01 novembro 2011

O retorno do exílio


A linda atriz estadunidense Tori Black (Seattle, 1988), minha generosa e prestativa anfitriã no exílio

Ela foi uma das maiores mentiras da minha vida. É triste constatar, a propósito, que de autoenganos a vida está repleta, transbordando. Os erros que marcam, corroem, encharcam de arrependimento nossos dias são, no entanto, aqueles que brotam do desejo - desire, grafia sonora da língua inglesa, talvez seja a mais bela expressão musical da palavra: ao passo que é pura força, é igualmente chama de um desejo mágico, quase mítico. Para ser bem mais sincero, ela foi meu desire mais inócuo e impertinente. (Os pós-modernos, dados a um utilitarismo que não alimento, diriam que ela foi de fato minha maior e mais bombástica perda de tempo.)

Num momento recente em que ainda investigava nas trilhas loucas da minha alma por que me quis tão apaixonado por ela, escrevi de forma folhetinesca que o passado será sempre mistério, uma tentativa, na melhor das hipóteses, de aproximação. Escrevi também, no mesmo devaneio intimista, que o presente é essencialmente contradição, dizeres que não se afirmam, vontades que esbarram no inaudito. Em tom meio laudatório, apostei no futuro como sendo parábola inacabada, imperfeita, desafortunada por tentar trazer para o agora o que ainda não há, talvez nem seja - na condição de porvir, o amanhã só pode ser construção, uma bildung, vocábulo alemão que representa um tipo de educação que não cessa, diário e tenso, que cada um faz de si e para si mesmo, ora ajeitada, ora desajeitadamente.

Dediquei a ela contos que expunham (e contavam, e cantavam!) segredos que até de mim mesmo eu me esforçava por esconder. Defini trilhas dos álbuns musicais mais importantes em minha vida como canções que tivessem sido compostas para nós. Dei vazão às minhas fantasias, a um amor louco, moleque, apenas exuberância. Com isso tudo julguei homenageá-la, adorná-la com os quitutes da minha palavra. O que houve foi negação, reprovação, rejeição. Surgiu das palavras dela uma expressão-síntese: nojo.

Hoje e ainda de novo sozinho eu já sei onde procurar sensações que me fortaleçam. Nos calabouços de todas as memórias, essas imagens que se cruzam e produzem histórias diariamente, busco agora centelhas, pedaços de uma luz que inquietem meu coração. Do desire, contudo, aguardo menos mágica. Minha aposta agora é num real levemente sonhado, algo que eu possa tocar. Quero retornar do exílio. Logo.