20 setembro 2011

Conhecer é sempre mais



Lago Ness, em Highland, na Escócia. Todos reconhecem o mistério do monstro que vive em suas águas. Alguém o conhece?!

Reconhecer é menos do que conhecer. Ainda que o prefixo “re” carregue a ideia de mais, de novo, outra vez, o fato de eu reconhecer algo ou alguém não garante que eu saiba do que ou de quem se trata. Dizer que reconheceu alguém na rua, por exemplo, é atestar que viu, lembrou-se de um rosto, de uma personagem, de uma figura pública ou simplesmente familiar. Afirmar que se conhece alguém é algo bem mais complexo, definitivamente embaraçoso para nossas pretensões tão fragilmente humanas, belamente imperfeitas.

De quando em vez, defronto-me com ideias que sou obrigado a reconhecer como válidas, não obstante não as conheça muito bem. Em reuniões, aqueles encontros entre tipos humanos aturdidos pelo desejo de demonstrar poder ou prepotência pura e simples, reconheço a abrangência de muitos argumentos, embora eu não possa conhecer, naquele instante, suas origens, suas verdadeiras intenções. Em momentos diversos, reconheço sons e sinais, mas sou incapaz de conhecer a música ou a questão em voga – ou a voga em questão, como poeticamente ouvi de um irmão potiguar muitos anos atrás.

A bondade humana, inquestionável em face de atos genuínos de generosidade e altruísmo, pode ser reconhecida. Já a condição humana, desafio filosófico e locus do suposto bem maior, não pode ser, por um esforço isolado e pessoal, conhecida, esmiuçada.

Esmiuçar, destrinchar, escarafunchar são verbos que se aproximam do conhecer. De longe refletem algum conhecimento, um fenômeno dado a brevidades, imagens e sensações. Reconheço que o amor, mistério-mor, é essencial para a verdadeira autoestima e para a tão sonhada felicidade. Mas posso afirmar que o conheço em toda a sua sinuosidade?

Minha profissão é reconhecida pela sociedade, inclusive do ponto de vista legal (lei nº 6.888, de 10 de dezembro de 1980). A sociedade sabe o que de fato fazem os sociólogos em seu saber/agir? Reconheço muita gente por aí. Conheço os poucos sujeitos que vivem próximos a mim? Sei muitas coisas, reconheço. Mas será que conheço mesmo as coisas que julgo saber?!

Reconheço países no mapa e monumentos históricos. Conheço-os? Reconheço ainda hoje os objetos de antigas e intensas paixões. Conheci-os alguma vez? Reconheço letras, palavras, expressões, parágrafos, versos e até prosas inteiras. Posso acreditar que conheço tudo isso na profundidade necessária de suas histórias, buscas e inquietudes? Reconheço que me especializei em reconhecer passos e caminhos. Não conheço, contudo, meu próprio destino – jamais o conhecerei!

A formação de uma pouco santa cruzada para perscrutar e condenar ideias, fatos e sujeitos que causaram arrependimentos é um reconhecimento de que se errou, sem dúvida. Daí, no entanto, vaticinar lá e acolá que se conhecem os alvos da fúria e os males reais do passado, seus agentes e circunstâncias, é dar provas resolutas de que pouco se conhece da complexidade histórica. Andar atrás do ontem feito sombra para legitimar que agora se é diferente – evoluiu, desenganou-se, sublimou o equívoco ou a morte – é triangular entre o vazio, o desnecessário e o absurdamente ridículo.

A mudança é elemento alienável da vida, reconheço. (Tão indissociável uma coisa da outra quanto o são a democracia e a vontade geral, em Rousseau.) Apregoar que mudanças pessoais traduzem a realidade elevada de todos os sujeitos é desconhecer a pluralidade de experiências que habitam a vida; é negar que somos, de um modo sempre dinâmico, tenso e cheio de idas e vindas, a unidade na diversidade.

Perceber que o mundo é de muitos e que muita coisa pode permitir crescer sem ódio nem rancor é a única coisa que reconheço e julgo conhecer ao mesmo tempo.