28 setembro 2011

A Greve


Fotograma de "A Greve", de Sergei Eisenstein (1924)

Quando penso na palavra greve, duas coisas me vêm imediatamente à cabeça: o filme de Eisenstein, de 1924, uma das grandes obras-primas do cinema mundial, e o fato de a minha geração (das mais novas, nem se fala...) não ter quase nenhuma familiaridade com esse tipo de acontecimento.

Mudaram muito as configurações do universo do trabalho nos últimos vinte ou trinta anos. A precarização aliada à automação, a qualificação sempre exigida lado a lado com os baixos salários, os poucos empregos disputados por multidões jogaram ao pó os grandes movimentos contestatórios. A individualização cega e a hipercompetição praticamente soterraram a solidariedade de classe e a consciência do humano para além de sua minúscula parcela naufragada e impotente.  

Nesse sentido, diante de uma greve, rara e invariavelmente mal interpretada por seus agentes e por quase toda a sociedade, nossas emoções e pouca razão se dividem entre a total indiferença e a indignação por atrapalhar questões pessoais, caminhadas e projetos individuais.

Não obstante o direito de greve estar inscrito na Constituição Federal, de 1988 – um avanço democrático que levou décadas para nos abraçar -, muitas dessas formas coletivas de insatisfação e inquietude podem ser declaradas abusivas, inconstitucionais, por se tratar de “interrupção de serviços essenciais”.

Em verdade, declarar que uma greve é ilegal por paralisar práticas mais substantivas do que outras é admitir que uns são essenciais, outros, superficiais. Mais: que as pessoas atingidas direta ou indiretamente por greves serão unanimemente contrárias às demandas dos trabalhadores que se veem obrigados à suspensão de suas atividades cotidianas.

A greve não é dessas coisas que se fazem por aí porque não há opção ou porque reina a absoluta falta do que fazer. Ela se refere a descontentamentos, a ferimentos que doem na dignidade de quem trabalha e deseja uma vida melhor para si e para seus filhos e netos.

Antes de julgar de modo apressado e, por extensão, equivocado uma ação grevista, procure refletir sobre quantas reivindicações gostaria de ter feito, partilhado; reflita sobre quantas vezes quis gritar e ter um mundo inteiro para ouvir os ecos da indignação, da rebeldia, da vontade de mudar a vida, o curso da história. Se a resposta provável for "muitas, muitas vezes", celebre um gigantesco viva a quem ainda tem coragem de levar suas dores e delícias às últimas consequências.

20 setembro 2011

Conhecer é sempre mais



Lago Ness, em Highland, na Escócia. Todos reconhecem o mistério do monstro que vive em suas águas. Alguém o conhece?!

Reconhecer é menos do que conhecer. Ainda que o prefixo “re” carregue a ideia de mais, de novo, outra vez, o fato de eu reconhecer algo ou alguém não garante que eu saiba do que ou de quem se trata. Dizer que reconheceu alguém na rua, por exemplo, é atestar que viu, lembrou-se de um rosto, de uma personagem, de uma figura pública ou simplesmente familiar. Afirmar que se conhece alguém é algo bem mais complexo, definitivamente embaraçoso para nossas pretensões tão fragilmente humanas, belamente imperfeitas.

De quando em vez, defronto-me com ideias que sou obrigado a reconhecer como válidas, não obstante não as conheça muito bem. Em reuniões, aqueles encontros entre tipos humanos aturdidos pelo desejo de demonstrar poder ou prepotência pura e simples, reconheço a abrangência de muitos argumentos, embora eu não possa conhecer, naquele instante, suas origens, suas verdadeiras intenções. Em momentos diversos, reconheço sons e sinais, mas sou incapaz de conhecer a música ou a questão em voga – ou a voga em questão, como poeticamente ouvi de um irmão potiguar muitos anos atrás.

A bondade humana, inquestionável em face de atos genuínos de generosidade e altruísmo, pode ser reconhecida. Já a condição humana, desafio filosófico e locus do suposto bem maior, não pode ser, por um esforço isolado e pessoal, conhecida, esmiuçada.

