24 agosto 2011

Nada como um clássico



Impossível não reconhecer em Durkheim todos os seus esforços para tornar a Sociologia uma ciência com jeito próprio, estilo definido, razão esclarecedora. Mais do que isso: surpreendo-me sempre com as contribuições que sua verve eminentemente conservadora empresta a minha visão progressista do mundo. Como diz o título deste texto, nada como um clássico. Eles nos salvam do desespero e do desconforto por tão pouco saber desta vida.

O francês Émile Durkheim (1858 -1917), um dos precursores da reflexão sociológica no século XIX, sempre me intrigou. Apesar de sua clara filiação metodológica ao positivismo – doutrina segundo a qual a sociedade seria regida por leis naturais, indeléveis - e seu franco testemunho em favor de um conservadorismo moral e atitudinal, o autor de “As regras do método sociológico” cede pistas a uma interpretação mais refinada e enriquecedora da realidade.

Durkheim é essencialmente positivista em muitos aspectos: crê em forte naturalização das relações humanas (com funções particulares a ser desempenhadas num organismo vivo de partilha do bem comum), credita aos fatos sociais, ingredientes da vida coletiva, um status socializante, exterior e, principalmente, repressor (ou se cumpre, ou se paga por descumprir) e insiste numa absoluta prevalência da consciência coletiva, um tipo de “cérebro do mundo”, sobre todas as existências individuais. Nesses termos, fatos cumpridos e bem seguidos, geração após geração, seriam a matéria-prima da consciência coletiva, que, por sua vez, seria endossada pelas vivências familiares, religiosas, produtivas, educacionais, governamentais e comunicacionais. Numa palavra, e num esboço ultradidático, eu poderia dizer que para o autor da cidade de Epinal, na relação entre o todo e as partes, a sociedade seria nota dez e o indivíduo, isolado, nota zero.

É precisamente no refletir sobre a elaboração da consciência coletiva que Durkheim se afasta do positivismo, da tentativa histórica de engessar o real, e rompe com o viés marcadamente conservador de sua interpretação da modernidade. Preocupado em estabelecer parâmetros para uma coesão social, um harmônico estado social de partilha e colaboração entre todos, em nome do todo, o autor de “As formas elementares da vida religiosa” assevera seu otimismo, aposta no equilíbrio entre as partes (daí seus detidos estudos sobre a divisão do trabalho social, mola propulsora do capitalismo industrial) e entende que é pela educação – e não pela repressão, pelo encaminhamento à boa conduta com base no medo da punição – que se constrói uma consciência coletiva que persuada o indivíduo, convença-o de sua abrangência e importância. Da mais tenra idade à vida adulta, o ambiente educativo deveria fornecer os códigos da experiência conjunta, a matriz de todos os valores, o mapa dos prejuízos possíveis numa sociedade sem coesão, sem propósito e destino comuns. A deseducação, o “salve-se-quem-puder”, seria para Durkheim o ponto de partida para a anomia social, um processo degenerativo que conduziria o tecido social ao caos, à inevitabilidade do projeto modernidade. Bloquear o caos é tarefa, portanto, de portentosos investimentos nas consciências individuais, as quais, "fabricadas" em uníssono, criariam o espírito ideal de um novo tempo.

Há em Durkheim, contudo, um ponto ainda mais progressista em relação ao típico e conservador pensamento funcionalista e organicista. Por investir esforços no poder gerador da educação, o autor de “O suicídio” – um fato social que revela em maior ou menor grau o descolamento entre as aspirações do coletivo e as percepções individuais – acaba por permitir uma reflexão em busca da ideia de totalidade, tão cara à investigação dialética da História. Para que uma criança possa de fato aproveitar a vida escolar, dela participar e nela aprender acerca dos componentes da consciência coletiva, é indispensável atribuir à família papel preponderante. Em sendo assim, para que a educação logre êxito como conjunto quase infinito de fatos sociais, é preciso que haja investimentos em emprego e renda para as famílias, segurança, moradia, espaços de lazer e atividades em dias de descanso, confraternização. Mais: eleger a educação como base de sustentação da crença numa possível e bem-sucedida sociabilidade é dedicar, de modo bastante direto e estreitamente vinculado, atenção ao trabalho, à cultura e às diversas funções sociais de governos e instituições públicas e privadas. Nesse sentido, a solidariedade orgânica, complexa e integrada, deve instar reunir, como frisado, a atuação de cada parte em convergência às necessidades e expectativas do todo, do real em si. 

