15 novembro 2011

A verdade está sempre além


Em 1989, os estadunidenses do Faith No More lançaram o álbum "The Real Thing", o terceiro de sua carreira e o primeiro com o vocalista Mike Patton, que tomou a cena compondo todas as canções do disco. Eu lembro que, quando ouvi o álbum pela primeira vez, um novo mundo de saberes musicais se abriu: o rock, o funk, o rap e o bom metal podiam, sim, cruzar caminhos e redefinir horizontes. As duas primeiras faixas, "From Out of Nowhere" e "Epic", marcaram minha vida e recoloriram minha visão sobre a música e as suas possibilidade de criação. Um disco clássico, que se fez na História e em muitas comparações, incluído para sempre na lista dos "grandes da sonoridade universal" e das escolas de hits e feitura de influências.

Conhecer depende de existir de fato a possibilidade de estabelecer comparações. Aquele que leu um livro, viu um filme, ouviu o fato por um único prisma... não tem como saber se está diante de algo bom ou ruim, verdadeiro ou falso. Nesse sentido, todo sujeito que se informa por uma única linha de pensamento está incapacitado de obter um conhecimento mais robusto sobre o mundo dos acontecimentos.

Nos últimos dias, durante os desdobramentos que culminaram na captura e na prisão dos estudantes que haviam ocupado o prédio da reitoria da Universidade de São Paulo, uma das Academias mais importantes da América Latina, percebi, atônito, que a maioria das mídias noticiava o fato por um único viés. As poucas vozes destoantes estavam em veículos menores, de pouca repercussão no interior da chamada "opinião pública" (um dos conceitos mais controvertidos nos estudos sociológicos sobre a comunicação social e a disseminação ideológica de formas de ser e viver, prestar, realizar).

O resultado todos conhecemos, é claro: o bem se colocou ao lado da ordem e de sua restituição; o mal se apossou dos jovens estudantes, os quais passaram a ser vistos e tidos como bagunceiros, vândalos e até criminosos.

O exemplo serve para uma breve reflexão sobre a origem do conhecimento e suas barreiras no ato de interpretar o mundo e desejar transformá-lo.

Há pessoas que acreditam num conhecimento in natura, ou seja, numa possibilidade de encontro da verdade mediante o uso rigoroso de métodos acertados e corretos. De uma forma ou de outra, essa visão compõe o arsenal positivista de análise, que acredita nas coisas (tudo é uma variação infinita de "coisas") como construção de uma vontade natural - aos sujeitos humanos cabe tão somente entender o que são as coisas, descrevendo-as, desajuizadamente. É possível que esse tipo de princípio interpretativo se aplique a fenômenos naturais - e nem mesmo a todas as ocorrências dessa ordem. Quando o assunto são os humanos e suas relações sociais, a coisa fica bem mais difícil, ganhando ares de complexidade, dinamismo e imponderado.

Cada um de nós vê aquilo que as circunstâncias em que vivemos permitem. Os jornais que leio, os programas de TV e Rádio que vejo ou escuto, os filmes que aprecio, os autores que admiro, as pessoas com quem convivo, tudo isso me oferece uma possibilidade de ver o mundo, de me aproximar ou de me distanciar da verdade. O mundo, portanto, será tanto mais amplo ou estreito a depender de quem são essas pessoas (gente de carne e osso, personagens do tempo histórico, escritores, artistas etc.) que atravessam a minha vida, qual caminho percorreram, que escolhas fizeram no curso da História.

Nesse sentido, há verdades e mentiras em relação aos estudantes da USP e em relação a tudo o mais. Para encontrar a verdade, contudo, o bom conhecimento pede comparações e historicidade. Quando todos contam as coisas de um mesmo jeito, ou de modo muito semelhante, prefira a dúvida. Na dúvida enforcamos esse tipo de conhecimento "natural" e "desinteressado" que andam fabricando por aí. É isso.

11 novembro 2011

Meu coração partiu...


A loba se foi. O recado veio em forma de um adeus muito bonito, delicado, repleto da formosura que me acostumei a ver em tudo que era seu. Eu enviei o sinal verde: se ela passasse, sem palavras nem rabiscos de vontade, eu teria entendido aquilo que só o meu sentimento de menino insistia em avistar vivo. É, a loba se foi para sempre, saiu voando, erguida pelo fôlego do meu coração. O que ficou desse órgão-pai em mim, sombras e calores, é apenas suficiente para seguir a vida. A felicidade, buscá-la-ei para dar aos outros. Aquela que poderia me abraçar voou, foi-se em direção ao destino infinito. Será sem dúvida uma longa viagem. Seja feliz, meu coração! Vou sempre torcer por você. Eu queria que ficasse aqui no meu peito, batendo e dando ritmo a minha via, mas, entorpecido, aceito e entendo sua peregrinação: meu peito não lhe é mais um bom lugar. Adeus, velho guerreiro.

09 novembro 2011

A foto


A modelo Nana Gouveia, nas curvas do Edifício Copan, pela fotógrafa Autumn Sonnichsen

Era uma fotografia comum. Não havia nela nenhuma técnica expressa, nenhum detalhe que a fizesse sobressair a outras; nenhum jogo de luz ou cor, nada de efeitos especiais, nada de ângulos inteligentes ou boas pegadas no uso das lentes. A paisagem - ou pano de fundo, como se queira - era das mais triviais, um legítimo lugar-comum. A pose se deu muito provavelmente num domingo ensolarado, numa dessas manhãs de primavera em que o verde produz um pouco dos mistérios de toda a sua beleza. Eu quero mesmo acreditar que exista questões inexplicáveis naquela fotografia. Porque é somente dessa maneira que eu posso justificar a mim mesmo o amor arrebatador que senti à primeiríssima vista por aquela mulher, a linda morena de olhos cor de infinito que deu sua graça a um fotógrafo por mim completamente desconhecido. A foto, uma dessas que se perdem entre milhares na Internet, retratava uma jovem que mirou, acertou, perfurou e sequestrou meu coração, a casa do estranho sentido provocado por isso tudo. E jamais adormecido novamente.

