02 agosto 2011

A Era do Preconceito


Charge do cartunista Carlos Latuff, de 2001, no ápice do desejo estadunidense de "praticar a guerra para promover a paz".

O tempo presente, midiático e espetacular, tecnologizado e esvaziado de ideários, vem se caracterizando por apressadas maneiras de responsabilizar estereótipos e caricaturas por tudo que de ruim acontece mundo afora. Explicações grosseiras e enviesadas por um reenergizado conservadorismo moral correm facilmente os trechos entre as consciências individuais. Num certo sentido, assiste-se a uma conversão generalizada ao templo das reduções: tornou-se mais cômodo apostar no velho como solução para dilemas inéditos. Negar o ontem, desdizê-lo e até ridicularizá-lo, converteu-se na única autocrítica possível - pobre, mesquinha e incoerente por natureza....

Alguns percursos dos últimos trinta ou quarenta anos ajudam a desvendar o milagre dessas conversões. 

Nos anos seguintes à crise internacional do petróleo, deflagrada na primeira metade dos anos 1970', Hollywood reinventou a Guerra Fria e ergueu novos muros para bem além da linda cidade de Berlim. O cinema estadunidense, poderosa força ideológica nos quatro cantos do globo, colocou Reagan, Tatcher e o neoliberalismo como a grande aposta do bem contra o mal comunista. Nos anos 1990', quando o fim da União Soviética e a queda efetiva do muro que dividia a Alemanha em metades díspares e antagônicas precipitaram as declarações de que a História havia terminado e o capitalismo triunfado, o inimigo passou a ser a emergente economia japonesa de mercado. Nas grandes lojas de departamento dos EUA era possível encontrar cartazes com a inscrição "Japans Out", com letras desavergonhadas e garrafais. Os bandidos da TV e do Cinema que corriam o mundo deixaram de ser vermelhos e passaram a ser amarelos - a nova cor da ameaça à avareza imperialista.

Num rápido manuseio dos registros da história estadunidense, tornam-se saltitantes os episódios de espoliação e dominação contra etnias e povos, próximos e distantes. Sabe-se que indígenas, africanos, negros e latinos - esses últimos do México à Terra do Fogo - já protagonizaram o mal do mundo nessa estreita visão dualista e empobrecida da realidade.

Desde a derrubada do World Trade Center, no décimo primeiro dia de setembro de 2001, árabes e muçulmanos são a bola demoníaca da vez. Máfias islâmicas, conspirações de Alá, terroristas iraquianos, facções afegãs ocupam o primeiro lugar na produção da indústria cultural do medo e na banalização do mal.

Na recente tragédia na Noruega, em que o ultradireitista Anders Behring Breivik ceifou setenta vidas no intuito de "exterminar o marxismo e a invasão muçulmana em seu país", houve quem de pronto defendesse que a autoria intelectual dos assassínios fosse iraquiana, afegã, iraniana... No limite da loucura, foram disparadas acusações até contra os norte-coreanos.

Fato é que, época após época, renovamos a categoria social que será a vítima preferencial das perseguições e da insensatez: operários, imigrantes, comunistas, negros, orientais e islâmicos fazem a grande lista, mas não a finalizam: virão outros. Em todas as sociedades, a era do preconceito e da intolerância resolveu oxigenar os ânimos e defender que existem mal e bem puros, o que, em qualquer sentido, é falso e burro, quando não, tantas vezes, cruel e covarde.