Um derradeiro ato durkheimiano torna o sociólogo francês um autor contemporâneo e indispensável para pensar nosso tumultuado universo (pós)moderno. Trata-se do destacamento da responsabilidade social sobre a formação e a atuação dos indivíduos. Se foi negado a um jovem de treze ou catorze anos um núcleo familiar estruturado, uma escola decente, uma sociedade realmente solidária, é possível criminalizá-lo por uma atitude corrosiva, agressiva, violenta? Para Durkheim, não. Antes, faz-se necessário imputar culpa à sociedade, sua debilidade em definir caminhos, criar métodos de convencimento e persuasão, investir maciçamente na elevação da vida individual sintonizada com os desejos e necessidades da consciência coletiva. O preço a pagar é do todo, muito mais de todos, muito menos de cada um.  Deve-se cobrar, segundo Durkheim, de quem recebeu da sociedade as regras e os meios, os frutos e as fórmulas. Do contrário, a mea culpa é social.

Driblar as chances da inviabilidade de um forte grau de coesão social é tarefa dos esforços que atuam conjuntamente na trama da partilha social, dialeticamente, se assim posso dizer ao me referir a Émile Durkheim, um clássico entre os bons clássicos.

18 agosto 2011

Meu beijo da madrugada II



A única coisa que restou da última madrugada foi um canto de arrepios que, de hora em hora, religiosamente, entoa uma melodia cheia de saudade. Deus, como é possível sentir tanto a falta do que nunca houve? Aquele beijo que acalma, aquele abraço que protege, aquele olhar que inspira, aquele calor que fortalece... Toda madrugada é a mesma coisa: uma única mulher, única também na capacidade de reunir tudo de que preciso, invade o percurso sinuoso de meus sonhos e, feito uma vampira, suga todas as minhas fantasias, apropria-se do meu querer, de todas as coisas que guardo no peito, em silêncio. Já não sei mais se as madrugadas me fazem bem ou mal. Desconfio do amor perfeito, ao passo instantâneo que não imagino acordar sem sonhar dormir de novo.

[...]

O sonho atravessou parte da manhã desta vez. Durante a noite, levantar para beber água repetiu-se três vezes. Apesar de a temperatura ser amena, a alma exalava calor, temperatura escaldante. Entre uma praia e outra, nas madrugadas já rotineiras de devaneios sem fim, caminhávamos em paz, sorridentes, trocando juras infinitas de paixão. Nos momentos de calmaria e reserva, o amor era impressionante: nada em nós se mantinha distante por mais do que um ou dois milímetros. Corpos fundidos, ardência d'almas. Já de pé, a segunda-feira cobrava seus tributos e minha mente sonegava tudo, desconcertadamente. A mulher mais bonita do mundo, de nome novo, tudo novo, havia invadido minhas horas de sono para bradar: "EU TE AMO!". Ainda agora, pronto para caminhar pela tarde e pela noite, sinto seu cheiro e as consequências de suas palavras. Estou flanando pelo meu futuro neste exato momento.

[...]

Na madrugada de ontem o beijo foi um escândalo. Era manhã, céu lindo, tempo de luz. O Sol resolvera mesmo protagonizar um pouco minhas noctívagas passagens de desejo e fantasia. À entrada do mar, na praia em que aprendi a sonhar, viver e me reconhecer como sujeito na História, acompanhei seu caminhar rumo aos ensolarados raios do horizonte. Já na água, ela se refastelava com as ondas do Rei Netuno, feito menina, sapeca de tudo. Do real, nada me lembro. Sei apenas que acordei num pós-luau, estremecido pelos beijos mais intensos que troquei na vida. Ainda que nunca tenha existido, a mulher mais bonita do mundo, de nome completamente desconhecido, havia deixado seu cheiro e seu amor em mim. Naquele dia e na prova das primeiras horas do dia seguinte eu tive certeza de que conheci a minha PRINCESA do mar.

