24 agosto 2011

Nada como um clássico



Impossível não reconhecer em Durkheim todos os seus esforços para tornar a Sociologia uma ciência com jeito próprio, estilo definido, razão esclarecedora. Mais do que isso: surpreendo-me sempre com as contribuições que sua verve eminentemente conservadora empresta a minha visão progressista do mundo. Como diz o título deste texto, nada como um clássico. Eles nos salvam do desespero e do desconforto por tão pouco saber desta vida.

O francês Émile Durkheim (1858 -1917), um dos precursores da reflexão sociológica no século XIX, sempre me intrigou. Apesar de sua clara filiação metodológica ao positivismo – doutrina segundo a qual a sociedade seria regida por leis naturais, indeléveis - e seu franco testemunho em favor de um conservadorismo moral e atitudinal, o autor de “As regras do método sociológico” cede pistas a uma interpretação mais refinada e enriquecedora da realidade.

Durkheim é essencialmente positivista em muitos aspectos: crê em forte naturalização das relações humanas (com funções particulares a ser desempenhadas num organismo vivo de partilha do bem comum), credita aos fatos sociais, ingredientes da vida coletiva, um status socializante, exterior e, principalmente, repressor (ou se cumpre, ou se paga por descumprir) e insiste numa absoluta prevalência da consciência coletiva, um tipo de “cérebro do mundo”, sobre todas as existências individuais. Nesses termos, fatos cumpridos e bem seguidos, geração após geração, seriam a matéria-prima da consciência coletiva, que, por sua vez, seria endossada pelas vivências familiares, religiosas, produtivas, educacionais, governamentais e comunicacionais. Numa palavra, e num esboço ultradidático, eu poderia dizer que para o autor da cidade de Epinal, na relação entre o todo e as partes, a sociedade seria nota dez e o indivíduo, isolado, nota zero.

É precisamente no refletir sobre a elaboração da consciência coletiva que Durkheim se afasta do positivismo, da tentativa histórica de engessar o real, e rompe com o viés marcadamente conservador de sua interpretação da modernidade. Preocupado em estabelecer parâmetros para uma coesão social, um harmônico estado social de partilha e colaboração entre todos, em nome do todo, o autor de “As formas elementares da vida religiosa” assevera seu otimismo, aposta no equilíbrio entre as partes (daí seus detidos estudos sobre a divisão do trabalho social, mola propulsora do capitalismo industrial) e entende que é pela educação – e não pela repressão, pelo encaminhamento à boa conduta com base no medo da punição – que se constrói uma consciência coletiva que persuada o indivíduo, convença-o de sua abrangência e importância. Da mais tenra idade à vida adulta, o ambiente educativo deveria fornecer os códigos da experiência conjunta, a matriz de todos os valores, o mapa dos prejuízos possíveis numa sociedade sem coesão, sem propósito e destino comuns. A deseducação, o “salve-se-quem-puder”, seria para Durkheim o ponto de partida para a anomia social, um processo degenerativo que conduziria o tecido social ao caos, à inevitabilidade do projeto modernidade. Bloquear o caos é tarefa, portanto, de portentosos investimentos nas consciências individuais, as quais, "fabricadas" em uníssono, criariam o espírito ideal de um novo tempo.

Há em Durkheim, contudo, um ponto ainda mais progressista em relação ao típico e conservador pensamento funcionalista e organicista. Por investir esforços no poder gerador da educação, o autor de “O suicídio” – um fato social que revela em maior ou menor grau o descolamento entre as aspirações do coletivo e as percepções individuais – acaba por permitir uma reflexão em busca da ideia de totalidade, tão cara à investigação dialética da História. Para que uma criança possa de fato aproveitar a vida escolar, dela participar e nela aprender acerca dos componentes da consciência coletiva, é indispensável atribuir à família papel preponderante. Em sendo assim, para que a educação logre êxito como conjunto quase infinito de fatos sociais, é preciso que haja investimentos em emprego e renda para as famílias, segurança, moradia, espaços de lazer e atividades em dias de descanso, confraternização. Mais: eleger a educação como base de sustentação da crença numa possível e bem-sucedida sociabilidade é dedicar, de modo bastante direto e estreitamente vinculado, atenção ao trabalho, à cultura e às diversas funções sociais de governos e instituições públicas e privadas. Nesse sentido, a solidariedade orgânica, complexa e integrada, deve instar reunir, como frisado, a atuação de cada parte em convergência às necessidades e expectativas do todo, do real em si. 

Um derradeiro ato durkheimiano torna o sociólogo francês um autor contemporâneo e indispensável para pensar nosso tumultuado universo (pós)moderno. Trata-se do destacamento da responsabilidade social sobre a formação e a atuação dos indivíduos. Se foi negado a um jovem de treze ou catorze anos um núcleo familiar estruturado, uma escola decente, uma sociedade realmente solidária, é possível criminalizá-lo por uma atitude corrosiva, agressiva, violenta? Para Durkheim, não. Antes, faz-se necessário imputar culpa à sociedade, sua debilidade em definir caminhos, criar métodos de convencimento e persuasão, investir maciçamente na elevação da vida individual sintonizada com os desejos e necessidades da consciência coletiva. O preço a pagar é do todo, muito mais de todos, muito menos de cada um.  Deve-se cobrar, segundo Durkheim, de quem recebeu da sociedade as regras e os meios, os frutos e as fórmulas. Do contrário, a mea culpa é social.

Driblar as chances da inviabilidade de um forte grau de coesão social é tarefa dos esforços que atuam conjuntamente na trama da partilha social, dialeticamente, se assim posso dizer ao me referir a Émile Durkheim, um clássico entre os bons clássicos.