Esmiuçar, destrinchar, escarafunchar são verbos que se aproximam do conhecer. De longe refletem algum conhecimento, um fenômeno dado a brevidades, imagens e sensações. Reconheço que o amor, mistério-mor, é essencial para a verdadeira autoestima e para a tão sonhada felicidade. Mas posso afirmar que o conheço em toda a sua sinuosidade?

Minha profissão é reconhecida pela sociedade, inclusive do ponto de vista legal (lei nº 6.888, de 10 de dezembro de 1980). A sociedade sabe o que de fato fazem os sociólogos em seu saber/agir? Reconheço muita gente por aí. Conheço os poucos sujeitos que vivem próximos a mim? Sei muitas coisas, reconheço. Mas será que conheço mesmo as coisas que julgo saber?!

Reconheço países no mapa e monumentos históricos. Conheço-os? Reconheço ainda hoje os objetos de antigas e intensas paixões. Conheci-os alguma vez? Reconheço letras, palavras, expressões, parágrafos, versos e até prosas inteiras. Posso acreditar que conheço tudo isso na profundidade necessária de suas histórias, buscas e inquietudes? Reconheço que me especializei em reconhecer passos e caminhos. Não conheço, contudo, meu próprio destino – jamais o conhecerei!

A formação de uma pouco santa cruzada para perscrutar e condenar ideias, fatos e sujeitos que causaram arrependimentos é um reconhecimento de que se errou, sem dúvida. Daí, no entanto, vaticinar lá e acolá que se conhecem os alvos da fúria e os males reais do passado, seus agentes e circunstâncias, é dar provas resolutas de que pouco se conhece da complexidade histórica. Andar atrás do ontem feito sombra para legitimar que agora se é diferente – evoluiu, desenganou-se, sublimou o equívoco ou a morte – é triangular entre o vazio, o desnecessário e o absurdamente ridículo.

A mudança é elemento alienável da vida, reconheço. (Tão indissociável uma coisa da outra quanto o são a democracia e a vontade geral, em Rousseau.) Apregoar que mudanças pessoais traduzem a realidade elevada de todos os sujeitos é desconhecer a pluralidade de experiências que habitam a vida; é negar que somos, de um modo sempre dinâmico, tenso e cheio de idas e vindas, a unidade na diversidade.

Perceber que o mundo é de muitos e que muita coisa pode permitir crescer sem ódio nem rancor é a única coisa que reconheço e julgo conhecer ao mesmo tempo.

16 setembro 2011

Outras torres


"Castle and Sun", de Paul Klee

Não vou renunciar! Colocado nesta encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que foi plantada na consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente. Eles têm a força, poderão nos avassalar, porém não se detêm os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos". (Presidente chileno Salvador Allende, na manhã de 11 de setembro de 1973, dia em que militares chilenos, com amplo e efusivo apoio estadunidense, depuseram um governo democrático e deram início a mais sangrenta ditadura latino-americana no século XX)

Nunca foi surpresa saber que a ideia segundo a qual a guerra traz a paz encanta muitas cabeças por aí.  Na velha Roma, na locução latina atribuída a Publius Flavius Vegetius Renatus, a cantilena já estava dada: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Meio mundo, senão mais, nasceu, cresceu, viveu e morreu acreditando nisso. (Boa parte desse quase todo o mundo morreu, aliás, em guerras e derivações.)

Diante da queda das torres gêmeas na Nova Iorque do início deste século, muitas lágrimas demonstraram ódio ao terrorismo internacional e aos inimigos estadunidenses. Olhos e sentidos programados para não ver, não perceber, na cintilante força da história, eventos e políticas que, se não justificam, explicam parte do horror que o mundo alimenta contra a chamada “América”. (Alguns amantes incondicionais da terra de George Washington debocham da expressão “estadunidense”, uma vez que imaginam ser os irmãos do norte os verdadeiros “americanos” – nada de dividir tão vasto e diversificado continente com mexicanos, cubanos, uruguaios, brasileiros... São os mesmos “americanófanos” que batizaram a Primeira República brasileira de “Estados Unidos do Sul”.)

