sobre a forte pulsação que a lembrança dela dispara em mim, sobre todos os pecados que junto dela desejei cometer e, principalmente, acerca da grandiosa aventura que mais do que tudo ansiei realizar com ela, fui invadido pela necessidade de pensar o amor, problematizá-lo, torná-lo protagonista de uma história entre mim e aquela mulher, a que considero a mais bonita do mundo.

Lembro que disse a ela uma ou duas vezes que a considerava a mais bela mulher do mundo. Não éramos nada mais que amigos, presos a uma relação que se institucionalizara, perdera-se em posturas desejáveis e cínicos decoros. Não obstante, trocava o beijinho no rosto e emendava: 'A mais linda mulher!' Era evidente a delícia do ouvir; ela se sentia contemplada, agraciada por meus elogios, todo meu derretimento. Penso, contudo, que não via nada de mais em minhas palavras: não supunha, jamais supôs, que havia por trás de cada letra, da simples entonação, um homem incendiado por paixão, desejo, incontrolável (em verdade, continuo controlando...) desespero de amar. Eu era, da cabeça aos pés, segundas, terceiras, múltiplas intenções.

Tudo nela existia para me provocar: os olhos escuros, levemente aprofundados; as pernas perfeitas, costuradas na perfeição de cada sinuosa passagem, incomparáveis mais ainda por promoverem um rebolado único, chamariz, fonte de tudo que quis, mais quis, sempre, calado, quererei. O corpo dela, a cada centímetro, fazia jorrar em mim a latinidade da dança, da cópula. Sem jamais ter sentido, eu podia saber que o perfume natural do corpo dela era o complemento sem igual de todas as minhas sensações. Ora, meu Deus, nada ocorria para mim, se, nas manhãs em que pudesse vê-la, ela se ausentasse. Qual fortuna poderia haver em palavras de amor que, elaboradas para uma mulher, não encontrasse seu destino para induzir os olhos a uma declaração venturosa? Por meses aguardei um sinal, embrenhei-me na tortuosa espera de ouvir, capturar uma deixa, uma esperança. Tudo que queria era tocá-la, encontrar seus lábios, conhecer, enfim, o cheiro, a batida do coração, a ebulição dos hormônios, o modo como o desejo nasce, cresce e explode em sue corpo. Ah, eu queria amar, pura e simplesmente, aquela mulher.

Hoje, completamente apartado do convívio dela, debruço-me sobre as imagens e sensações que a memória arquivou: a pela morena, o alegre e doce sorriso das manhãs, o caminhar que roubava o caminho que tomava meu olhar, a voz rouca que me confundia as têmporas, os tornozelos e pés, um fetiche que não pude experienciar... Dela ainda brotam momentos muito meus, nos quais canções e breves instantes de repouso se reúnem para, em meio ao silêncio da chuva, resgatá-la no tempo, esboçar algo que não houve, embora tenha sido o mais querido de todos os mundos, real na sua estrondosa irrealidade.

Para ser sincero, em algum momento, não sei bem qual, imaginei que teríamos a chance de amar um ao outro. Minha estranha e telúrica ingenuidade das ideias bem que tentou me convencer de que a mulher mais bonita do mundo seria minha, intensamente minha, ao menos uma vez na vida. Nos estados de maior euforia, vi-me grudado a ela existência afora, feliz, completo, legítimo conhecedor do amor e de suas poéticas e tão anunciadas promessas de eternidade. Hoje, no entanto, sentencio-me a esta última lembrança.