16 setembro 2011

Outras torres


"Castle and Sun", de Paul Klee

Não vou renunciar! Colocado nesta encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que foi plantada na consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente. Eles têm a força, poderão nos avassalar, porém não se detêm os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos". (Presidente chileno Salvador Allende, na manhã de 11 de setembro de 1973, dia em que militares chilenos, com amplo e efusivo apoio estadunidense, depuseram um governo democrático e deram início a mais sangrenta ditadura latino-americana no século XX)

Nunca foi surpresa saber que a ideia segundo a qual a guerra traz a paz encanta muitas cabeças por aí.  Na velha Roma, na locução latina atribuída a Publius Flavius Vegetius Renatus, a cantilena já estava dada: “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. Meio mundo, senão mais, nasceu, cresceu, viveu e morreu acreditando nisso. (Boa parte desse quase todo o mundo morreu, aliás, em guerras e derivações.)

Diante da queda das torres gêmeas na Nova Iorque do início deste século, muitas lágrimas demonstraram ódio ao terrorismo internacional e aos inimigos estadunidenses. Olhos e sentidos programados para não ver, não perceber, na cintilante força da história, eventos e políticas que, se não justificam, explicam parte do horror que o mundo alimenta contra a chamada “América”. (Alguns amantes incondicionais da terra de George Washington debocham da expressão “estadunidense”, uma vez que imaginam ser os irmãos do norte os verdadeiros “americanos” – nada de dividir tão vasto e diversificado continente com mexicanos, cubanos, uruguaios, brasileiros... São os mesmos “americanófanos” que batizaram a Primeira República brasileira de “Estados Unidos do Sul”.)

Nunca fui antiestadunidense. Ao contrário. A música e as letras dos nossos irmãos do norte são um primor em sua própria historicidade: de lá vieram, entre outras maravilhas, a literatura de Hemingway e o cântico sofrido das plantações de algodão, o blues. Desnecessário falar do cinema, das tecnologias de ponta, da contracultura e dos ícones que contestaram, de muitos modos e desde sempre... as intempéries e as arrogâncias do Império.

Consta que Max Weber (1864-1920), o maior sociólogo do século XX, viajou para fora da Europa uma única vez. Foi conhecer as badaladas ex-colônias inglesas na América, que haviam produzido, nos termos de sua luta por independência, uma das três decisivas revoluções que deram empuxo à modernidade. (Ao lado de ingleses e franceses, estadunidenses contribuíram decisivamente na edificação do mundo moderno. Enquanto ingleses e suas transformações no universo do trabalho industrializavam e urbanizavam nosso tempo; enquanto franceses decapitavam reis, dividiam o poder político e definiam um sem número de novas instituições que trariam vida às subjetividades humanas, os estadunidenses se incumbiam de dar ao mundo um ideal de nação, um forte espírito comunitário, capaz de trasladar desenvolvimentos efêmeros e personalistas e atingir um corpo unificado, um país de cada um e de todos.)

Weber, autor, em 1904, de “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, um dos mais influentes livros de todos os tempos, assombrado com o regime de trabalho extenso dos trabalhadores estadunidenses, a insalubridade dos ambientes de produção, os parcos salários, a decrepitude de moradias e condições de vida, a cultura do “salve-se quem puder” que já hegemonizava a mentalidade ianque, afirmou que, se aquele fosse o futuro do capitalismo e o verdadeiro ensejo para práticas de liberdade e democracia, o amanhã seria sombrio e aterrorizante. Mestre Weber era, por isso e um pouco mais, um “liberal em desespero”. Acreditava no livre empreender, mas perdia-se nas incertezas trazidas à luz por uma realidade que abrilhantava a vida de tão poucos, amesquinhando o presente e o porvir de multidões.

Weber, bem ao contrário dos novos cristãos do liberalismo e da cultura conservadora de nossos dias – muitos deles envoltos por discursos preconceituosos e estúpidos, blindados por palavras de bom-mocismo e pura dissimulação – tinha em seu espírito tão iluminado algo que faz falta demais às esvaziadas não reflexões que tomam os espaços públicos da vida analógica e digital: autocrítica. Ele nunca mudou de lado, mas soube como poucos praticar o verdadeiro sentido da palavra evolução.