20 outubro 2011

A grande reportagem


A reportagem é uma comunhão com o presente, uma narrativa partilhada sobre o ontem e o agora. De Dostoiévski e Tolstoi, na Rússia do século XIX, passando pelo cubano José Martí, por Cervantes e Rabelais, atingindo as crônicas de Dickens e Balzac, acenando para as aventuras de Twain, as "flanagens" de Walter Benjamin, as epopeias modernas de John Reed e o jornalismo literário do pós-guerra nos Estados Unidos, a reportagem é o exercício da descoberta que vale a pena, engrandece, informa, forma e desenvolve estilos e caráter humano. Dos folhetins da primeira imprensa europeia às narrativas urbanas do umbral da Modernidade, a reportagem foi ganhando adeptos, marcas e novos contornos, chegando a rivalizar com a literatura e as grandes narrativas romanescas. Hoje, distribuídas pela pesquisa histórica e pelas publicações especializadas e de público muito seleto, a reportagem cativa poucos, distante que está da mídia hegemonizada pelos parâmetros mercadológicos do "rápido" e "fácil". De todo o modo, há histórias de ontem e de sempre que merecem visita e encantamento, uma contribuição imprescindível ao bom e arguto olhar sobre o mundo e a vida.

Quando garoto, admirava meu avô se apegar por longas horas aos jornais que lia. Eu não entendia muita coisa, mas, ao folhear os cadernos de que ele mais gostava, percebia que páginas e mais páginas eram dedicadas a uma única história, a um único tema. Alguns anos mais tarde habituei-me a reconhecer aquelas tantas páginas - que quase sempre se estendiam por outras edições do jornal - como sendo hospedeiras de grandes reportagens.

Como TV representava muito pouco em nossa vida familiar (exceção feita às novelas, aos telejornais e aos meus desenhos favoritos), cresci, estudei e me formei na universidade tendo o jornal impresso como principal fonte de informações e paradigma central no contato com a realidade. O conhecimento, enfim, partia invariavelmente dos assuntos inicialmente estampados nas folhas que tanto sujavam as mãos e encardiam toalhas de mesa e almofadas do sofá. (Em casa, havia, além de meu avô, meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho, cada qual com seu lugar favorito para emporcalhar com a tinta "maldita" dos periódicos diários.) O cinema, os grandes nomes das artes, dos contos e da crônica, a visão política, as referências biográficas e objetivas do mundo, tudo conheci pelos jornais. Havia fôlego nos escritos. E o mais forte desses vinha exatamente das grandes reportagens.

A ideia de uma reportagem é esmiuçar questões, sem jamais pretender esgotá-las. O intuito é buscar muitas fontes, contrastar verdades e pareceres. Um pouco mais: a reportagem, como toda boa e pertinente investigação, requer tempo, paciência, incríveis habilidades para a narrativa, a sedução, a persuasão. Acima de tudo, a reportagem reclama investimentos: viagens, livros, tecnologia, recursos humanos de primeiríssima linha.

Num tempo veloz e de incessante perscrutar por precisões matemáticas, a notícia virou leilão, um drop alojado num hiperlink. Com a corrida contemporânea pelo tempo real e pela notícia em cima dos fatos cotidianos (invariavelmente banalizados por imagens e sentenças de endosso ou escamoteamento), a coragem para desafiar a própria inteligência, como de modo emocionante fazia meu avô, vem desaparecendo, cedendo lugar à informação leve e pronta, descontextualizada e superficial; o mundo da informação privilegia e protege, hoje, o entretenimento fácil e alienante, travestido de júbilo e marcado essencialmente pelo desconsolado espírito de nosso tempo.

É triste ver que jornais perdem leitores, páginas e reportagens de grande alcance. É também muito triste que as redações jornalísticas sejam tão enxutas, dependentes de agências globalizadas e notícias pasteurizadas, esvaziadas de criticidade. Em muitos veículos, vem despontando a figura do articulista sem conteúdo, do comentador raivoso, do informante programado ideologicamente pelos ranços neoconservadores, a serviço dos mais nefastos medievalismos morais.

A dor maior, contudo, é a de imaginar que garotos e garotas, em cada vez maior número e drama, não terão a imagem do avô leitor e compenetrado, um desafiante das palavras e das ideias. Esse é o prejuízo maior, sem compensações. No lugar da palavra escrita e duradoura, instigante e provocativa, a imagem montada, o acontecimento transformado em linhas curtas, no tamanho e na essência.