16 agosto 2011

Classes, desejos e reparações


Na História sempre houve classes sociais. Entre os gregos, na Antiguidade Clássica, Aristóteles dividia a sociedade em escravos e homens livres. Mais do que isso: em sua boa obra, Política, o filósofo dividia os cidadãos atenienses entre pobres, classe média e ricos: nos governos, afinal, prevalecia a presença dos mais ricos nos postos de tomada de decisão. Entre os egípcios já havia documentos que comprovavam a existência da noção de classes, da divisão da sociedade em tipos humanos diferentes, com distintos créditos e papéis sociais. Na Idade Média e no universo árabe, tradições culturais e religiosas diversas refletem as classificações sociais e as separações entre indivíduos e grupos humanos. Para partir deste plano e encontrar uma vaga à porta do Céu, a classe a que se pertencia era uma condição definitiva para a felicidade, neste e noutro mundo.

No capitalismo, no tempo-síntese das transformações nascidas do Renascimento, da Reforma e das Revoluções Francesa, Inglesa e Estadunidense, a novidade é que essas classes são colocadas em movimento; surge a promessa de dinamismo econômico e ascensão social àqueles que trabalham. De um mundo fechado, fixo, em que se nasce, cresce e morre no mesmo lugar e da mesma forma, a realidade passa a abraçar uma sociedade aberta, em que tudo deixa de ser para estar. A perspectiva da mudança dá nova configuração às classes sociais, que agora se movimentam sobre uma economia "livre" e por condições sociais sem amarras nem impedimentos. Em síntese, as classes sociais no capitalismo ocupam um espaço na vida econômica e levam a cabo lutas políticas que as identificam com determinadas visões de mundo. Karl Marx escreveu que coube ao economista escocês Adam Smith, um pensador liberal, verificar a existência das classes na sociedade hegemonizada pelo capital. A ideia de classe e sua existência não são, portanto, um complô diabólico da esquerda ou dos marxistas. Antes, trata-se de um apontamento simples de quem vê o mundo pela sempre tensa e volátil relação entre o homem, a natureza e suas condições concretas de reprodução da vida.

Há algum tempo li o resultado de uma pesquisa que constatou que o brasileiro não sabe a que classe pertence. Hoje, quando se fala nas tais classes sociais, elas logo vem acompanhadas por isoladas letras maiúsculas: classes A, B, C, D, E... O critério é renda. De tanto a tanto, classe X; de outro tanto a outro tanto, na soma dos rendimentos familiares, classe Y...

Penso eu que também não saberia dizer a que classe alfabética pertenço.

Ora, numa sociedade aberta - não obstante os grandes capitais sempre pretendam fechá-la para si mesmos -, a dinâmica salarial é constante e varia de região para região do país. Além disso, é imperativo que se analisem não apenas os padrões de consumo, mas, principalmente, as prioridades de consumo. Uma família que prefere investir em educação e cultura, ainda que ganhe menos dinheiro que outras que optam por roupas de luxo e joias, não pode ser vista com uma letra menos engrandecedora do que aquelas conferidas às famílias que não dedicam um real a livros, viagens, cinema... O consumo cultural, por exemplo, que está diretamente relacionado à vida escolar, às preferências que se elegem para a vida dos filhos e netos, não é um item exclusivo e derivativo do tamanho da renda familiar. Não. Na complexa estruturação das classes sociais, umas se rendem à conquista do dinheiro e do conforto material; outras, sabedoras dos limites espirituais dessa escolha, abrem-se para alternativas radicalmente diferentes e passam a consumir os bens imateriais, que, paradoxalmente, se eternizam como valor e herança da vida. Se é de fato preponderante a realidade econômica - a qual limita ou expande acessos aos bens do mundo, tangíveis ou intangíveis -, a própria organização das classes e a sua luta política podem corroer a inevitabilidade de uma vida marcada pela carência monetária e recheá-la de outros e mais humanos sentidos. É nisso que está a luta ideológica por hegemonia e pela efetivação do bloco histórico, como tão bem definiu Antonio Gramsci. Há brilho, luz, potência criadora e revolucionária na cultura - e é por meio dessa pesagem cultural que se pode enfrentar a força destruidora do olho do furacão capitalista.

