13 setembro 2011

Um banquete de Walter Benjamin


É belíssima a parábola de Walter Benjamin intitulada "O rei e a omelete"*. Na pequena história de um rei em conversa com seu dileto cozinheiro, Benjamin investiga os perigos da memória, o assalto que algumas equivocadas sensações praticam contra a consciência humana. Se recordar é viver, convence-nos o autor das "Passagens", prender-se a lembranças congeladas é caminho certo para o erro e a infelicidade.

Sentindo-se solitário e tomado por uma estrondosa melancolia, o rei pede ao cozinheiro que lhe prepare uma omelete de amoras, igual a uma que experimentou na infância, ofertada por uma velha e nunca encontrada mulher que deu guarida a ele e a seu pai, durante uma fuga, nos momentos subsequentes a uma derrota em batalha contra o exército de um reino vizinho. Ao solicitar o prato simples à base de amoras, cujo sabor era mais vivo à ideia do que ao paladar, o rei julgava trazer de volta grandes sensações vivenciadas naqueles momentos de repouso e aconchego na casa da generosa senhora. Em meio a medos, incertezas e frustrações, a omelete, acreditava o rei, devolvera-lhe o sentido da vida, a paz ao coração. Era hora de sentir tudo aquilo de novo. Emblemática, contudo, foi a sentença dada pelo rei ao cozinheiro: se conseguir uma omelete como aquela, viverá rico, feliz e será meu herdeiro; se falhar, morrerá. Ainda mais radiantes e contundentes foram as palavras imediatas do cozinheiro em resposta à ameaça real: traga logo o carrasco, meu senhor, chegou a minha hora de morrer.

Entre muitas incríveis lições, o mestre-cuca real afirmou que até saberia fazer uma saborosa omelete, igual ou melhor àquela sorvida pelo rei em seu tempo de criança. Não obstante conhecer a técnica para o fazimento de uma inesquecível omelete de amoras, o cozinheiro não lograria êxito algum em devolver ao rei uma experiência única, marcada pelo alívio, pelo alerta picante do perigo, pela mão estendida e o oferecimento de tranquilidade num instante de perseguição e temeridade. Mais: a omelete de hoje não reproduziria a delícia inusitada de um presente-enigma e de um futuro completamente aberto.

Admirado com as palavras do cozinheiro - e convencido de sua impressionante vitalidade -, o rei recompensou-o com uma imensa fortuna e a liberdade plena em relação às obrigações reais.

Walter Benjamin foi um pensador único, original, intuitivo, marxista de um jeito muito próprio e autêntico. Ao passo que se tornou convicto muito cedo da abrangência do marxismo para explicar as espoliações levadas a cabo pelo grotesco do capital, cercou-se também da certeza de que as artes e o universo cultural mereciam destaque contundente nas tarefas a que se lançavam os revolucionários. Em seus escritos, a fotografia, o cinema, o brinquedo, a literatura e o olhar inquieto do homem diante da realidade ilustram o mundo dos seus leitores. Benjamin, provavelmente para muito além de qualquer outro grande pensador, soube reunir a força de seus amores - depositados em conflito no seu coração - e a eloquência de seus posicionamentos críticos e invariavelmente inteligentes e sensíveis. Dessa amálgama tão complexa, nasce a conturbada melancolia benjaminiana.

Razão e emoção, essa diáde tão controversa, recebe da vida e da obra do alemão Walter Benjamin sua mais bem acabada, aclamada e inquestionada síntese. O rei provavelmente teve em seu arguto cozinheiro o alter-ego desse incrível gênio das ideias.

* No Brasil, o miniconto está publicado no volume III das Obras Escolhidas de Walter Benjamin, "Rua de Mão Única", publicado pela Editora Brasiliense (2009, quarta reimpressão).