09 agosto 2011

Meu beijo da madrugada



"O beijo", óleo sobre tela do artista plástico José Silva

Há dias em que as perdas vêm me visitar. Ficam de um lado para o outro, fazendo de tudo para me chamar à atenção. Trazem as belas imagens dos nossos melhores momentos e, de quebra, insistem em demonstrar que, se ainda vivas, me desconcertariam muito mais que no passado. Dessas sombras acaba ficando a clara sensação de que havia muito desejo, muita fantasia, muita paixão para dividir, mesmo depois do momento em que partiram.

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Nunca pude, olhando para mim mesmo, para os esconderijos do meu querer, entender o que de fato se passa comigo. Do amor, lembranças me escapam, insistem na permanência somente do ausente e do incansável desejo. Há indubitavelmente em mim uma alma que só é feliz quando transcende o real, o imposto, o desgosto. Tantas vezes quis ter um mundo só meu onde eu pudesse chorar... sorrir... morrer de amor. Sou composto por esse desejo. No corpo, na alma, em cada mínima fração de mim, só sei ser mesmo aquele que sonha, extenso ser, dinâmico e inacabado vir-a-ser. Minha fonte é meu exclusivo devir.

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Por mais que sejam chamadas a dar respostas, as sensações mais confundem e iludem do que clareiam ou permitem ver. O coração, esse amontoado de experiências que nos toma dos pés à cabeça, até insiste: quer da razão um pouco mais de piedade, poder decisório. A briga, inevitável, é também um caso perdido. Toda vez que se procura entender o que se passa, entende-se ainda mais que as fissuras da vida existem tão somente para ser mistério. A ideia da dor é ganhar tempo: ou se enfrenta com coragem absurda sua covardia, ou se cai para sempre em suas espinhosas armadilhas. Além de viver muito tudo isso, andei observando que o mundo é meu parceiro de guerrilha.

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Lembro-me de uma canção da banda Azul Limão (pioneiros do heavy metal carioca nos anos 1980') que versava: "Dias e noites passam / e eu sempre a procurar / alguém que possa ver ou entender o que vou tocar / Às vezes me sinto tão só / ao lado da hipocrisia / Virei um homem de metal / perdi a noção de gostar / Somos o corte profundo / Luz do sol". Acredito que a lembrança se deveu a essa sensação enlouquecida de pontuar vazios existenciais, desejos pulsantes de mudar tudo, radicalizar a vida e suas experiências sempre surpreendentes. É possível que minha peregrinação pelas músicas de juventude - o metal, em particular - tenha provocado o sinuoso e arriscado voo. Aliada ao meu momento atual de bicho em completa mutação (absolutamente necessária à sobrevivência num tempo de tanta insensatez teórica e prática), a música pesada oitentista está sendo lida de uma nova maneira por mim. Importa-me menos a atmosfera da época, com suas tensões entre estilos e tendências - e muito mais a força viva das temáticas e de tudo que nela havia que influenciou minhas ideias e visão de mundo. Outra canção do Azul Limão vaticinava: "Se num mar de estrelas / Nós vamos deitar / Com o mais lindo sonho / Nós vamos sonhar / Ver a liberdade fatigando a mente / Entrando num mundo que tudo é diferente". O impressionante ímpeto em direção à origem, o ORI dos gregos, totaliza a disposição e move corpo, mente e coração. Dos livros que li, dos discos que ouvi, dos filmes que vi ficou muito, tudo o que sou e a base do que ainda insisto ser.

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Um ponto mínimo de inflexão, ou dois pontos, no máximo três ou quatro. Qual o limite disso tudo que não para de gritar dentro de mim?! Eu só queria dizer a ela que há um traçado em minha vida, uma rua de mão única para o futuro. Eu teria de dizer também que esse futuro depende de ela aceitar me beijar escandalosamente, por horas a fio, ainda que seja somente um vez, uma única e necessária vez... Ela fugiu, assustou-se comigo. Disse que preferia guardar o que era bom, apagar o resto... Entendeu tudo errado, a louca! Agora fico eu aqui, tomado por uma ansiedade que mistura palavras, canções, vestígios de um poema em permanente esboço. Perdi-me na vontade de nela me perder. Com a partida definitiva da musa dos meus contos - e cantos-, algo em mim se partiu (definitivamente?). E agora é preciso continuar, habituar-me ao beijo que nunca houve, não obstante permaneça imprescindível.

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Na escuridão, com medo e sem nenhuma coragem de olhar para trás, percebi que havia uma luz que não me agredia: ela era maior que o manto tricolor, poderosa como o sorriso do meu filho, sedutora como as palavras de Rubem Fonseca, flutuante como as guitarras do Saxon. Uma luz intensa, estranhamente branda em toda a sua potência. Num domingo estranho até os tubos, encontrei o garoto que se perdera de mim havia uns vinte anos. Sorri e tive a certeza de estar, enfim, no caminho certo - que não sei aonde me levará, como cantava mestre Raul, mas sei que é o meu caminho.

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Novamente sonhei com o beijo perdido. Real à flor da pele - e de tantos outros pontos do corpo e da alma -, o beijo sonhado pautou os enigmas da minha manhã. Entre um local e outro da cidade, entre uma atividade e outra, os lábios macios que pude experimentar na madrugada estiveram comigo até há pouco, quando tive de recordar também sua doce textura e substituí-los por um cerrar de olhos ao sol do meio dia. Encorajado como só os grandes beijos podem ser, aquele que invadiu meus sonhos me é de rosto conhecido, corpo acalantado, viver desejado. Agora é esperar a tarde cair, a noite chegar, o beijo voltar a bater à minha porta: ele será bem-vindo também esta noite!

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Ela não vai sair mais de lá. Bateu o pé, fez cara de mulher brava e disse, contundentemente: "Vou morar nos seus sonhos, dia e noite, para sempre!". Já faz semanas que o beijo dela me visita pelas madrugadas. De dia, acordado, fazendo o que quer quer seja, sinto o gosto dos lábios dela, a presença pausada da respiração muito próxima de mim, dando sinais de uma paixão que será eternamente possível. Eu viro os olhos, afasto as sombras - amigas inseparáveis -, e coloco uma música do Pearl Jam. "Oceans" canta para mim que o beijo, o desejado beijo, beijo dos beijos, que ele não pode ser descartado. Ele ainda pode vir. Eu aguardo, menino que sou, criança em meus ideais, a boca-fonte da minha vida. Venha logo, amor. Venha logo.