Bom, nesses temos, a questão por detrás das letras que adjetivam as classes hoje em dia é mais simples do que aparenta: como o objetivo dos apoiadores desse tipo de classificação é "controlar" hábitos e tendências exclusivamente de consumo, orientando pesquisas de opinião, consultores empresariais e estratégias de marketing, dá-lhe reducionismo. A simplificação e a desistoricização de um conceito, aliadas à oferta de pertencimento ao mundo mediante a capacidade de endividamento, pagar mais contas, comprar mais e viver menos, são o elixir da existência desses recursos metodológicos e distintivos mercadológicos.

Eu sonho um dia integrar a classe "L", a da livre existência, sem rótulos nem pré-determinações. Uma classe em que dinheiro e poder de aquisição material tenham bem menos valor que ideias, princípios e práticas de afetividade e enaltecimento do ser humano. É isso.

13 agosto 2011

Memórias de um amigo invisível


"A alimentação dos cinco mil", óleo sobre tela de Daniel Bonnel

Dedico esta memória ficcional de um amigo invisível - tão caro ao sujeito visível que sou - ao meu pai, o bravo Osmar Rossi. Agora longe de sua presença física percebi quão imensa era sua fome de vida, quão simples e generosa foi sua maneira de me preparar para a vida, colocando-me perto dos livros, longe das dores do mundo e ao lado da luta mais humana e socialista que existe: a luta por justiça, paz e liberdade.

Desde criança ouvi minha avó dizer que eu tenho os pés na Lua. E a cabeça também. Ela se divertia muito com o que julgava ser minha fértil imaginação. Num e noutro caso, mais que fértil, dizia que minha capacidade de criar histórias era algo um tanto quanto sobrenatural. Cresci estigmatizado, tido por excêntrico, meio maluco mesmo.

A vida, quis seu script, acabou reiterando muitos dos temores e dizeres da mãe de minha mãe. No lugar da infância trivial, optei por ler tudo que se dispôs a parar diante de mim. Entre gibis e livros de séries juvenis, agucei a imaginação, tratei de me aproximar muito mais dos mundos fictícios do que da realidade desta Terra. Na problemática e irritante fase adolescente, apaixonei-me por quadrinhos adultos de super-heróis e me entreguei completamente ao universo do heavy metal. A explosiva combinação de literatura, quadrinhos cults e música pesada intensificou a tal imaginação de pés na Lua: criei histórias, escrevi milhares de poesias, idealizei pessoas, edifiquei um mundo muito meu, rico, povoado de toda a sorte de personagens, amigos, gente admirável. A cada dia tornava-se menos necessário, para mim, pisar o mundo real. 

Após um tempo de descobertas, leituras e viagens pelo mundo das ideias, por tudo que fosse parte, fragmento, instante, concluí que carreiras tradicionais não abraçariam meus anseios. Até hoje - apesar de ter a imaginação que tanto encantava/assombrava minha avó materna - nunca pude me ver num escritório, num banco, numa sala comercial; menos ainda numa clínica ou atrás de uma mesa com telefone, computador e um porta-retratos exibindo uma família sorridente, plástica, tipicamente pequeno-burguesa. Arredio e de espírito em permanente estado contestatório, fui viver de utopias cinematográficas, embrenhar-me por vistas do mundo que pudessem me ofertar a liberdade dos heróis, o poder dos imortais, as paisagens e as mulheres dos romances policiais que sempre amei. (Era um ponto de honra sentir, ao menos por alguns momentos na vida, um pouco do efeito blasé de um detetive à la Hammett, deliciar-me nas curvas perigosas das mulheres que enlouqueceram os anti-heróis de minha predileção.) As imagens intensas da vida e o charme que a utopia lhes dava, um vir-a-ser marcado pela força de uma cidadania-mundo, agraciaram-me muitas vezes com esses enredos heroicos e fabulosos. Antes mesmo de ingressar na vida adulta, em meio a destemperos e alguns bailes de loucura e razoável insensatez, eu já havia definido a maior parte dos ingredientes de minha incondicional alma libertária. 

