10 outubro 2011

O desafio de recriar


Um dos efeitos colaterais do excesso de informação são os ruídos. As redes sociais, por exemplo (e elas vão e vêm, entram e saem do gosto popular), proporcionam de tudo um pouco, de gente sabida a descabida, de ideias ricas a pobres espíritos arrependidos de jamais ter tido ideias. Há realmente de tudo nesta nossa época de superabundância factual e ultravelocidade da notícia. Mais que questionar os rumos disso tudo, parece que nos cabe mesmo refletir sobre os movimentos atuais, sobre o que está ocorrendo na já denominada era das incertezas e da superfluidade.

Saltita por toda parte um desencanto geral. Decretadas mortas, as utopias se converteram em peças de museu, numa palavra de sonoridade agradável, numa desconhecida expressão de muitas línguas, personagem certa de sonhos muito antigos. A regra hegemônica é o utilitarismo, a busca por resultados fáceis e rápidos, "rentáveis", inovadores a cada instante. As artes - esse conjunto tão diversificado da atividade humana na história - não deixam de sofrer as imposições de um mundo orientado pelas estratégias de mercado: seus valores perenes, cuja linguagem atravessa gerações e insiste em sensibilizar homens e mulheres de muitos tempos e espaços, capitulam diante de seus novos valores, instantâneos, fugazes, direcionados ao consumo incessante, às teorias imediatas, às tendências e modas da estação... A cultura, antigo valor-de-uso, notório espectro das identidades sócio-históricas, consagra-se agora na descartabilidade...

Ali e acolá, no entanto, reproduzem-se com enorme facilidade discursos favoráveis ao esvaziamento. A política se torna mercadoria, entrega-se também às exigências do mercado. Há quem reitere, esforçando-se por acreditar na própria inconsistência teórica, que o mercado nada mais é do que o livre encontro daqueles que podem produzir com aqueles outros a quem resta somente consumir - uma relação natural mediada pela lei. Pois muito bem. O que esse discurso se esquece de analisar é o fator determinante de quem está atrás e à frente da fabricação do universo legal (um ponto tão decisivo que coloca os construtores da ordem acima da lei e de qualquer suspeita). Numa sociedade de classes, ainda que alguns corações do "neotudo" sofram diante dessa expressão, a desigualdade é marca, pura essência. Leis, mercados, políticas e culturas têm lado, estão em favor de alguém, espraiam-se em direção oposta a de muitos interesses, juízos e saberes. A crença no solipsismo é uma leviandade que ignora precedentes estruturantes da sociedade moderna, conjunturas históricas, pactos coletivos em defesa de ideias e ações, todas sempre mediadas por grupos, classes e fragmentos de classe social.

O reino do supérfluo, desvalor equivocado dos atuais desarranjos culturais na assim chamada pós-modernidade (eu prefiro a expressão de Bauman, "sociedade líquido-moderna", sem forma nem consistência, breve, leve, incerta e incongruente), inibe o pensamento prudente e destrói o conhecimento verdadeiramente abrangente. Tudo é transformado em link, drop, imagem: as cores e formas tomam o lugar da letra e da imaginação; a criação se torna refém das "ferramentas" disponíveis.

Num mundo inundado pelo noticiário via satélite e pelas bandas largas de zilhões de bytes por milionésimo de segundo, heroicos são a tradição literária que se mantém, o poema que emociona, a arte que subjetiva impressões acerca do universal. O desafio, que não é nada novo, continua sendo politizar as tecnologias e acordar publicamente seus usos - em nome da sociedade e de suas parcelas, desiguais materialmente, desejosas da igualdade do espírito e da força da vida.