Nunca fui antiestadunidense. Ao contrário. A música e as letras dos nossos irmãos do norte são um primor em sua própria historicidade: de lá vieram, entre outras maravilhas, a literatura de Hemingway e o cântico sofrido das plantações de algodão, o blues. Desnecessário falar do cinema, das tecnologias de ponta, da contracultura e dos ícones que contestaram, de muitos modos e desde sempre... as intempéries e as arrogâncias do Império.

Consta que Max Weber (1864-1920), o maior sociólogo do século XX, viajou para fora da Europa uma única vez. Foi conhecer as badaladas ex-colônias inglesas na América, que haviam produzido, nos termos de sua luta por independência, uma das três decisivas revoluções que deram empuxo à modernidade. (Ao lado de ingleses e franceses, estadunidenses contribuíram decisivamente na edificação do mundo moderno. Enquanto ingleses e suas transformações no universo do trabalho industrializavam e urbanizavam nosso tempo; enquanto franceses decapitavam reis, dividiam o poder político e definiam um sem número de novas instituições que trariam vida às subjetividades humanas, os estadunidenses se incumbiam de dar ao mundo um ideal de nação, um forte espírito comunitário, capaz de trasladar desenvolvimentos efêmeros e personalistas e atingir um corpo unificado, um país de cada um e de todos.)

Weber, autor, em 1904, de “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, um dos mais influentes livros de todos os tempos, assombrado com o regime de trabalho extenso dos trabalhadores estadunidenses, a insalubridade dos ambientes de produção, os parcos salários, a decrepitude de moradias e condições de vida, a cultura do “salve-se quem puder” que já hegemonizava a mentalidade ianque, afirmou que, se aquele fosse o futuro do capitalismo e o verdadeiro ensejo para práticas de liberdade e democracia, o amanhã seria sombrio e aterrorizante. Mestre Weber era, por isso e um pouco mais, um “liberal em desespero”. Acreditava no livre empreender, mas perdia-se nas incertezas trazidas à luz por uma realidade que abrilhantava a vida de tão poucos, amesquinhando o presente e o porvir de multidões.

Weber, bem ao contrário dos novos cristãos do liberalismo e da cultura conservadora de nossos dias – muitos deles envoltos por discursos preconceituosos e estúpidos, blindados por palavras de bom-mocismo e pura dissimulação – tinha em seu espírito tão iluminado algo que faz falta demais às esvaziadas não reflexões que tomam os espaços públicos da vida analógica e digital: autocrítica. Ele nunca mudou de lado, mas soube como poucos praticar o verdadeiro sentido da palavra evolução.

13 setembro 2011

Um banquete de Walter Benjamin


É belíssima a parábola de Walter Benjamin intitulada "O rei e a omelete"*. Na pequena história de um rei em conversa com seu dileto cozinheiro, Benjamin investiga os perigos da memória, o assalto que algumas equivocadas sensações praticam contra a consciência humana. Se recordar é viver, convence-nos o autor das "Passagens", prender-se a lembranças congeladas é caminho certo para o erro e a infelicidade.

Sentindo-se solitário e tomado por uma estrondosa melancolia, o rei pede ao cozinheiro que lhe prepare uma omelete de amoras, igual a uma que experimentou na infância, ofertada por uma velha e nunca encontrada mulher que deu guarida a ele e a seu pai, durante uma fuga, nos momentos subsequentes a uma derrota em batalha contra o exército de um reino vizinho. Ao solicitar o prato simples à base de amoras, cujo sabor era mais vivo à ideia do que ao paladar, o rei julgava trazer de volta grandes sensações vivenciadas naqueles momentos de repouso e aconchego na casa da generosa senhora. Em meio a medos, incertezas e frustrações, a omelete, acreditava o rei, devolvera-lhe o sentido da vida, a paz ao coração. Era hora de sentir tudo aquilo de novo. Emblemática, contudo, foi a sentença dada pelo rei ao cozinheiro: se conseguir uma omelete como aquela, viverá rico, feliz e será meu herdeiro; se falhar, morrerá. Ainda mais radiantes e contundentes foram as palavras imediatas do cozinheiro em resposta à ameaça real: traga logo o carrasco, meu senhor, chegou a minha hora de morrer.