Cabelos longos, negros, leve e elegantemente lançados ao charme que os olhos emprestavam ao contorno do rosto. Entre os lábios, um esboço muitíssimo bem-acabado do sorriso perfeito. Por horas, tragado pela mística daquela boca, senti-me um admirador de Monalisa. Sim, via a arte, em pelo, porém não nua - devo lamentar esse fato?!

Os olhos cor de infinito conferiam ao rosto de sorriso irretocável, belo como os horizontes que se veem nas praias do Rio, um quê de sedução ora descarada e desavergonhada, ora cheia de pudor, meninice, mundo novo a desvendar. Depois de tanto tempo praticamente estático diante daquela fotografia, eu juro que ainda não reconhecia em mim o apelo predominante. Eu queria tudo, cada pedaço daquela mulher, um de cada vez; mas eu também desejava o silêncio da contemplação, um amor do ver, do tão somente imaginar. Quando me refiz - se é que me refiz -, o sentimento que prevalecia no louco repertório de minhas vontades era o de beijar, perder-me por horas nos sabores de um beijo sem fim, tão misterioso e lindo quanto o conjunto absolutamente impecável de curvas que protagonizavam o retrato.

Foto, fotografia, retrato, tanto faz. O que é certo é que todas aquelas belas formas existem de verdade. Os olhos da cor do inalcançável estão por aí, distribuindo estrelas brilhantes e amores atordoantes pelo mundo. Os enigmas daquela mulher inesquecível estão atravessando desejos e sentimentos em toda a parte.

Na noite do dia em que vi a foto não dormi nem um segundo. Na cama, de um lado para o outro, numa inquietude que era do corpo mas se expressava n'alma, o escuro era iluminado pelo sorriso que queimava a memória. Por quatro vezes, alto da madrugada, levantei-me, bebi muita água, busquei na pequena sacada da sala do apartamento um fragmento do céu que me dissesse alguma coisa. Eu precisava amar aquela mulher uma única vez que fosse.

Na manhã seguinte, exausto por conta da espera por respostas que não vieram, imaginei-me alforriado daquele sonho sem recompensa. Em poucos minutos, contudo, pus-me a rabiscar breves versos. Precisava traduzir em palavras aquilo que senti intensamente por tantas horas, diante e longe da fotografia.

Não consegui um verso sequer que pudesse ser considerado à altura do frenesi em mim despertado e alimentado por aquela mulher, pelas curvas que suscitaram emoções e sepultaram a razão.

Hoje vivo a poetizar  o beijo que jamais existirá - e que num dia eterno da minha vida permanece sendo tudo que mais quero deste mundo.

01 novembro 2011

O retorno do exílio


A linda atriz estadunidense Tori Black (Seattle, 1988), minha generosa e prestativa anfitriã no exílio

Ela foi uma das maiores mentiras da minha vida. É triste constatar, a propósito, que de autoenganos a vida está repleta, transbordando. Os erros que marcam, corroem, encharcam de arrependimento nossos dias são, no entanto, aqueles que brotam do desejo - desire, grafia sonora da língua inglesa, talvez seja a mais bela expressão musical da palavra: ao passo que é pura força, é igualmente chama de um desejo mágico, quase mítico. Para ser bem mais sincero, ela foi meu desire mais inócuo e impertinente. (Os pós-modernos, dados a um utilitarismo que não alimento, diriam que ela foi de fato minha maior e mais bombástica perda de tempo.)

Num momento recente em que ainda investigava nas trilhas loucas da minha alma por que me quis tão apaixonado por ela, escrevi de forma folhetinesca que o passado será sempre mistério, uma tentativa, na melhor das hipóteses, de aproximação. Escrevi também, no mesmo devaneio intimista, que o presente é essencialmente contradição, dizeres que não se afirmam, vontades que esbarram no inaudito. Em tom meio laudatório, apostei no futuro como sendo parábola inacabada, imperfeita, desafortunada por tentar trazer para o agora o que ainda não há, talvez nem seja - na condição de porvir, o amanhã só pode ser construção, uma bildung, vocábulo alemão que representa um tipo de educação que não cessa, diário e tenso, que cada um faz de si e para si mesmo, ora ajeitada, ora desajeitadamente.

Dediquei a ela contos que expunham (e contavam, e cantavam!) segredos que até de mim mesmo eu me esforçava por esconder. Defini trilhas dos álbuns musicais mais importantes em minha vida como canções que tivessem sido compostas para nós. Dei vazão às minhas fantasias, a um amor louco, moleque, apenas exuberância. Com isso tudo julguei homenageá-la, adorná-la com os quitutes da minha palavra. O que houve foi negação, reprovação, rejeição. Surgiu das palavras dela uma expressão-síntese: nojo.

Hoje e ainda de novo sozinho eu já sei onde procurar sensações que me fortaleçam. Nos calabouços de todas as memórias, essas imagens que se cruzam e produzem histórias diariamente, busco agora centelhas, pedaços de uma luz que inquietem meu coração. Do desire, contudo, aguardo menos mágica. Minha aposta agora é num real levemente sonhado, algo que eu possa tocar. Quero retornar do exílio. Logo.