16 agosto 2011

Classes, desejos e reparações


Na História sempre houve classes sociais. Entre os gregos, na Antiguidade Clássica, Aristóteles dividia a sociedade em escravos e homens livres. Mais do que isso: em sua boa obra, Política, o filósofo dividia os cidadãos atenienses entre pobres, classe média e ricos: nos governos, afinal, prevalecia a presença dos mais ricos nos postos de tomada de decisão. Entre os egípcios já havia documentos que comprovavam a existência da noção de classes, da divisão da sociedade em tipos humanos diferentes, com distintos créditos e papéis sociais. Na Idade Média e no universo árabe, tradições culturais e religiosas diversas refletem as classificações sociais e as separações entre indivíduos e grupos humanos. Para partir deste plano e encontrar uma vaga à porta do Céu, a classe a que se pertencia era uma condição definitiva para a felicidade, neste e noutro mundo.

No capitalismo, no tempo-síntese das transformações nascidas do Renascimento, da Reforma e das Revoluções Francesa, Inglesa e Estadunidense, a novidade é que essas classes são colocadas em movimento; surge a promessa de dinamismo econômico e ascensão social àqueles que trabalham. De um mundo fechado, fixo, em que se nasce, cresce e morre no mesmo lugar e da mesma forma, a realidade passa a abraçar uma sociedade aberta, em que tudo deixa de ser para estar. A perspectiva da mudança dá nova configuração às classes sociais, que agora se movimentam sobre uma economia "livre" e por condições sociais sem amarras nem impedimentos. Em síntese, as classes sociais no capitalismo ocupam um espaço na vida econômica e levam a cabo lutas políticas que as identificam com determinadas visões de mundo. Karl Marx escreveu que coube ao economista escocês Adam Smith, um pensador liberal, verificar a existência das classes na sociedade hegemonizada pelo capital. A ideia de classe e sua existência não são, portanto, um complô diabólico da esquerda ou dos marxistas. Antes, trata-se de um apontamento simples de quem vê o mundo pela sempre tensa e volátil relação entre o homem, a natureza e suas condições concretas de reprodução da vida.

Há algum tempo li o resultado de uma pesquisa que constatou que o brasileiro não sabe a que classe pertence. Hoje, quando se fala nas tais classes sociais, elas logo vem acompanhadas por isoladas letras maiúsculas: classes A, B, C, D, E... O critério é renda. De tanto a tanto, classe X; de outro tanto a outro tanto, na soma dos rendimentos familiares, classe Y...

Penso eu que também não saberia dizer a que classe alfabética pertenço.

Ora, numa sociedade aberta - não obstante os grandes capitais sempre pretendam fechá-la para si mesmos -, a dinâmica salarial é constante e varia de região para região do país. Além disso, é imperativo que se analisem não apenas os padrões de consumo, mas, principalmente, as prioridades de consumo. Uma família que prefere investir em educação e cultura, ainda que ganhe menos dinheiro que outras que optam por roupas de luxo e joias, não pode ser vista com uma letra menos engrandecedora do que aquelas conferidas às famílias que não dedicam um real a livros, viagens, cinema... O consumo cultural, por exemplo, que está diretamente relacionado à vida escolar, às preferências que se elegem para a vida dos filhos e netos, não é um item exclusivo e derivativo do tamanho da renda familiar. Não. Na complexa estruturação das classes sociais, umas se rendem à conquista do dinheiro e do conforto material; outras, sabedoras dos limites espirituais dessa escolha, abrem-se para alternativas radicalmente diferentes e passam a consumir os bens imateriais, que, paradoxalmente, se eternizam como valor e herança da vida. Se é de fato preponderante a realidade econômica - a qual limita ou expande acessos aos bens do mundo, tangíveis ou intangíveis -, a própria organização das classes e a sua luta política podem corroer a inevitabilidade de uma vida marcada pela carência monetária e recheá-la de outros e mais humanos sentidos. É nisso que está a luta ideológica por hegemonia e pela efetivação do bloco histórico, como tão bem definiu Antonio Gramsci. Há brilho, luz, potência criadora e revolucionária na cultura - e é por meio dessa pesagem cultural que se pode enfrentar a força destruidora do olho do furacão capitalista.

Bom, nesses temos, a questão por detrás das letras que adjetivam as classes hoje em dia é mais simples do que aparenta: como o objetivo dos apoiadores desse tipo de classificação é "controlar" hábitos e tendências exclusivamente de consumo, orientando pesquisas de opinião, consultores empresariais e estratégias de marketing, dá-lhe reducionismo. A simplificação e a desistoricização de um conceito, aliadas à oferta de pertencimento ao mundo mediante a capacidade de endividamento, pagar mais contas, comprar mais e viver menos, são o elixir da existência desses recursos metodológicos e distintivos mercadológicos.

Eu sonho um dia integrar a classe "L", a da livre existência, sem rótulos nem pré-determinações. Uma classe em que dinheiro e poder de aquisição material tenham bem menos valor que ideias, princípios e práticas de afetividade e enaltecimento do ser humano. É isso.