Entre muitas incríveis lições, o mestre-cuca real afirmou que até saberia fazer uma saborosa omelete, igual ou melhor àquela sorvida pelo rei em seu tempo de criança. Não obstante conhecer a técnica para o fazimento de uma inesquecível omelete de amoras, o cozinheiro não lograria êxito algum em devolver ao rei uma experiência única, marcada pelo alívio, pelo alerta picante do perigo, pela mão estendida e o oferecimento de tranquilidade num instante de perseguição e temeridade. Mais: a omelete de hoje não reproduziria a delícia inusitada de um presente-enigma e de um futuro completamente aberto.

Admirado com as palavras do cozinheiro - e convencido de sua impressionante vitalidade -, o rei recompensou-o com uma imensa fortuna e a liberdade plena em relação às obrigações reais.

Walter Benjamin foi um pensador único, original, intuitivo, marxista de um jeito muito próprio e autêntico. Ao passo que se tornou convicto muito cedo da abrangência do marxismo para explicar as espoliações levadas a cabo pelo grotesco do capital, cercou-se também da certeza de que as artes e o universo cultural mereciam destaque contundente nas tarefas a que se lançavam os revolucionários. Em seus escritos, a fotografia, o cinema, o brinquedo, a literatura e o olhar inquieto do homem diante da realidade ilustram o mundo dos seus leitores. Benjamin, provavelmente para muito além de qualquer outro grande pensador, soube reunir a força de seus amores - depositados em conflito no seu coração - e a eloquência de seus posicionamentos críticos e invariavelmente inteligentes e sensíveis. Dessa amálgama tão complexa, nasce a conturbada melancolia benjaminiana.

Razão e emoção, essa diáde tão controversa, recebe da vida e da obra do alemão Walter Benjamin sua mais bem acabada, aclamada e inquestionada síntese. O rei provavelmente teve em seu arguto cozinheiro o alter-ego desse incrível gênio das ideias.

* No Brasil, o miniconto está publicado no volume III das Obras Escolhidas de Walter Benjamin, "Rua de Mão Única", publicado pela Editora Brasiliense (2009, quarta reimpressão).

05 setembro 2011

Pequena crítica prosaica


A atriz Scarlett Johansson, uma poesia nova-iorquina nascida em 1984.

Cresci acreditando numa máxima cuja autoria desconheço por completo: "A prosa está ao alcance de todos; a poesia é privilégio de poucos, daqueles que possuem aguda sensibilidade humana". Eu permaneço fiel à segunda parte do vaticínio. Olhar poeticamente a vida e seus afluentes, afetos e acontecimentos, razão e insensatez, é de fato um monopólio de almas que conquistaram a chance de se elevar, "sair do chão", como cantam ídolos populares em seus espetáculos sem poesia alguma. Dar a um mundo tão duro e reificado (para usar uma expressão lukacsiana tão démodé em tempos de utilitarismo exponenciado e esvaziamento reflexivo) poemas, versos, cor e brisa em forma de letra, é mais do que um privilégio; é uma plena graça. Poetas, sem sombra de dúvida, são sujeitos que se fabricam em máquinas raras, artesanais, com um impetuoso quê divino.

A prosa eu via como uma habilidade mínima de integrar e dar sentido a ideias e escritas, por mais simples que pudessem ser. Na oralidade, a prosa me aparecia como transmissão imediata de saberes. Na historicidade, a prosa era investigação, crítica, registro, feitura da memória: interagiam nela o ontem, o hoje e o amanhã, esboçando-se um certo desejo de civilização.Na cotidianidade, a prosa já me foi receita, recado, crônica da vida, uma impressão do mundo, uma singular e singela rubrica do ato inexorável e universal de pensar, julgar, agir, tudo a um só tempo.

Em tempos de tão escasso conteúdo humano e proliferação descontrolada de imagens e códigos tribais, inacessíveis ao outro antropológico, sinto, hoje, na carne, que a prosa é o grande equivalente geral da sensibilidade poética: para ser clara, bonita e envolvente, a prosa requer capturar a rara máquina em que são fabricados os poetas. Até lá, de modo bisonho e até melancólico, permaneço ressentido das palavras vivas, fortes, apaixonadas e apaixonantes. Sigo só, aprisionado à poesia do mundo que já acabou.