28 outubro 2011

O instante que nunca passa


Inspirado no Drácula, de Bram Stoker, o vampiro Nosferatu, personagem central e épico da clássica película de F.W. Murnau, lançada em 1922, é emblema expressionista do medo, das incertezas sem cor nem luz da sétima arte alemã do pós-guerra, na década de 1920. Hoje cult, Nosferatu é anti-herói dos bons, naquilo que resta de um tempo de criação, reflexão e ação no mundo, pelo mundo, com o mundo.

Um olhar atento pelos movimentos do mundo é capaz de detectar um fenômeno muito interessante: a maioria das pessoas que se protegem de modo exagerado da chamada violência urbana - construindo moradias distantes e eletrificadas, blindando automóveis, contratando segurança particular, mergulhando no medo e na angústia - é vítima de uma violência percebida, não dos itens concretos de uma realidade vivida. Isso, em linhas bem gerais, quer dizer que as verdadeiras vítimas da criminalidade e da exclusão social são os povos da periferia e, de um jeito diferente, os incautos cidadãos do tipo médio, que não escaparam à necessidade ou ao desejo de viver de fato e, assim, permanecerem vulneráveis às contradições da realidade comum.

A questão é: será que o mundo ao qual estamos todos estreitados é tão assustador quanto a impressão quase sempre negativa (e nada dialética, frise-se) que temos dele?

Ruas desertas, praças às moscas, condomínios e centros de lojas cheios; uma vida apagada, computadores e televisores sempre ligados... O abandono da vida abre portas para a banalização, esse triste fenômeno tão comum às mídias e bate-papos cotidianos que amplifica o ruído das ruas, dando contornos equivocados à realidade. Infância, sexualidade, diversão, educação, bem-estar, política e violência: a banalização disso tudo se revela no quanto esses prodígios da vida têm sido mal discutidos, mal interpretados, mel experienciados. No fundo - e também na superfície -, o banal tira tudo do lugar, coloca o certo no errado, o errado no ausente, o justo na lata de lixo. Em suas variedades mais estranhadas, o banal faz conversões absurdas, incitando a dolorosos acertos de contas com um passado que nunca existiu, mas, como um pesadelo, assombra o imaginário daqueles que acreditam no presente viver - eles apenas acreditam, infelizes caricaturas do hipervazio... Numa palavra, o banal é síntese do relativismo líquido-moderno, da inquestionável crise de valores do contemporâneo.

Em "Os irredutíveis", Daniel Bensaïd (1946-2010) aponta com clareza e perspicácia:

As novas místicas reagem às formas modernas de desolação social e moral do mundo, assim como às incertezas sobre a maneira de habitar politicamente um mundo em convulsão. Não são "velhos demônios" que voltam, mas demônios perfeitamente contemporâneos, nossos demônios inéditos, nascidos das núpcias bárbaras entre o mercado e a técnica. [...] Quando a política está em baixa, os deuses estão em alta. Quando o profano recua, o sagrado tem sua revanche. Quando a história se arrasta, a Eternidade levanta voo. Quando não se querem mais povos e classes, restam tribos, etnias, massas e maltas anômicas. [...] E quando o adversário é apresentado como uma encarnação de Satã, não é de espantar que ele seja desumanizado e bestializado, como em Guantánamo ou em Abu Ghraib.

Nesses termos, para enfrentar os problemas do mundo, como o da violência, por exemplo, o único meio é encarar aquilo de que temos medo, sob pena de o fantasma se revelar, cedo ou tarde, algo muito menor e mais frágil do que desenhava nossa depauperada e egoísta imaginação.