09 novembro 2011

A foto


A modelo Nana Gouveia, nas curvas do Edifício Copan, pela fotógrafa Autumn Sonnichsen

Era uma fotografia comum. Não havia nela nenhuma técnica expressa, nenhum detalhe que a fizesse sobressair a outras; nenhum jogo de luz ou cor, nada de efeitos especiais, nada de ângulos inteligentes ou boas pegadas no uso das lentes. A paisagem - ou pano de fundo, como se queira - era das mais triviais, um legítimo lugar-comum. A pose se deu muito provavelmente num domingo ensolarado, numa dessas manhãs de primavera em que o verde produz um pouco dos mistérios de toda a sua beleza. Eu quero mesmo acreditar que exista questões inexplicáveis naquela fotografia. Porque é somente dessa maneira que eu posso justificar a mim mesmo o amor arrebatador que senti à primeiríssima vista por aquela mulher, a linda morena de olhos cor de infinito que deu sua graça a um fotógrafo por mim completamente desconhecido. A foto, uma dessas que se perdem entre milhares na Internet, retratava uma jovem que mirou, acertou, perfurou e sequestrou meu coração, a casa do estranho sentido provocado por isso tudo. E jamais adormecido novamente.

Cabelos longos, negros, leve e elegantemente lançados ao charme que os olhos emprestavam ao contorno do rosto. Entre os lábios, um esboço muitíssimo bem-acabado do sorriso perfeito. Por horas, tragado pela mística daquela boca, senti-me um admirador de Monalisa. Sim, via a arte, em pelo, porém não nua - devo lamentar esse fato?!

Os olhos cor de infinito conferiam ao rosto de sorriso irretocável, belo como os horizontes que se veem nas praias do Rio, um quê de sedução ora descarada e desavergonhada, ora cheia de pudor, meninice, mundo novo a desvendar. Depois de tanto tempo praticamente estático diante daquela fotografia, eu juro que ainda não reconhecia em mim o apelo predominante. Eu queria tudo, cada pedaço daquela mulher, um de cada vez; mas eu também desejava o silêncio da contemplação, um amor do ver, do tão somente imaginar. Quando me refiz - se é que me refiz -, o sentimento que prevalecia no louco repertório de minhas vontades era o de beijar, perder-me por horas nos sabores de um beijo sem fim, tão misterioso e lindo quanto o conjunto absolutamente impecável de curvas que protagonizavam o retrato.

Foto, fotografia, retrato, tanto faz. O que é certo é que todas aquelas belas formas existem de verdade. Os olhos da cor do inalcançável estão por aí, distribuindo estrelas brilhantes e amores atordoantes pelo mundo. Os enigmas daquela mulher inesquecível estão atravessando desejos e sentimentos em toda a parte.

Na noite do dia em que vi a foto não dormi nem um segundo. Na cama, de um lado para o outro, numa inquietude que era do corpo mas se expressava n'alma, o escuro era iluminado pelo sorriso que queimava a memória. Por quatro vezes, alto da madrugada, levantei-me, bebi muita água, busquei na pequena sacada da sala do apartamento um fragmento do céu que me dissesse alguma coisa. Eu precisava amar aquela mulher uma única vez que fosse.

Na manhã seguinte, exausto por conta da espera por respostas que não vieram, imaginei-me alforriado daquele sonho sem recompensa. Em poucos minutos, contudo, pus-me a rabiscar breves versos. Precisava traduzir em palavras aquilo que senti intensamente por tantas horas, diante e longe da fotografia.

Não consegui um verso sequer que pudesse ser considerado à altura do frenesi em mim despertado e alimentado por aquela mulher, pelas curvas que suscitaram emoções e sepultaram a razão.

Hoje vivo a poetizar  o beijo que jamais existirá - e que num dia eterno da minha vida permanece sendo tudo que mais quero deste mundo.