18 agosto 2011

Meu beijo da madrugada II



A única coisa que restou da última madrugada foi um canto de arrepios que, de hora em hora, religiosamente, entoa uma melodia cheia de saudade. Deus, como é possível sentir tanto a falta do que nunca houve? Aquele beijo que acalma, aquele abraço que protege, aquele olhar que inspira, aquele calor que fortalece... Toda madrugada é a mesma coisa: uma única mulher, única também na capacidade de reunir tudo de que preciso, invade o percurso sinuoso de meus sonhos e, feito uma vampira, suga todas as minhas fantasias, apropria-se do meu querer, de todas as coisas que guardo no peito, em silêncio. Já não sei mais se as madrugadas me fazem bem ou mal. Desconfio do amor perfeito, ao passo instantâneo que não imagino acordar sem sonhar dormir de novo.

[...]

O sonho atravessou parte da manhã desta vez. Durante a noite, levantar para beber água repetiu-se três vezes. Apesar de a temperatura ser amena, a alma exalava calor, temperatura escaldante. Entre uma praia e outra, nas madrugadas já rotineiras de devaneios sem fim, caminhávamos em paz, sorridentes, trocando juras infinitas de paixão. Nos momentos de calmaria e reserva, o amor era impressionante: nada em nós se mantinha distante por mais do que um ou dois milímetros. Corpos fundidos, ardência d'almas. Já de pé, a segunda-feira cobrava seus tributos e minha mente sonegava tudo, desconcertadamente. A mulher mais bonita do mundo, de nome novo, tudo novo, havia invadido minhas horas de sono para bradar: "EU TE AMO!". Ainda agora, pronto para caminhar pela tarde e pela noite, sinto seu cheiro e as consequências de suas palavras. Estou flanando pelo meu futuro neste exato momento.

[...]

Na madrugada de ontem o beijo foi um escândalo. Era manhã, céu lindo, tempo de luz. O Sol resolvera mesmo protagonizar um pouco minhas noctívagas passagens de desejo e fantasia. À entrada do mar, na praia em que aprendi a sonhar, viver e me reconhecer como sujeito na História, acompanhei seu caminhar rumo aos ensolarados raios do horizonte. Já na água, ela se refastelava com as ondas do Rei Netuno, feito menina, sapeca de tudo. Do real, nada me lembro. Sei apenas que acordei num pós-luau, estremecido pelos beijos mais intensos que troquei na vida. Ainda que nunca tenha existido, a mulher mais bonita do mundo, de nome completamente desconhecido, havia deixado seu cheiro e seu amor em mim. Naquele dia e na prova das primeiras horas do dia seguinte eu tive certeza de que conheci a minha PRINCESA do mar.