Participei como espectador inquieto e dialogante de momentos cruciais do mundo real: vi cair o Muro de Berlim, fotografando n'alma cenas que grudariam na retina da História e instariam o redesenhar dos desejos humanos; acompanhei os últimos e delicados atos de uma geração militante que se fragilizou diante da perda do sentido da História, da derrota inequívoca de seus ideais; caminhei lado a lado com muitos daqueles que até hoje insistem num mundo novo, outro, diferente, descapitalizado da usura e das leis de troca que só almejam acumular coisas sobre o cadável dos sonhos e o semblante um pouco pálido da resistência; assisti a muitas capitulações, muitas transfugagens - e diante de cada ação de deliberada covardia ideológica, incapaz da necessária e hominizadora autocrítica, rangi dentes, cerrei punhos e... chorei... copiosamente... apenas chorei. Adulto, colecionador de sonhos e articulador de ideias que inspiram cuidado, sinto-me mesmo um menino crescido, carente, e mantenho de pé (na Lua?) a convicção de que fui derrotado, mas não estou liquidado.

A História, reunião dos plurais do presente e do passado, prossegue e leva em sua bagagem muitas das cenas e milhares dos personagens que estiveram em meus caminhos, em minha fértil e engajada sobrenatural imaginação.

09 agosto 2011

Meu beijo da madrugada



"O beijo", óleo sobre tela do artista plástico José Silva

Há dias em que as perdas vêm me visitar. Ficam de um lado para o outro, fazendo de tudo para me chamar à atenção. Trazem as belas imagens dos nossos melhores momentos e, de quebra, insistem em demonstrar que, se ainda vivas, me desconcertariam muito mais que no passado. Dessas sombras acaba ficando a clara sensação de que havia muito desejo, muita fantasia, muita paixão para dividir, mesmo depois do momento em que partiram.

[...]

Nunca pude, olhando para mim mesmo, para os esconderijos do meu querer, entender o que de fato se passa comigo. Do amor, lembranças me escapam, insistem na permanência somente do ausente e do incansável desejo. Há indubitavelmente em mim uma alma que só é feliz quando transcende o real, o imposto, o desgosto. Tantas vezes quis ter um mundo só meu onde eu pudesse chorar... sorrir... morrer de amor. Sou composto por esse desejo. No corpo, na alma, em cada mínima fração de mim, só sei ser mesmo aquele que sonha, extenso ser, dinâmico e inacabado vir-a-ser. Minha fonte é meu exclusivo devir.

[...]

Por mais que sejam chamadas a dar respostas, as sensações mais confundem e iludem do que clareiam ou permitem ver. O coração, esse amontoado de experiências que nos toma dos pés à cabeça, até insiste: quer da razão um pouco mais de piedade, poder decisório. A briga, inevitável, é também um caso perdido. Toda vez que se procura entender o que se passa, entende-se ainda mais que as fissuras da vida existem tão somente para ser mistério. A ideia da dor é ganhar tempo: ou se enfrenta com coragem absurda sua covardia, ou se cai para sempre em suas espinhosas armadilhas. Além de viver muito tudo isso, andei observando que o mundo é meu parceiro de guerrilha.

[...]

