05 setembro 2011

Pequena crítica prosaica


A atriz Scarlett Johansson, uma poesia nova-iorquina nascida em 1984.

Cresci acreditando numa máxima cuja autoria desconheço por completo: "A prosa está ao alcance de todos; a poesia é privilégio de poucos, daqueles que possuem aguda sensibilidade humana". Eu permaneço fiel à segunda parte do vaticínio. Olhar poeticamente a vida e seus afluentes, afetos e acontecimentos, razão e insensatez, é de fato um monopólio de almas que conquistaram a chance de se elevar, "sair do chão", como cantam ídolos populares em seus espetáculos sem poesia alguma. Dar a um mundo tão duro e reificado (para usar uma expressão lukacsiana tão démodé em tempos de utilitarismo exponenciado e esvaziamento reflexivo) poemas, versos, cor e brisa em forma de letra, é mais do que um privilégio; é uma plena graça. Poetas, sem sombra de dúvida, são sujeitos que se fabricam em máquinas raras, artesanais, com um impetuoso quê divino.

A prosa eu via como uma habilidade mínima de integrar e dar sentido a ideias e escritas, por mais simples que pudessem ser. Na oralidade, a prosa me aparecia como transmissão imediata de saberes. Na historicidade, a prosa era investigação, crítica, registro, feitura da memória: interagiam nela o ontem, o hoje e o amanhã, esboçando-se um certo desejo de civilização.Na cotidianidade, a prosa já me foi receita, recado, crônica da vida, uma impressão do mundo, uma singular e singela rubrica do ato inexorável e universal de pensar, julgar, agir, tudo a um só tempo.

Em tempos de tão escasso conteúdo humano e proliferação descontrolada de imagens e códigos tribais, inacessíveis ao outro antropológico, sinto, hoje, na carne, que a prosa é o grande equivalente geral da sensibilidade poética: para ser clara, bonita e envolvente, a prosa requer capturar a rara máquina em que são fabricados os poetas. Até lá, de modo bisonho e até melancólico, permaneço ressentido das palavras vivas, fortes, apaixonadas e apaixonantes. Sigo só, aprisionado à poesia do mundo que já acabou.