13 agosto 2011

Memórias de um amigo invisível


"A alimentação dos cinco mil", óleo sobre tela de Daniel Bonnel

Dedico esta memória ficcional de um amigo invisível - tão caro ao sujeito visível que sou - ao meu pai, o bravo Osmar Rossi. Agora longe de sua presença física percebi quão imensa era sua fome de vida, quão simples e generosa foi sua maneira de me preparar para a vida, colocando-me perto dos livros, longe das dores do mundo e ao lado da luta mais humana e socialista que existe: a luta por justiça, paz e liberdade.

Desde criança ouvi minha avó dizer que eu tenho os pés na Lua. E a cabeça também. Ela se divertia muito com o que julgava ser minha fértil imaginação. Num e noutro caso, mais que fértil, dizia que minha capacidade de criar histórias era algo um tanto quanto sobrenatural. Cresci estigmatizado, tido por excêntrico, meio maluco mesmo.

A vida, quis seu script, acabou reiterando muitos dos temores e dizeres da mãe de minha mãe. No lugar da infância trivial, optei por ler tudo que se dispôs a parar diante de mim. Entre gibis e livros de séries juvenis, agucei a imaginação, tratei de me aproximar muito mais dos mundos fictícios do que da realidade desta Terra. Na problemática e irritante fase adolescente, apaixonei-me por quadrinhos adultos de super-heróis e me entreguei completamente ao universo do heavy metal. A explosiva combinação de literatura, quadrinhos cults e música pesada intensificou a tal imaginação de pés na Lua: criei histórias, escrevi milhares de poesias, idealizei pessoas, edifiquei um mundo muito meu, rico, povoado de toda a sorte de personagens, amigos, gente admirável. A cada dia tornava-se menos necessário, para mim, pisar o mundo real. 

Após um tempo de descobertas, leituras e viagens pelo mundo das ideias, por tudo que fosse parte, fragmento, instante, concluí que carreiras tradicionais não abraçariam meus anseios. Até hoje - apesar de ter a imaginação que tanto encantava/assombrava minha avó materna - nunca pude me ver num escritório, num banco, numa sala comercial; menos ainda numa clínica ou atrás de uma mesa com telefone, computador e um porta-retratos exibindo uma família sorridente, plástica, tipicamente pequeno-burguesa. Arredio e de espírito em permanente estado contestatório, fui viver de utopias cinematográficas, embrenhar-me por vistas do mundo que pudessem me ofertar a liberdade dos heróis, o poder dos imortais, as paisagens e as mulheres dos romances policiais que sempre amei. (Era um ponto de honra sentir, ao menos por alguns momentos na vida, um pouco do efeito blasé de um detetive à la Hammett, deliciar-me nas curvas perigosas das mulheres que enlouqueceram os anti-heróis de minha predileção.) As imagens intensas da vida e o charme que a utopia lhes dava, um vir-a-ser marcado pela força de uma cidadania-mundo, agraciaram-me muitas vezes com esses enredos heroicos e fabulosos. Antes mesmo de ingressar na vida adulta, em meio a destemperos e alguns bailes de loucura e razoável insensatez, eu já havia definido a maior parte dos ingredientes de minha incondicional alma libertária. 

Participei como espectador inquieto e dialogante de momentos cruciais do mundo real: vi cair o Muro de Berlim, fotografando n'alma cenas que grudariam na retina da História e instariam o redesenhar dos desejos humanos; acompanhei os últimos e delicados atos de uma geração militante que se fragilizou diante da perda do sentido da História, da derrota inequívoca de seus ideais; caminhei lado a lado com muitos daqueles que até hoje insistem num mundo novo, outro, diferente, descapitalizado da usura e das leis de troca que só almejam acumular coisas sobre o cadável dos sonhos e o semblante um pouco pálido da resistência; assisti a muitas capitulações, muitas transfugagens - e diante de cada ação de deliberada covardia ideológica, incapaz da necessária e hominizadora autocrítica, rangi dentes, cerrei punhos e... chorei... copiosamente... apenas chorei. Adulto, colecionador de sonhos e articulador de ideias que inspiram cuidado, sinto-me mesmo um menino crescido, carente, e mantenho de pé (na Lua?) a convicção de que fui derrotado, mas não estou liquidado.

A História, reunião dos plurais do presente e do passado, prossegue e leva em sua bagagem muitas das cenas e milhares dos personagens que estiveram em meus caminhos, em minha fértil e engajada sobrenatural imaginação.