Lembro-me de uma canção da banda Azul Limão (pioneiros do heavy metal carioca nos anos 1980') que versava: "Dias e noites passam / e eu sempre a procurar / alguém que possa ver ou entender o que vou tocar / Às vezes me sinto tão só / ao lado da hipocrisia / Virei um homem de metal / perdi a noção de gostar / Somos o corte profundo / Luz do sol". Acredito que a lembrança se deveu a essa sensação enlouquecida de pontuar vazios existenciais, desejos pulsantes de mudar tudo, radicalizar a vida e suas experiências sempre surpreendentes. É possível que minha peregrinação pelas músicas de juventude - o metal, em particular - tenha provocado o sinuoso e arriscado voo. Aliada ao meu momento atual de bicho em completa mutação (absolutamente necessária à sobrevivência num tempo de tanta insensatez teórica e prática), a música pesada oitentista está sendo lida de uma nova maneira por mim. Importa-me menos a atmosfera da época, com suas tensões entre estilos e tendências - e muito mais a força viva das temáticas e de tudo que nela havia que influenciou minhas ideias e visão de mundo. Outra canção do Azul Limão vaticinava: "Se num mar de estrelas / Nós vamos deitar / Com o mais lindo sonho / Nós vamos sonhar / Ver a liberdade fatigando a mente / Entrando num mundo que tudo é diferente". O impressionante ímpeto em direção à origem, o ORI dos gregos, totaliza a disposição e move corpo, mente e coração. Dos livros que li, dos discos que ouvi, dos filmes que vi ficou muito, tudo o que sou e a base do que ainda insisto ser.

[...]

Um ponto mínimo de inflexão, ou dois pontos, no máximo três ou quatro. Qual o limite disso tudo que não para de gritar dentro de mim?! Eu só queria dizer a ela que há um traçado em minha vida, uma rua de mão única para o futuro. Eu teria de dizer também que esse futuro depende de ela aceitar me beijar escandalosamente, por horas a fio, ainda que seja somente um vez, uma única e necessária vez... Ela fugiu, assustou-se comigo. Disse que preferia guardar o que era bom, apagar o resto... Entendeu tudo errado, a louca! Agora fico eu aqui, tomado por uma ansiedade que mistura palavras, canções, vestígios de um poema em permanente esboço. Perdi-me na vontade de nela me perder. Com a partida definitiva da musa dos meus contos - e cantos-, algo em mim se partiu (definitivamente?). E agora é preciso continuar, habituar-me ao beijo que nunca houve, não obstante permaneça imprescindível.

[...]

Na escuridão, com medo e sem nenhuma coragem de olhar para trás, percebi que havia uma luz que não me agredia: ela era maior que o manto tricolor, poderosa como o sorriso do meu filho, sedutora como as palavras de Rubem Fonseca, flutuante como as guitarras do Saxon. Uma luz intensa, estranhamente branda em toda a sua potência. Num domingo estranho até os tubos, encontrei o garoto que se perdera de mim havia uns vinte anos. Sorri e tive a certeza de estar, enfim, no caminho certo - que não sei aonde me levará, como cantava mestre Raul, mas sei que é o meu caminho.

[...]

Novamente sonhei com o beijo perdido. Real à flor da pele - e de tantos outros pontos do corpo e da alma -, o beijo sonhado pautou os enigmas da minha manhã. Entre um local e outro da cidade, entre uma atividade e outra, os lábios macios que pude experimentar na madrugada estiveram comigo até há pouco, quando tive de recordar também sua doce textura e substituí-los por um cerrar de olhos ao sol do meio dia. Encorajado como só os grandes beijos podem ser, aquele que invadiu meus sonhos me é de rosto conhecido, corpo acalantado, viver desejado. Agora é esperar a tarde cair, a noite chegar, o beijo voltar a bater à minha porta: ele será bem-vindo também esta noite!

[...]

