05 outubro 2011

Meu mundo hoje é tricolor


Dia ruim, o sábado 01/10 coroava uma semana que havia sido muito da mais-ou-menos. Às 18 horas, sempre fiel às minhas majestosas três cores, resolvi buscar alento no jogo entre o Fluminense e o Santos. Bem arranjado em campo, o Flu foi resumido pelas palavras do comentarista do SPORTV: “É um time que tem espírito vencedor”. Perdendo por 1 a 0, o Fluzão empatou e, no segundo tempo, virou o jogo, com lindo gol de Sóbis. Aos quarenta e tantos da etapa final, o Santos empata o jogo. Qualquer time cairia; o Fluminense, no entanto, é bem mais que isso. Aos 50 minutos, no último suspiro dos acréscimos, escanteio, bola na área e gooooooool! O menino Márcio Rosário, que acabara de entrar, botou o cocuruto na bola e marcou o terceiro e mágico tento tricolor. O comentarista do SPORTV vaticinou mais uma vez: “Não é apenas o gol da vitória neste jogo. É o gol de um time que vai buscar o título”. Independentemente da profecia se realizar, eu só tenho a dizer o seguinte: “Fluminense, eu amo você!”

Eu enchia o mundo de versos. Achava que inundar a vida de poesia me traria bons pensamentos, despertaria sorrisos enjaulados, resgataria do difícil e forçado exílio ideias de mudar o mundo. Confesso que ainda não sei nada sobre o sucesso ou o total fracasso da alternativa poética. Sei somente que agora sou refém da poesia e não imagino mais o mundo sob tutela exclusiva do utilitarismo, do fatalismo dos que veem só rancor, tudo em fatias, a realidade mutilada por olhares estreitos e temerosos juízos. (Há aqueles que pensam ser a ironia uma sofisticada forma de demonstrar conhecimento. A ironia disso é que o recurso exagerado e bonachão à ironia só desnuda fragilidades e tagarelices, preconceitos e insubstâncias, a absoluta pobreza do espírito.)

Uma linda mulher percebeu e me disse que eu tenho visto as coisas com mais encanto e otimismo. É verdade. Nesse período de tanta busca pelo verso perfeito, amei quase todas as mulheres do mundo; fantasiei futuros e arrisquei presentes, os do tempo e os da sedução. O rock, o blues e o soul me deram muitas trilhas, românticas e dançantes, alegres e também de muita saudade e desejo proibido, completamente censurado. A linda mulher, contudo, estava correta: o mundo me era novo.

Num verão em que perguntas para temas difíceis não largavam minhas horas, por mais que eu nada quisesse com elas – as perguntas -, as luzes vieram do inusitado: três lindas cores passaram a compor a orquestra de uma graça que antes não havia. Na bandeira tricolor das Laranjeiras vi refletido o universo de respostas que a vida esperava de mim. A beleza de tudo passou, repentinamente, a fazer todo o sentido. Naqueles dias quentes, numa premonição em plena calmaria envolvente do Arpoador, eu soube, de uma vez por todas, que teria uma companheira feliz imensidão do mundo afora – e adentro, principal e dialeticamente.

Com alma e mãos tricolores, entendi que eu havia perdido Marx para reconquistá-lo mais tarde, quando a maturidade pudesse me cobrar a autocrítica e me ensinar a não viver de frustrações e arrependimentos. Na contramão do entristecido e esvaziado óbvio dos trânsfugas, reassumi minha história e, de lá para cá, venho passeando por trechos muitas vezes doloridos e espinhosos. Na feira da vida, onde todos vendem e compram de tudo, eu ofereço, no entanto, paz de espírito, coerência e muita, muita honestidade àqueles que me veem, que me acenam com fé, que me querem por perto, inventariando a tradição da mudança. Acima de tudo, busco ser diligente diante dos meus sonhos e das promessas que me fiz nas passagens da vida.

De rock, belas mulheres, escritos e imagens em movimento, vou vivendo, tocando meio desajeitadamente a carroça da resistência. Descobri que o reacionarismo se esconde alhures e lança aqui, ali e acolá santos nomes em vão (e que em suas versões mais desonestas proferem palavrões terríveis e depois rezam a Deus, cheios de cegueira religiosa). Na loucura dos que se acreditam sóbrios e reinventados pelo absurdo, o amor virou conclamação ao solipsismo e a fé se converteu em refúgio de condenação da verdadeira liberdade, aquela que se faz diante de um irmão, olho no olho, sempre de mãos dadas. Num mundo tão impiedoso e desigual, cruento e mesquinho, dizer que o indivíduo é a única referência possível (e dizer isso em nome de Deus, perdido entre orações e um estranho jeito de amar) é a síntese desnuda da própria desreferencialização, essa coisa cega, surda e muda atravessada por cinismos e má-fé. 

Do meu cantinho, proclamo Pasárgadas, novas rosas do povo, a formosura de uma renovada São Bernardo, a terra em miniatura da utopia que desta vez vencerá. Sigo em companhia dos velhos amigos e festejo a certeza de que desconjurados profetas do lugar-comum que alardeiam humildade em prosa trivial não têm o que temer: ninguém nunca traiu aquilo de que jamais realmente fez parte.

Eu, ainda e de novo, sou parcela fixa e fiel da esperança.