Ela não vai sair mais de lá. Bateu o pé, fez cara de mulher brava e disse, contundentemente: "Vou morar nos seus sonhos, dia e noite, para sempre!". Já faz semanas que o beijo dela me visita pelas madrugadas. De dia, acordado, fazendo o que quer quer seja, sinto o gosto dos lábios dela, a presença pausada da respiração muito próxima de mim, dando sinais de uma paixão que será eternamente possível. Eu viro os olhos, afasto as sombras - amigas inseparáveis -, e coloco uma música do Pearl Jam. "Oceans" canta para mim que o beijo, o desejado beijo, beijo dos beijos, que ele não pode ser descartado. Ele ainda pode vir. Eu aguardo, menino que sou, criança em meus ideais, a boca-fonte da minha vida. Venha logo, amor. Venha logo.

02 agosto 2011

A Era do Preconceito


Charge do cartunista Carlos Latuff, de 2001, no ápice do desejo estadunidense de "praticar a guerra para promover a paz".

O tempo presente, midiático e espetacular, tecnologizado e esvaziado de ideários, vem se caracterizando por apressadas maneiras de responsabilizar estereótipos e caricaturas por tudo que de ruim acontece mundo afora. Explicações grosseiras e enviesadas por um reenergizado conservadorismo moral correm facilmente os trechos entre as consciências individuais. Num certo sentido, assiste-se a uma conversão generalizada ao templo das reduções: tornou-se mais cômodo apostar no velho como solução para dilemas inéditos. Negar o ontem, desdizê-lo e até ridicularizá-lo, converteu-se na única autocrítica possível - pobre, mesquinha e incoerente por natureza....

Alguns percursos dos últimos trinta ou quarenta anos ajudam a desvendar o milagre dessas conversões. 

Nos anos seguintes à crise internacional do petróleo, deflagrada na primeira metade dos anos 1970', Hollywood reinventou a Guerra Fria e ergueu novos muros para bem além da linda cidade de Berlim. O cinema estadunidense, poderosa força ideológica nos quatro cantos do globo, colocou Reagan, Tatcher e o neoliberalismo como a grande aposta do bem contra o mal comunista. Nos anos 1990', quando o fim da União Soviética e a queda efetiva do muro que dividia a Alemanha em metades díspares e antagônicas precipitaram as declarações de que a História havia terminado e o capitalismo triunfado, o inimigo passou a ser a emergente economia japonesa de mercado. Nas grandes lojas de departamento dos EUA era possível encontrar cartazes com a inscrição "Japans Out", com letras desavergonhadas e garrafais. Os bandidos da TV e do Cinema que corriam o mundo deixaram de ser vermelhos e passaram a ser amarelos - a nova cor da ameaça à avareza imperialista.

Num rápido manuseio dos registros da história estadunidense, tornam-se saltitantes os episódios de espoliação e dominação contra etnias e povos, próximos e distantes. Sabe-se que indígenas, africanos, negros e latinos - esses últimos do México à Terra do Fogo - já protagonizaram o mal do mundo nessa estreita visão dualista e empobrecida da realidade.

Desde a derrubada do World Trade Center, no décimo primeiro dia de setembro de 2001, árabes e muçulmanos são a bola demoníaca da vez. Máfias islâmicas, conspirações de Alá, terroristas iraquianos, facções afegãs ocupam o primeiro lugar na produção da indústria cultural do medo e na banalização do mal.

Na recente tragédia na Noruega, em que o ultradireitista Anders Behring Breivik ceifou setenta vidas no intuito de "exterminar o marxismo e a invasão muçulmana em seu país", houve quem de pronto defendesse que a autoria intelectual dos assassínios fosse iraquiana, afegã, iraniana... No limite da loucura, foram disparadas acusações até contra os norte-coreanos.

Fato é que, época após época, renovamos a categoria social que será a vítima preferencial das perseguições e da insensatez: operários, imigrantes, comunistas, negros, orientais e islâmicos fazem a grande lista, mas não a finalizam: virão outros. Em todas as sociedades, a era do preconceito e da intolerância resolveu oxigenar os ânimos e defender que existem mal e bem puros, o que, em qualquer sentido, é falso e burro, quando não, tantas vezes, cruel e covarde.